Causa e consequência

Escuta essa. Aproveitei uma viagem que fiz semana passada para visitar uma das maiores gravadoras independentes do país. Conversa vai, conversa vêm, eles revelam que estavam bem interessados em contratar pelo menos duas bandas de Pernambuco. Pensou que era uma boa notícia? Nem é, porque isso não deve mais acontecer. Segundo eles, “porque no Recife ninguém compra os discos das bandas”.

Faz sentido. Como vão lançar um artista que não vai ser valorizado na própria cidade natal? Falaram até dos shows, que ninguém está querendo pagar R$ 10 para ver uma banda. Sndo didático, e até chato, vale explicar. A música funciona numa cadeia produtiva. Não adianta uma banda lançar um disco e/ou eu escrever sobre ele, se você não está mais nem ai para isso. Sem um desses três elementos, neste caso o público, ela não funciona. Entendeu?

Falando nisso
Ziggy Marley não vem mais para o Recife. E o motivo é o que foi dito logo acima. O cachê do filho de Bob Marley custa R$ 160 mil reais e exigiria pelo menos 5 mil pagantes num show. E, como os produtores já bem sabem, é mais fácil dar esse público da porta para fora, sem nem sequer entrar.

No estúdio
Quer se redimir disso? Ainda está em tempo. A banda Vamoz, uma das mais legais da cidade, está em estúdio terminando o próximo disco. Quem está na fase final desse processo é a Mula Manca e a Triste Figura. E quem já está com a bolachinha pronta e vendendo por ai é o Mellotrons.

6 comments

  1. eduardo

    bruno, faltou falar que boa parte do público não confia nos organizadores/produtores dessa cidade. desse jeito, fica parecendo que o único culpado é o público, que muitas vezes tem que enfrentar condições péssimas (calor, falta de cerveja, atrasos gigantescos) dos shows da cidade e insiste/continua frequentando shows e festas até não ter mais condições psicológicas e físicas de sofrer mais pelos mesmos motivos.
    e as bandas também não colaboram. quando fazem show na cidade tocam com uma preguiça de deixar a platéia sonolenta. aí é chamada pra tocar no abril pro rock ou recbeat [ou fazer show em sp] e faz um puta show.

  2. Rodrigo Medeiros

    Concordo, há uns tempos atrás você sabe que curtia essa cultura cd completos em internet e acabou-se. Vejo que é super importante mesmo valorizar o cds e continuar contribuindo para que os shows e eventos por aqui crescam e não parem, como alguns meses parou e só voltou agora.
    Ah… não podia deixar de comentar, a capa da folha de pe hoje tava me deixando com vontade de vomitar, coisa horrível. Mas na parte de cultura compensou :)

    Abraço!

  3. Bruno

    Eduardo… estou falando mais dos CDs que dos shows. Você tem razão, mas só até certo ponto. A Salazarte descolou o ótimo Quinta Underground, com show na excelente infra do Downtown e com as boas bandas daqui. Ar condicionado, segurança, bebida de qualidade. Tudo isso além de uma boa apresentação e só por R$ 10. Até agora só fizeram reclamar do preço.

  4. W

    Há vários lados para a mesma história, e todos só contribuem pra piorar a situação. Afinal, pra quê pagar 10 conto pra uma banda hoje se ela vai tocar por 2 conto ou de graça no próximo fim de semana? Deve ser assim que o povo pensa, ignorando que a diferença de preço é o que justifica a infra da festa (bebida, lugar, som, segurança). Se você vai numa festa bacana e a entrada é de graça, então tem patrocínio do governo por trás. E aí tá outro motivo que estraga tudo: todo mundo quer apoio do governo. É claro que às vezes tocar pra evento patrocinado garante cachês que talvez a banda não ganhasse se estivesse produzindo a festa por conta própria. Mas também doutrina o povo a não pagar quando não tiver patrocínio e o preço do ingresso for mais alto. Dez reais é uma micharia pra um projeto tipo a Quinta Underground, e é uma pena que esse também não vai dar certo. Eu acho que o caminho é a banda ir tocar pra quem tem grana. Tomar o lugar dessas bandinhas que tocam os sucessos da FM e ir tocar nos lugares da moda. E esquecer esse paternalismo pelo público que “adoooora” a banda mas não paga pra ver o show. Para esses, há os eventos de graça patrocinados pelo governo.

  5. eduardo

    eu sei que vc tava falando mais dos CDs do que dos shows, mas como vc mesmo falou a “cadeia produtiva” não funciona se separarmos o cd, o show e a crítica.
    em 99% dos casos, a banda faz muitos shows e se torna conhecida muito antes de gravar um cd. a pergunta que fica é: como querer que o seu público compre um cd se a banda [nessas horas ninguém lembra dos produtores e realizadores dos shows] não fazem shows decentes? a “cadeia produtiva” não se completa.

    o W levantou algumas questões importantes: patrocínio do governo, shows baratos, FÃS das bandas que não compram o cd.
    só não sei se ir tocar pra quem tem grana é a melhor saída.

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