Negroove – Eles Não Usam Enê – Pop up!

É difícil diferenciar se o que o Negroove fez foi uma ótima estratégia ou puro jogo baixo. Nada menos que providencial para a banda fazer um projeto chamado Chefe Ladrão antes de lançar o novo disco “Eles não usam enê”, gravado com patrocínio da Chesf. Já nos primeiros segundos, da primeira faixa, a gente percebe que cantar músicas de Bizerra da Silva não tem nada de paralelo. Depois do barulho de uma garrafa de cachaça quebrando no chão, a voz rasgada anuncia em bom samba que aqui o Exu só bebe com adoçante. A banda acertou muito quando fez esse trabalho de preparar o ouvido e armar o clima do público para o lançamento desse trabalho.

De cara, o encarte já anuncia que o material é coisa fina. Arte bem trabalhada, longe da preguiça que impera nos discos locais que caem para o lado do samba. Aquela mesma voz rasgada que sai da garganta de Jr. Black toma forma e assume mais referências de black music. Muito em parte pelo Negroove ser quase uma orquestra, de tanta gente que faz a banda. O encarte anuncia seis nomes, mas pelas músicas passam para lá de oito a nove nomes. E o número de instrumentos usados é ainda maior, já que eles se revezam de congas a colheres, com tudo que possa fazer percussão no som.

Não é o clichê do caldeirão de influências, muito pelo contrário. O disco poderia ser uma bomba relógio nesse sentido – porque além de muitas pessoas, com muitas referências, tem também um número grande de faixas – mas consegue manter uma unidade que é bem coerente. De “Exu Aspartame” à “Zé Areia”, permanece a impressão de ser a mesma banda. Isso é ponto forte para eles, que empacotaram um material que só não vai dar certo na programação das rádios por causa do atraso das emissoras locais. A entrelinha é bem óbvia. É disco para enfiar numa mala e seguir em temporada fora de Pernambuco.

A ressalva fica no tamanho do disco. Descolar um patrocínio para gravar um CD pode ser tarefa difícil, mas valia a pena conter um pouco a ansiedade criativa. 15 músicas, que passam de uma hora de execução, parecem ser demais mesmo para o Negroove. Tinha espaço e tema para dois discos diferentes, que podiam ser trabalhados em épocas diferentes. Depois de “Caipora Maturi”, a décima, o ouvido começa a já ficar um pouco cansado. Mas como “Eles Não Usam Enê” é um disco de estréia, não chega a ser um pecado. A ocasião é mesmo para eles mostrarem a que vieram.

Na mão da banda, o disco sai a R$ 10. Por ai, varia até R$ 15.

Escuta ai: Exu Aspartame

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