Ahlev de Bossa – Pop up!

Duas coisas importantes que você vai perceber quando colocar o primeiro disco da Ahlev de Bossa no discman. O visor vai indicar apenas cinco músicas e, de tempo total, 51:50 minutos de duração. É difícil imaginar um resultado tão contraditório em disco. Músicas excessivamente longas, que nascem parte de um contexto excessivamente rápido. Rápido porque o nome, que não significa realmente nada, já era discutido em listas e entre interessados antes mesmo do primeiro show. Nos minutos seguintes que as primeiras músicas entraram na Internet.

Ahlev de Bossa, que também é o nome do primeiro disco (e da primeira música), nasceu da necessidade de cinco músicos locais de fazer experiências livres de formas. Coisa cada vez mais comum no Recife. São músicas instrumentais, que vão de sete a 20 minutos de duração cada. A composição parece nascer do acaso, sem as tradicionais intercalações entre um verso e refrão. A única interferência na música do Ahlev são sons externos. Gravações de televisão e rádio inseridos de fundo na forma de construções.

A diferença entre o Ahlev de Bossa e o que tem sido feito de música experimental no Recife aparece logo na primeira faixa. É o já citado desprendimento ao formato de estrofes da música. A composição da banda assume um sentido físico. Recortes que, somados, ganham os nomes de “Papo Cabeça”, “Señorita Amnesia” e “Ahlev de Bossa”. O “experimento” da banda é montar corpos de música sem muita textura, para depois colocar tudo na mesma embalagem.

O instrumental do Ahlev é progressivo. Livre de repetições. E é provavelmente o maior risco de todo o trabalho da banda. Dá para cortar os pulsos pelo menos sete vezes escutando a quinta faixa, que encerra o disco. O tipo de música que todo mundo tem tentado fugir nos, pelos menos, últimos 50 anos. É preciso paciência, boa vontade e três pensamentos felizes na memória para encarar uma seção completa do disco. O tipo de ritual que está virando tendência e fazendo o sucesso dos independentes Hurtmold, M. Takara, etc.

Parece que essa é mesmo a intenção dessa nova vertente experimental. Com um discurso de música pela pura intenção de criar música. Mas sempre embalado num CD que vai chegar de qualquer forma nas lojas do país. Se der certo, Ahlev de Bossa tem a vantagem de fazer isso com pouca pretensão. Potencial criativo e, pelos resultados de uma semana de lançamento, as ferramentas certas.

Publicado originalmente em 09.01.06

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