Abril pro Rock 2006: Terceiro dia

O domingo veio para confirmar a triste especulação do fim de semana. Esta não foi uma edição muito feliz do Abril pro Rock. Numa rápida comparação, na sexta-feira do ano passado o Placebo e o Los Hermanos arrastou um público de nove mil pessoas. Este ano, os três dias juntos não devem ter conseguido esta marca. O motivo é constrangedor: o que todos queriam mesmo, era a repetição dos sucessos criados pela MTV. 

A última noite do evento não passou dos três mil espectadores. Uma média de 200 no primeiro show, o da pernambucana Iupi. Banda legal, bem montada. Errou numa introdução acústica, com um violoncelo para causar boa impressão. O bom deles é realmente a música rápida. A grande injustiça do domingo veio com o Cidadão Instigado (CE). Show bastante aguardado, que foi prejudicado pela aparelhagem técnica. No palco, o vocalista Fernando Catatau se dividia entre cantar e reclamar com a mesa de som.

Pernambuco mandou bem nos shows. Carfax e Parafusa mostraram firmeza de bandas prontas para exportação via gravadoras. Ambas com uma boa ajuda do coro do público. A Parafusa foi responsável por um dos shows mais legais de todo o domingo, com direito a um bem escolhido cover dos Mutantes. O que pareceu equivocado foi mesmo repetir o show da Volver, sob o suposto pretexto da presença de Frank Jorge, que era minoria no repertório. O Maquinado, de Lúcio Maia, ficou um tanto distante. Parece uma ótima banda para lugares menores, mas um pouco perdida num pavilhão que estava bem vazio.

De fora, Camille conquistou a cidade bem fácil. A francesa agradou tanto, com tantos gritos, sorrisos e aplausos, que se ela simplesmente fizesse um barulho qualquer com a boca, todos gostariam. E ela fez isso, e todos gostaram. Com direito a uma rápida invasão no palco e os novos fãs dançando e cantando junto com ela. Um deles era o guitarrista da banda Mellotrons, Enio, entrou até numa mistura de quase lambada com forró. 

O presente do Abril foi o show de Lafayette e os Tremendões. De longe, o mais divertido. Enquanto a banda Del Rey faz versões de Roberto Carlos bem swingadas, os Tremendões tiveram a sacada que o Rei sempre foi rock. Os arranjos eram pesados, bem montados, super contagiantes. Teve direito até participação de parte da Orquestra Imperial no palco.

Se alguém tinha alguma energia guardada da maratona do Abril pro Rock, ela foi embora com a Cachorro Grande. Volume mais alto da noite, com o pouco que restava do público coladinho, dançando e se divertindo no palco. Na seqüência, a Orquestra Imperial fez um encerramento em grande estilo. Partido alto na voz de bambas da MPB, com clima calminho para lembrar que vêm uma semana pela frente.

A partir desta semana, algumas poucas pessoas vão fazer o download das maravilhosas músicas da encantadora Camille, comprar o ótimo disco do Forgotten Boys ou dar força ao hype do fofo Montage. Todas as outras, vão continuar apenas reclamando. Na sua 14ª edição, o Abril pro Rock descobriu, assim como festivais vizinhos, o que é desperdiçar uma boa programação com um público que simplesmente não tem boa vontade com o novo.

7 comments

  1. emanuel

    bem, realmente não dá pra falar por todo mundo, mas eu amei o domingo do APR. nada tão comercial, shows bem sacados, tudo muito bom (exceto pelas falhas técnicas que aconteceram, deixando o vocal quase inaudível em alguns shows).

    confesso que fui muito mais pelo show da camille (que fez muito mais pra quem esperava um show com apenas lindas canções francesas), mas me diverti muito com lafayette, parafusa e realmente acabei as energias com cachorro grande. uma pena, já que o show da orquestra foi talvez o mais brilhante da noite.

  2. Thiago

    Opa Bruno, tudo bem? Li a sua cobertura dos dois primeiros dias no Abril pro rock no Overmundo e achei muito bacana. Que tal publicar a matéria sobre o terceiro dia no Overmundo também? Seria bacana também que você colocasse o link do seu site no final de cada texto por lá (no Overmundo), as pessoas vão conseguir chegar aqui com mais facilidade.

  3. Bruno

    Opa =)

    As fotos são todas minhas, crédito Bruno Nogueira!=P

    Legal, Thiago. Nunca achei q alguém fosse ler aquilo. Publiquei a terceira noite por lá. abs

  4. Thiago

    Poxa Bruno! Leram e tem até comentários, viu? Só uma dúvida: vc trabalha com a folha de pernambuco, né? Mas esses textos que estão no overmundo são exclusivos do seu blog ou são os seus textos da folha? Abraço

    Thiago

  5. Babadoforte!!!!!

    Abril pro rock 2006

    A primeira noite do APR 2006 começou furiosa com a banda cearense Montage arregaçando um electro bate estaca na cara da platéia. O som não deixou ouvir as letras, o que menos importa no caso do Montage. A performance-fechação na linha sex and violence do vocalista é mais importante do que a música e ponto final. O som do Montage não apresenta nenhuma novidade, veio na esteira da febre electro que toma conta do rock hoje. Contenção dos custos de produção, ou uma tendência estética? Uma versão descolada das funkeiras cariocas para os modernos descolados? O hype que se formou em torno da banda deu-lhes o status de maior representante do estilo hoje no Brasil, que um dia já foi do Defalla com o seu mega hit Popozuda.

    Na esteira da febre electro mundial Roxxy and Cook, uma dupla de Berlim, sobem ao palco com a platéia já ligada. Roxxy entra no palco de macacão de aviador, até ficar só de salto alto, top e calcinha e faz um charme enrolando-se numa bandeira do Brasil, ou empunhando uma guitarra em forma de coração, enquanto o seu companheiro lembra um integrante do Kraftwerk, Um contraste que realça o visual da dupla mas não a musica que eles fazem. O show da noite ainda estava por vir.

    É pela dupla transnacional Stereo Total que todos estão esperando. Quando o casal sobe ao palco, eles arrebatam o público fazendo o melhor show da noite. O ST não é uma banda de electro apenas, mas, também. Em 1993 ninguém falava em electro e eles já eram. Segundo, o Stereo Total é o que em matemática chamamos de Mínimo Múltiplo Comum. Da pequena bolsa azul bebe de madmoseille Françoise Cactus surge um kit de bateria ultra econômico, um caderninho de musicas e uma personalidade singular. Brezel Goring tira do seu quepe verde oliva uma petit machine de sons multifuncional, uma guitarra hand made e um senso de humor sem limites. Um pano pintado à mão com o nome Stereo Total completa o cenário.

    A cada música a frente do palco vai ficando mais apertada, até todo mundo está tomado pelo delírio que o Stereo Total provoca na mente e no coração das pessoas. Françoise convida amigos para dividir vocais em algumas musicas. Brezel corre o palco com um par de baquetas na mão tocando nas ferragens, nas caixas de som, gritando, berrando, pulando e operando seu kit multifuncional com maestria. A dupla tocou musicas de todos os discos e períodos da carreira, que começou em 1993 em Berlim.

    A platéia convoca a banda para o bis. A dupla retorna com dois hits mas é com a nova Everybody in the discothque (I hate) que uma anarquia estético-comportamental e uma catarse coletiva se instalam entre o palco e a platéia. Enquanto os seguranças tentam impedir as pessoas de subir no palco, Brezel puxa as pessoas para cima e o show termina numa grande festa (em cima do palco).

    O Electro está na moda, assim como o rock, assim como tantas outras coisas, mas a magia do Stereo Total é atemporal. A moda vai passar e eles vão seguir em frente como artistas referenciais de sua época.

    Compromissos profissionais me arrancaram do APR para a estrada de volta a João Pessoa, em minutos estava na fronteira PE/PB. Voltamos escutando o cd Discotheque, uma compilação de regravações e remixes lançado este ano pela banda. Mesmo fatigados, a magia do Stereo Total ainda reverberava em nossas almas. Uma noite memorável, antológica

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