2006 Fevereiro – Pop up!

Arquivo do mês Fevereiro, 2006

ViladaFábrica – Terceira Travessa da Linha Férrea

O som da locomotiva nos primeiros segundos de abertura do CD brinca com a foto do encarte, que não casa em nada com o nome da banda. Não tem como ter idéia do que esperar da ViladaFábrica depois que aperta o “play”. Surpresa agradável e até necessária na música do Recife que já começava a ficar previsível demais. “Terceira Travessa da Linha Férrea” é a estréia oficial dessa banda de Jaboatão dos Guararapes que tem um pé forte no Cool Jazz, com uma já tradicional mistura de influências.

Existe um potêncial bem evidente na banda. ViladaFábrica pode ainda não estar no seu formato ideal, mas as 11 músicas que encartam o primeiro disco são uma boa promessa para o som da cidade no próximo ano. Principalmente por essa semelhança fácil com o Jazz mais esperto e swingado. Soa bem nos instrumentais e na voz leve. O pacote fecha com poesia no lugar da letra. Mais surpresas que surpreendem.

O ViladaFábrica escorrega apenas no próprio discurso. Certas horas o texto fica mais pesado e agressivo, não combina com a proposta que a banda mostra no início. Mas, são deslizes pequenos e compensados muito justamente pelo quarteto compensa. Em “Deusa Terra”, quinta da lista, grava “Hay Man” incidental, música do Ave Sangria. A novidade do Cool Jazz é também memória, só para somar pontos para eles.

O primeiro registro já mostra resultados. “Terceira Travessia…” ganhou um prêmio da Associação de Zines de Pernambuco, selecionado entre outros independentes da cidade. Não precisa correr muito para encontrar a música do VilaDaFábrica, o trabalho está espalhado pelas lojas da cidade e a banda começa a participar, timidamente, na programação local.

Publicado originalmente em 08.11.05

Capital Inicial – Aborto Elétrico

Não é difícil imaginar que o Capital Inicial e o Legião Urbana nasceram de uma banda de punk rock. Os três acordes clássicos foram escola de quase todo bom músico de rock no País (e fora dele). Difícil é pensar que a primeira ramificação, hoje linha de frente do pop nacional, consiga fazer o caminho contrário. Mas a MTV, campeã em fazer o que não deve, decidiu testar. Lança em CD e DVD “Aborto Elétrico”, com o Capital Inicial cantando as músicas que despontou a cena de Brasília.

O começo assusta. Tem até a contagem clássica “1, 2, 3, 4”, chamando para “Tédio (com um T bem grande pra você)” e, por breves dois minutos e 20 segundos, chega a dar idéia de que a voz puxada e já caracterizada de Dinho Ouro Preto vai dar espaço para a música rápida. Explicando, a vertente “Capital” do Aborto Elétrico eram a bateria e baixo dos irmãos Fê e Flávio Lemos. Talvez pelo excesso de músicas inéditas, o resultado final acaba lembrando a mesma banda na sua época pré-acústico.

Existe uma produção e cuidado audível no novo “aborto elétrico” que simplesmente não combinam com esse tipo de música. Um tratamento pop para a música punk. Opções equivocadas, como gravar a primeira música de Renato Russo, “Benzina”, totalmente instrumental. A letra dizia “não quero cocaína, não quero benzedrina, não quero heroína, vou cheirar benzina”. Mas o aborto da MTV é politicamente correto.

Pelas nove faixas que não são inéditas, só o projeto de um registro do Aborto Elétrico já seria suficiente para ser louvável. Funcionaria melhor, entretanto, com as atuais bandas da cena punk de Brasília prestando a homenagem. É verdade que não chamaria tanta atenção quanto ter a imagem bem comportada do Capital Inicial na capa do disco, mas ao menos teria sido mais merecido. Pelas outras nove, as inéditas, fica uma lembrança que Dinho Ouro Preto & Cia já foram menos melosos. Seriam mais que bem-vindos a voltar essa época.

Publicado originalmente em 08.11.05

O Quartel General do Samba

“Aqui o negócio é participar”. Na terra do frevo e maracatu, não se engane, todo dia é dia de samba. Ali, por trás da Secretaria de Educação e Cultura, no centro da cidade, o Pagode do Didi é ponto certo de quem tem samba no pé e no “fraseado” há 24 anos. Perto de completar […]

Tony Parsons atira contra o pop

“Se você não for ver esse show, tudo que posso dizer é que você é um idiota”. São poucos os jornais que têm essa abertura num texto diário do caderno de cultura. Menos ainda são os jornalistas dispostos a assumir uma postura tão contestadora ao próprio leitor. Mas a tirada, junto a perguntas do calibre […]

Cansei de Ser Sexy

Finalmente, chegou o dia oficial em que a MP3 mudou significativamente o mercado fonográfico no Brasil. Pode anotar o nome da banda, Cansei de Ser Sexy, que andava mais falada que ouvida. Depois de colocar suas músicas em formato digital online, descolaram um contrato com uma gravadora de grande porte, distribuição e até matérias fora do país. Ponto não só para a banda, mas também pela iniciativa da Trama, que entrega agora o homônimo nas lojas.

“Começou como brincadeira, a gente gravou as músicas em apenas um dia só para colocar no site”, lembra a vocalista e figura de frente da banda, Luisa Lovefoxxx. Aliás, sobre o nome dela, vale lembrar também que a Cansei de Ser Sexy é uma banda como não existe faz tempo. Trabalha na música um conceito que mistura moda, comportamento, figurinos, nomes e fotologs. “A banda só tem dois anos, mas já aconteceu muita coisa surpreendente”, continua.

Transição longe de ser dolorosa. Quem acompanhou esse processo da banda, pelo o site Trama Virtual, vai perceber mudanças fortes nas músicas. “É porque agora foi bem gravado, né!”, comenta Luisa. “Agora cada uma das três guitarras foi gravada em separado, tem até bateria eletrônica, o CD foi pré-produzido e mixado”, enumera, “até os volumes estavam no lugar certo”. O mais importante dessa mudança, ela faz questão de deixar frisado: “A gente fez tudo do jeito que quis”.

A parte complicada – e necessária na fama – também já entrou na rotina da Cansei de Ser Sexy. Nos fóruns da Internet, muita gente já começa a falar mal da conquista da banda. “De repente a gente tava na capa do jornal e o gráfico das pessoas que tinham raiva da gente começou a crescer”, comenta. “Mas eu posso garantir que nada mudou na banda. A gente tá sempre junto todo dia, continuamos os mesmos”.

E de todas as novidades que a banda traz (trilha de seriados americanos e participação em games), o mais legal vem no próprio CD. A caixinha encarta também um CD-R, virgem, com a mensagem “Faça bom uso dele”.

“Minha arte é chamada egocêntrica-soft-pornô”. Musicologicamente falando, não tem realmente nada de novo ou que chame atenção na Cansei de Ser Sexy. Um electro-rock que, desta vez, está bem amarrado, recheados de efeitos e repetições. Os mais ligados no gênero vão lembrar logo de Fischerspooner, Audio Bullys e uma grande quantidade de referências da pista das boates. A novidade (muito boa) são brasileiros fazendo isso com competência e aceitação.

Pode ser o primeiro disco da banda, mas as 12 faixas não vão chegar na mão de quem ainda não ouviu pelo menos uma das músicas. É o típico “produto seguro” da indústria, tudo graças a então dor de cabeça que eram as MP3s. O melhor do disco da Cansei de Ser Sexy não está na música, mas sim no recado que traz: as gravadoras estão despertando para o potencial da Internet.

Publicado originalmente em 31.10.05

Franz Ferdinand – You Could Have it so Much Better

Não tem nada de novo para a música em “You could have it so much better”, novo disco do Franz Ferdinand. É a exata mesma sensação de ouvir o primeiro disco. Ainda bem. E não é porque ele está circulando pela Internet desde setembro, mas sim a textura velha que, sem motivo nenhum, pareceu ser a grande novidade de 2004. São 13 músicas, todas hits fáceis, que vão garantir mais um ano inteiro para o plano do vocalista Alex Kapranos de fazer as garotas dançarem nas festas. Ainda bem.

Talvez pela falta de impacto e surpresa, “You Could have it…” não chega a superar seu antecessor na primeira audição. Precisa de um pouco mais de tempo. O que era dor de cabeça das gravadoras, virou estratégia de jogo baixo. Franz Ferdinand circulou por tempo suficiente para fazer deste CD uma necessidade para quem gosta de rock’n’roll da fórmula mais simples. Não tem nada de novo e, de novo, vai ser esse o principal motivo das vendas.

Mas é claro que, para o Franz Ferdinand, o novo disco tem sim muita coisa diferente. Agora que a brincadeira deu certo, a banda decidiu tirar os efeitos em excesso das músicas, deixando tudo a cargo dos instrumentos num formato mais fácil de se imaginar em apresentações ao vivo. “Do You Want To”, a de trabalho, já cansou no repertório de festas, com a ótima introdução “quando eu me acordei hoje a noite / eu disse “vou fazer alguém me amar” / e agora eu sei que é você / você tem tanta sorte”.

Ainda assim, não faltam boas coisas para se encontrar nas faixas. Elas vêm na seqüência “You’re the reason i’m leaving”, “Eleanor put your boots on” e “Well that was easy”. Mostram a flexibilidade do Franz Ferdinand em trabalhar hits num tom bem próximo e de referência descarada aos Beatles. A terceira é para mostrar como isso ainda consegue ser feito com uma roupagem contemporânea sem soar clichê demais, caso dos conterrâneos de palco Strokes e Kings of Leon, que não sobreviveram tanto no segundo disco.

Lá fora, o Franz Ferdinand está sendo paquerado por todas as grandes gravadoras e uma segunda versão deste disco já começa a ser distribuído pela Sony. Aqui, para também ter novidade, “You Could Have it So Much Better” vem com disco duplo. O segundo é um DVD curtinho, mas merecido. São vídeos da banda no estúdio, entrevistas, clipes e galerias de fotos. A contrapartida do brinde, claro, é o preço final do CD. Um tanto salgado.

Leia também:
• Strokes – First Impressions of Earth

Publicado originalmente em 26.10.05

Massacration – Gates of Metal

“Gates of Metal Fried Chiken of Death” é disco feito sob medida para aquele se vizinho chato e cabeludo que fez circular por todo prédio a pesquisa dizendo que o heavy metal é hoje o gênero mais erudito da música. Bateria na velocidade da luz, guitarras virtuosas e um vocal lirico que até deixa um tanto a desejar, mas na embalagem final, funciona direitinho. Toque a faixa nove que ele com certeza até arrisca bater cabeça. A letra, traduzida, fala assim “O cientista maluco é lelé / você vai ficar igual / ao Tião Macalé”.

O esperado aconteceu. Depois da turnê com o Sepultura, do show apoteótico no Abril pro Rock e sucesso de sobra na programação da MTV, o Massacration gravou um disco por um selo de grande porte, a Deckdisc (mesmo de Pitty e Ultraje a Rigor). Personagens de uma encruzilhada onde são igualmente odiados e adorados por figuras tarimbadas do metal brasileiro, esse primeiro disco chega como uma piada de ótimo gosto ao gênero. Passaria totalmente despercebido, salvo raros momentos.

“Fried Chiken…” abre inclusive com uma justa homenagem. Uma introdução na voz de João Gordo que copia sem medo a música “Dier Eier Von Satan”, da banda Tool. No original, uma letra em alemão supostamente demoniaca que, na verdade, é uma receita. Aqui não entra reflexão, o rato de porão fala em português claro “misture a clara dos ovos”. Foi ele, inclusive, quem assinou a produção do disco com 13 faixas, repertório bem maior do que é conhecido da banda.

Sem controvérsias ou polêmica, é um disco de fato para os headbangers. Música bem executada, tocada com bastante peso e participação especial de Sérgio Mallandro. Ele aparece em voz quase incidental em “Metal Glu Glu”, que está longe de ser a mais divertida. Nessa hall, entram “Metal Milkshake” (”Hot Dog / Milkshake / Sunday / Mayday”) e a agora já clássica “Metal Bucetation” (”Suck my sacred balls”).

E mesmo para os mais chatos, talvez até aquele tal vizinho cabeludo, “Fried Chiken…” é sinal claro que a industria fonográfica está se recuperando do baque. Quando um independente de grande porte se permite o custo de lançamento de um disco desses, com um preço nada merecido, é prova que as coisas vão bem. Some isso ao fato que, brincando, o Massacration conseguiu inserir o heavy metal (o sério) novamente na programação da MTV.

Publicado orignalmente em 19.10.05

Leia mais:
• Entrevista com Massacration
• Show do Massacration no Abril pro Rock 2005

Pavilhão 9 – Público Alvo

Não importa o que fale as letras, o rap é música do crime. Tocada na periferia, para um público sem informação, que não compreende a mensagem e sente orgulho em pegar em armas. Não importa o que fale as letras, porque o cinema também fez sua parte construindo essa imagem de violência. Isso já foi bonito. O Pavilhão 9, mais explícito, já disse que “se Deus vier, que venha armado”. Mas em sinais de uma civilidade que vota pela venda de armas, fica o espaço apenas para o duplo sentido. “Público Alvo”.

Mais complicação para um público que, apesar dessas brincadeiras de civilidade, continua desinformado. Mesmo fora da Warner, o Pavilhão 9 precisa sobreviver no cenário “mainstream” de clipes na MTV e músicas na rádio que foi inserido. E, por isso, a banda que já excedia nas guitarras, baixos e baterias, fica ainda menos rap no seu sexto disco. E eles fazem isso muito bem, passando da antiga influência hardcore para um metal mais pesado.

“Público Alvo” é sonoramente mais violento, com participação do vocalista do Biohazard (um dos maiores berros existentes na música), mas de postura muito mais educada. Mostra que Rhossi e seu companheiros estão bem conscientes e com pé no chão. Se fosse o contrário, o disco passaria direto da rádio para as campanhas do “vote sim” ou “vote não” do atual referendo pelo desarmamento. Prefere ficar como um trabalho simples, mas sincero de música.

Mesmo assim, o Pavilhão não deixou de cantar o crime. Da mesma de forma de sempre, criticando, conscientizando, só que numa mensagem ainda mais difícil de captar pela classe mais baixa. Atitude que deixa tanto disco quanto banda em cima do muro. Uma pena, já que desinformação se confronta com verdades. O tipo de verdade que seria bem vinda de uma banda de rap montada em cima de uma ideologia e com grande área de efeito.

“O que eu posso dizer para você é que onda a gente chega, é bem recebido”. Munari, guitarrista do Pavilhão 9, não mede palavras. Numa sala onde se ouvia a voz de todos os integrantes da banda respondendo perguntas de jornalistas, ele cedeu uma entrevista por telefone sobre a resposta do público ao peso extra no novo disco. “Não é uma coisa pensada, planejada, vai da personalidade da gente”, garante.

É também sem meias palavras que explica que o Pavilhão 9 está “internacionalizando as influências”, mas é incisivo ao deixar claro que a banda ainda é de rap. “Sem querer soar exagerado, mas o rap tem uma força muito grande”, diz referente a mistura de ritmos. “Hoje você integra elementos de áreas diferentes do planeta, tem gente fazendo muita coisa boa com isso e tá expandido bastante”, lembra. “É bastante natural”.

Ele também reconhece a importância de um lançamento da banda em época de referendo. “É recorrente até ao próprio título do álbum, mas como movimento, me sinto até constrangido de me envolver publicamente”, comenta. Munari levanta questões de livre arbítrio, que ultrapassa qualquer direito e também da finalidade das armas, “é uma coisa feita para matar”. Confessa que “não quer parecer em cima do muro”. Mas protesta que “é uma chantagem quando você pergunta a um artista sobre isso, porque existem milhões de fundamentos que devem ser dados por especialistas e não por um músico”.

Publicado originalmente em 19.10.05

Cordel do Fogo Encantado – MTV Apresenta

A proposta do projeto MTV Apresenta continua sendo registrar um show desses mais normais, onde o importante fica na relação artista-público. Não tem como ser assim com o Cordel do Fogo Encantado, que lança essa semana em DVD sua participação no projeto. Donos de uma das melhores respostas de público no Brasil, eles somam cenários […]

Nação Zumbi – Futura

Mais aguardado na música independente nacional do que o resultado da CPI do Mensalão, o novo disco da Nação Zumbi chega nas lojas do País na segunda-feira. “Futura”, que já tinha uma prévia circulando pela Internet no último mês, é o sexto da banda que estava há três anos sem novidade na praça. Período que rodou o mundo, absorveu referências, influências e transformou seu som em pleno palco.

A espera foi longa, mas antes de apertar o “play” é preciso se livrar de qualquer expectativa do que pode ser encontrado nas 12 faixas de “Futura”. O maracatu da Nação Zumbi perdeu uma tonelada, está menos percussivo, mais elétrico e até mesmo eletrônico. O pé, ainda com um cheiro forte de mangue, está fincado agora com muito mais força no dub, numa experiência linear, reflexiva e dançante. Sinais que a banda já mostrava no anterior homônimo.

A expectativa não vale nem sequer para a primeira impressão de “Hoje, Amanhã e Depois”, hit fácil e certo que já é trabalho de divulgação. O que segue no disco está mais contido, melancolico, conduzido de forma elétrica da marcação do baixo e guitarra. Em segundo plano, a percussão é acompanhada por efeitos e rebites eletrônicos que vão de VK7’s, TR808 (teclados sintetizados) a sons de videogames.

O primeiro grande surto vem na faixa sete, “Expresso da Elétrica Avenida”. Puxada por uma batida eletrônica, quase feita para as pistas de dança não fosse o grave da voz de Jorge du Peixe. Dela em diante, o disco fica agitado, com batidas mais fortes, chegando a lembrar os trabalhos anteriores da banda. “Pode Acreditar”, nome da penúltima música, é a palavra de ordem para “Futura”. Nação Zumbi surpreende, tirando o excesso regional do rock pernambucano.

Na sua fase mais psicodélica, a Nação Zumbi não só deu um tempo na batida do maracatu, como também dosou os instrumentos. “É um pouco da técnica do gringo que está trabalhando com a gente. Ele já tinha feito um pouco disso no anterior, só que agora ele estava com a gente desde o início”, explica o baixista Dengue, em referência a Scott Hardy.

“A gente procurou fazer umas levadas mais livres, não está mais preso a um certo regionalismo”, comenta. Depois de três anos na estrada, fazendo o show do DVD, ele reflete que esse é, provavelmente, o disco mais pensado por toda a banda. “A gente teve tempo de conversar bastante, na hora que entrou em estúdio ainda conversou mais. E isso fez uma diferença muito grande no ‘Futura’”.

Dos planos da banda para esse disco, ficou de fora o sampler com um discursso de Che Guevara, porque a gravadora não conseguiu os direitos do áudio. “Foi um discurso antigo que ele fez em Cuba, algum universitário acabou prensando em vinil. Precisamos tirar em cima da hora para não perder a música”, lembra. Agora, a banda prepara a turnê de divulgação de “Futura”, que deve chegar no Recife em dezembro.

Publicado originalmente em 12.10.05

Caju & Castana – Embolando o Futebol

Faz cinco anos que a dupla Caju e Castanha não se apresenta no Recife. Mas se faltam convites na sua cidade natal, sobram pessoas na fila ao lado de fora das casas de shows lotadas que os emboladores se apresentaram em Londres semana passada. E para encerrar com o jejum de quem não pode investir numa viagem ao exterior, ou mesmo outro estado, eles lançam agora seu primeiro DVD, ao vivo no Centro de Tradições Nordestinas, em São Paulo.

Apesar do disco novo, “Embolando o futebol”, lançando em abril, o repertório do show é centrado principalmente na carreira da dupla. Onze músicas que reúnem os sucessos mais fáceis de lembrar dos dois. “A Mulher do Corno Rico e a do Corno Pobre”, “Ladrão Besta e o Sabido” e outras que ganharam rádios, comerciais de TV e uma geração inteira de emboladores que começam sua carreira igual a Caju & Castanha, nos ônibus da cidade.

O mais surpreendente no vídeo, entretanto, passa bem longe da seleção de músicas. Quem está a tanto tempo sem ver uma apresentação da dupla vai se surpreender ao ver como os dois cresceram no palco. Não falta produção para o Caju & Castanha, que agora tem no palco banda, cenário, figurino, coreografia e tudo mais que tem direito. Chega a custar a acreditar que a simplicidade dos dois no palco só multiplica o efeito visual do show.

Além do show, o DVD acompanha ainda um documentário com imagens da dupla feitas ainda na época que os dois começavam ganhar atenção do Brasil, aos cinco anos de idade. Mostra a trajetória passando pelos momentos altos e baixos, do falecimento de Caju e da substituição pelo seu sobrinho Cajuzinho. Vêm também com o curta “Caju & Castanha contra o Encouraçado Titanic”, dirigido por Walter Sales e que vai virar um longa em breve.

Somado aos últimos trabalhos da dupla, o DVD é mais um puxão de orelha na produção local que ignora a presença de Caju & Castanha mesmo durante o São João. A promessa é que o show de lançamento acontece no Recife, evento confirmado pela Fundação de Cultura de Pernambuco (Fundarpe), mas ainda sem data certa.

“Levam todo mundo, só não levam a gente”. Castanha, arquiteto de toda carreira da dupla de embolada que faz com Caju, não está reclamando. “Somo sempre muito bem recebidos no sudeste, agora até fora do País, mas Recife faz cinco anos que eu não faço show”. Provavelmente os principais divulgadoras da cultura pernambucana hoje no Brasil e fora dele, capa dos jornais na Europa, eles continuam de fora da extensa programação festiva da cidade.

“Eu adoro minha cidade, ainda vou voltar a morar nela”. Caju & Castanha estão morando hoje em São Paulo, onde montaram sua produtora e até estações de rádio na maior cidade do País. Trajetória comum para os músicos locais hoje, mas com a diferença de uma modéstia e simplicidade que chega encanta. 2005 é, sem dúvidas, o ponto mais alto na carreira deles, que acabam de voltar da temporada feita durante a semana de Pernambuco no Ano do Brasil na França.

“De lá a gente foi em Londres, Amsterdã, shows com 22 mil pessoas assistindo a gente”. A temporada encerrou com a notícia da participação da dupla na premiação do Grammy Latino. Não deu sequer tempo de comemorar. Caju & Castanha voltaram direto para o estúdio, onde fizeram toda a trilha sonora para a nova temporada da série Cidade dos Homens, da Rede Globo, e já começam a planejar o retorno a Europa.

Tudo isso e ainda uma agenda de entrevistas para todo o Brasil durante a semana, não abalam o bom humor de Castanha, que não se engana. “Ta na hora de tirar a cobra do poço e chamar o Caju & Castanha para tocar”. Todo esse sucesso não esconde a vontade que a dupla tem de voltar a tocar em casa, momento que ainda não aconteceu pela simples falta de convite.

Publicado originalmente em 10.10.05

Jota Quest – Até Onde Vai

Perto de completar dez anos de carreira, o Jota Quest pode desfilar o título de banda pop mais bem-sucedida do País. Com novo disco chegando esta semana nas lojas, “Até Onde Vai”, o grupo mostra que, sem trocadilhos, vai bem longe. Com 14 faixas, o CD mata a ansiedade dos fãs que estavam há três anos sem nenhuma inédita para cantar. E é na fórmula dos “ná ná ná” e “lá lá lá” que eles acertam o ritmo com a versão de “Além do Horizonte”, música de Roberto Carlos que já está nas rádios, clipes e propagandas na TV.

Já na abertura, “Libere a Mente”, música mezzo-política / mezzo-balada, “Até Onde Vai” mostra que é, sem dúvidas, o disco com pegada mais funk do Jota Quest. Com participações na autoria de Nando Reis, Lulu Santos e batidas da dupla de DJs ingleses Layo & Buschwaka. E é na presença desses que estão alguns dos melhores momentos do novo trabalho. Essa sequência de abertura, ainda com a música “Sunshine em Ipanema”, resume bem o restante da uma hora do disco.

Os momentos leves, às vezes com certa puxada soul, são cada vez mais raros. Se percebe uma situação maior, e bem dispensável, de compromisso do Jota Quest com sua parcela de público mais romantico e noveleiro. A banda poderia ter encerrado no clima agitado, sem se preocupar em emplacar no próximo tema de casal das 20h. Se derem sorte, essas não entram em trabalho, o que é provável, já que faixas como “Além do Horizonte” grudam como chiclete.

Escalada na programação de todos os principais festivais de música pop de 2004, o Jota Quest é também, protagonista da via-crucis da fama no Brasil. Tocar na rádio e televisão costuma atrair comentários negativos de bandas semelhantes e principalmente pela crítica ávida por crucificar o artista da vez. “A gente faz o que sabe fazer, nunca pensando se vai vender ou não”, se defende o baterista Paulinho Fonseca, em entrevista por telefone.

“O Jota Quest agrada um público cada vez maior e acho que é isso que toda banda quer”, comenta até com modéstia. Em 2005 o grupo agradou também o rei Roberto Carlos, os complicados Los Hermanos e até a dupla Layo & Buschwaka, que gravará uma música deles no próximo disco. “A gente conversou horas com o Roberto Carlos e ficamos impressionados como ele acompanhava a carreia da gente. Comentou até várias músicas”, lembra.

Outro parceiro antigo que volta no disco é Nando Reis. “Ele tá sempre ligando pra gente. De repente o telefone toca e é ele já falando “fiz uma música para vocês”, é uma loucura”, comenta. Essa já é a terceira vez que o Jota Quest grava o ex-Titãs. “Acho que a música tem um potencial bem forte, mas não sei ainda se ela vai ser trabalhada nas rádios”, adianta.

A banda mostra que está aproveitando o momento com bom humor. “Quando o Lulu Santos mandou a música pra gente ficamos tão empolgados que chamamos ele para gravar”, lembra. Apesar disso, o Jota Quest prefere deixar as participações no estúdio. “Sempre preferimos um show só nosso que fazer festivais, podemos trabalhar cenário e conversas com o público”, declaração que mostra que os convites ainda não subiram à cabeça dos rapazes.

Publicado originalmente em 08.10.05

Diplo – Florida

Chega a ser curioso pensar que Diplo, segundo entrevistas recentes, tem interesse na música nordestina. Figura que pode ser definida como o típico turista em Copacabana, achando a pobreza uma maravilha a ser fotografada, Wesley Pentz, 25 anos, transforma toda cultura de periferia que encontra em música. Não é que se encontra, entretanto, em “Florida”, disco lançado no Brasil pelo selo Slag Records, aproveitando a presença do cara no Tim Festival.

A compilação de remixes e experimentações nas 12 músicas são de uma sobriedade e mesmo “sombriedade” hipnotizantes. Tá ok, justiça seja feita, tem um funk carioca empurrado lá na última faixa, apenas na versão brasileira do disco. E como o pancadão ainda é persona non grata na cabeça de muitos ditos atentos aos satélites culturais, fica então como ponto positivo de “Florida”.

Diplo é um tipo de DJ artista cada vez mais raro. Faz seu inferninho na pista, mas prefere dar espaço para suas experimentações no CD. Por isso, “Florida” é uma experiência um tanto difícil. Começa lento, continua lento, permanece lento. Chega e exigir um pouco de atenção, mas ainda anima perto do fim. Não é um disco todo para pista, e sim para uma audição menos compromissada.

A Florida de Diplo encerra num ponto alto de referências cruzadas. Ele faz até uma parceria brasileira com um grupo chamado “Os Danadinhos” numa das faixas que é a mais agitada em todo o disco. A melhor para a festas, diga-se de passagem. Nas outras, batidas mais sensuais vem acompanhadas de sons de água corrente, instrumentos jazzisticos e vozes sintetizadas. Aquele sujeito com voz de robô que assusta criancinhas nos programas mais básicos de simulação.

Danadinho é também o funk que encerra a versão brasileira do disco. Um batidão no melhor estilo, acompanhado por um sonzinho melancólico de fundo, obviamente a participação de Diplo na história. Ele promete vir para as bandas do Nordeste depois do Tim Festival, curioso principalmente com o Calypso do Pará. Será que o próximo disco vem com uma faixa de Techno Brega?

Publicado originalmente em 01.10.05

Entrevista: Silvério

Jogado por cima da mesa levemente desarrumada de Lula Queiroga, o livreto chamou a atenção de Silvério Pessoa, por acaso de passagem na casa do amigo. Cordel de Bráulio Tavares, que também por acaso vem com a história “parece que é rock” encartada sob o título “Cabeça Elétrica, Coração Acústico”. Acabou virando o nome do […]

Titãs – MTV Ao Vivo

Próxima semana, o Titãs volta a ser a melhor banda dos últimos tempos do Brasil, quando lança em CD e DVD e programa da MTV o show que fez em Florianópolis, dentro da série “Ao Vivo” da emissora. A mesma que apertou no freio da banda com o projeto “Acústico”, solta as rédeas para o esperado retorno às distorções fortes e provocações políticas. O programa, com uma hora de direção e 18 músicas, vai ao ar amanhã, às 19h.

Retorno tranqüilo, segundo o guitarrista Tony Bellotto. “Nós sempre fomos uma banda de rock”, comenta em entrevista por telefone. “O que aconteceu foi que a gente se empolgou em trabalhar daquela maneira, viajar com orquestra, e acabou pegando forte no público”, reflete e completa: “As pessoas tiveram uma dificuldade de perceber que foi uma fase e, mesmo nos shows do disco “A Melhor Banda”, pediam para repetir”.

O show completo, com 25 músicas, chega apenas mais tarde, em DVD. “Quem definiu (o repertório) fomos nós mesmos. Queríamos sair do óbvio, não fazer só sucessos”, explica. Trabalho bem feito, por sinal. O disco “MTV Ao Vivo – Titãs”, que chega nas lojas um dia após o programa de TV, vem com uma seleção positiva mesmo para os fãs mais obsessivos. São versões que a banda não costuma fazer ao vivo, além de três inéditas.

Seleção que mostra também que o Titãs ainda encara sua carreira com responsabilidade. É difícil surgir hoje no Brasil uma banda com repertório rock como o deles e consiga a mesma abertura nas emissoras. “Acho que a rádio encaretou muito dos anos 80 pra cá”, comenta. “Hoje mesmo as chamadas Rádios Rock estão caretas para muita novidade nacional. O que é muito ruim, porque ainda é o meio que determina o sucesso de uma banda”.

Agora, a banda volta para a estrada com um show que promete o mesmo cenário elaborado que será visto na MTV, um letreiro enorme que forma o nome Titãs. “Oficialmente, começa no dia 19 de novembro, mas já estamos fazendo pequenas apresentações com esse repertório”, adianta. Os planos são de começar subindo, se apresentando no Nordeste durante o verão para encerram no eixo Sul-Sudeste.

Datas que, por coincidência, o vocalista e saxofonista Paulo Miklos fechou contrato com a Rede Globo para participar da novela “Bang Bang”. A banda, no entanto, garante que não vai esbarrar. “Uma das exigências dele era que ficasse claro que, em primeiro lugar, viria a agenda da banda”, explica Tony. “Então ele vai gravar num espaço entre semanas, quando não estiver fazendo shows”, garante. O Titãs tocou no Recife em 2004 durante o Festival de Verão. Apesar de ainda não ter confirmado as datas, é provável que volte à cidade com o espaço entre um trabalho (“Como estão vocês?”, de 2003) e outro.

Disco

“Se não for pra detonar / botar a casa abaixo / então é melhor nem me chamar”. O Titãs não botou a casa abaixo ainda, mas pode chamar eles para começar os trabalhos sim. “MTV Ao Vivo – Titãs” mostra que os paulistas estão, timidamente, voltando a fazer muito barulho na música brasileira. Com repertório bem montado, ela apresenta sua montanha-russa de gritarias, palavrões e guitarras que, volta e meia, dão uma fugida para a sombra do acústico.

Longe, no entanto, daquela história de estar cada vez mais cansada. As 20 músicas são de uma energia que funciona mesmo sem precisar estar olhando para um show. Gíria cunhada pelo jornalista Nelson Motta na época que a banda começou a fazer sucesso no Brasil, ouvindo esse disco para “pular feito pipoca” sem problemas. Talvez pelo milho ocasional que vá sobrar em canções como “Enquanto Houver Sol”, onde claramente se imagina o público levantando a mão para lá e para cá.

Mas melhor que a gritaria de Paulo Miklos em “Vamos ao Trabalho”, é ver o retorno à crítica rasgada e bem humorada da situação política do País. O Titãs de 85 ainda é atemporal. O de 2005 promete continuar com “Vossa Excelência”, música que faz discurso direto para os engravatados. “Estamos preparando vossas acomodações, Excelência”.

E também visivelmente adolescente em “O Inferno São os Outros”, letra de Tony, Gavin e Branco que canta “O paraíso é para todos / o problema não sou seu”. Falta só mesmo um pé a mais de atitude para sair de vez da pressão das grandes gravadoras, voltar para o cenário independente e dar um pouco daquela velha “salvação” para o rock nacional.

Totonho e os Cabra – Sabotador de Satélite

Totonho é duas vezes um típico MEB. Música Eletrônica e Música para Exportar Brasileira. Exemplo mais clássico da criatividade nordestina em reprocessar suas batidas regionais com os samplers eletrônicos que recebe freqüentemente uma porta na cara dos produtores locais. Até, claro, voltar cheio de referências, elogios e um disco lançado no sudeste do País. Junto com sua banda, “Os Cabra”, o paraibano volta a dar as caras no segundo CD, “Sabotador de Satélite”, o primeiro produzido pela Trama.

A descrição lembra muito do que aconteceu com Otto. Mas a música de Totonho não ficou tão eletrônica assim. Ainda. Com roupa prateada e cheio de colares, só para fazer tipo, Totonho é o tipo de figura que se encontra num bar e, depois de tanta história, não dá para saber se a bebida está batizada ou se você que já passou da conta. Sua poesia é assim. Uma prosódia de uma sociedade que vive num latifúndio do espaço sideral onde ninguém tem emprego e educação. Hoje está tudo bem, o amanhã é que anda mal.

As pequenas histórias desse cenário cheio de intertextualidade começa com “Jaspion do Pandeiro”, rapaz que anda por aí com um skate no pé e batuque na mão. Traz consigo um par de silicones para mamas juvenis. Segue sempre nesse clima engraçado, com um pé no inteligente, lembrando um pouco de longe letras da extinta Karnak. Aliás, comparações são o que não faltam em “Sabotador de Satélite”.

Totonho rima com a vontade de experimentar de Chico César, Cordel do Fogo Encantado e Otto. Como esses três, sua música se venda pela sinceridade que mostra nas faixas do CD. Diferente deles, suas histórias parecem ser conduzidas por uma constante melancolia mesmo nos efeitos e batidas eletrônicas. Mesmo quando soa bobo ao falar que “o peito da morena / quando aperta faz fom fom”. Chega num limite perto do final, em “Rita Leea de Itamaracá”, onde canta “já estou de partida para o meu apê lunar”.

Existe ainda o fator de timing, que garante a esse disco uma expectativa maior de chamar a atenção dos produtores. A fase de crítica negativa a supervalorização das misturas regional está bem perto do fim. “Sabotador de Satélite” chega num momento onde uma triagem mais responsável deve selecionar artistas de qualidade para representar essa parcela do mercado fonográfico. Para quem está atrás disso, o disco é um prato cheio.

Entrevista

“Vamos fazer uma parceria?”. A proposta veio do produtor musical da Trama, Carlos Eduardo Miranda, depois que Totonho mandou sua demo para nada menos que 20 gravadoras. Bem antes desse resultado, sua história começou em João Pessoa, onde participava de uma cooperativa de compositores. “Éramos 19 e, quando um fizesse show, todos os outros estariam a disposição deles para conseguir som, contato com imprensa, etc”, explica. Mas acabou indo para o Rio fazer mestrado. Encontrou uma ONG no meio de caminho e parou de fazer música.

Quando viu que um dos colegas da cooperativa estava fazendo sucesso, viu uma oportunidade para voltar. Era Chico César. “Comecei a produzir umas demos, achando que através dele conseguiria chegar numa gravadora”, lembra. Mas não é assim que a coisa funciona. Totonho acabou aprendendo que o artista, na verdade, costuma estar bem distante das decisões de uma grande empresa. “Mas acabei me encorajando e fundei esse aglomerado de gente, “os cabra” que tocam comigo”.

Foi quando começou o processo de procurar shows e mandar demos para gravadoras. “Engraçado que eu nunca toquei no Recife. Sempre mandei material para o Rec Beat e Abril pro Rock, mas nunca tive resposta”. Engraçado mesmo, já que seu disco de estréia, homônimo, é o tipo de som que os produtores locais procuram. Talvez numa embalagem menos jovem.

Totonho volta para o Nordeste no fim do ano, onde se apresenta na sua cidade natal em novembro. “Tradição é uma coisa que não anda sem ser mudada, transformada. Parece que só agora começam a dar atenção para isso no Nordeste”, reforça. Enquanto se prepara para a viagem, tenta “fazer uma ponte com os outros estados próximos”.

Publicado originalmente em 20.09.05

Nenhum de Nós – Pequeno Universo

Perto de completar 20 anos de existência, a banda Nenhum de Nós é hoje protagonista de um dos maiores contrastes na música brasileira. Foi deixada de fora do movimento feito pela MTV que colocou as bandas gaúchas em alta no gosto do público ao mesmo tempo que preparava um de seus melhores trabalhos, “Pequeno Universo”, disco que acaba de chegar nas lojas. Lançamento que marca também o retorno para valer do grupo aos selos independentes.

Apesar da brincadeira feita no mini-encarte, solto dentro da caixa do CD, o disco está longe de ser pequeno. Décimo primeiro da discografia oficial, “Pequeno Universo” segue a linha de músicas enxertadas de influências e elementos reprocessados, tão comum na carreira da banda. Mas depois de alguns anos na estrada, apenas com lançamentos de “Ao Vivo’s”, o Nenhum de Nós conseguiu elevar esse perfil à décima potência.

O resultado é um disco difícil, que precisa passar por, pelo menos, três a quatro audições para começar a surtir efeito. Diferente dos sucessos fáceis que marcam o repertório do Nenhum de Nós, as 13 músicas encontradas aqui são todas de poesia e melodia construídas com muito mais detalhes que os inevitáveis versos da antiga “Camila”. Inevitável também para a banda são as versões. A mais marcante é uma de Jorge Aragão, compositor que sambou tanto o rock e agora é vítima do efeito contrário.

É difícil, mas também muito positivo. Se conseguir passar pelos fãs mais ansiosos, este novo disco do Nenhum de Nós vai entrar para o filão dos peixes grandes que estão deixando as grandes gravadoras e agregando qualidade cada vez maior ao cenário independente. Pequeno Universo chega como um balanço entre os excessos da MPB e o rock que os selos estavam carentes há certo tempo.

Publicado originalmente em 13.09.05

Gal Costa – Hoje

Outro resultado positivo do êxodo que os medalhões da MPB estão fazendo para as gravadoras independentes, Gal Costa faz sua entrada com classe e muito estilo em “Hoje”, disco que é lançado este mês pela Trama. Produzido em parceria com Cesar Camargo Mariano, presente também nos teclados, é um disco que mistura inéditas com interpretações que passam do pernambucano Junio Barreto ao esperado Caetano Veloso.

São 14 músicas que mostram uma Gal que estava em débito grande com os fãs. Muito mais à vontade, com variação e afinação de voz de fazer inveja. Verdade que o repertório contribui bastante para o sucesso que esse disco deve fazer. A poesia simples e rimada de Nuno Ramos, Moreno Veloso e Carlos Rennó são embaladas por uma mistura boa e sutil de samba tranqüilo e percussivo com um pouco de bossa e pagode.

O trabalho é audivelmente minucioso. Resultado que não poderia ter chegado com a pressão engessada de uma gravadora de grande porte. Já em “Mar e Sol” encontra a perfeição que tanto persegue a fama de César Camargo. Mistura instrumentos acústicos com elétricos sem criar ruídos. Passa do reflexivo para o romântico de “Voyeur”. Gal Costa incorpora o verdadeiro sentido de interprete e dá alma às músicas.

E faz um trabalho muito mais que justo em “Santana”, música de Junio Barreto que, mesmo já cantada por Maria Rita em shows, custa para circular no País. Nos versos simples “a santa de Santana chorou sangue / chorou sangue / chorou sangue / era tinta vermelha”, Gal dá energia contagiante e excessivamente contida. Como numa dança forte e cronometrada, que exige disciplina mesmo de quem ouve.

A expectativa para um novo disco de inéditas era grande, mas Gal e Mariano chegam mesmo a brincar com essa tensão. Voz e melodia fazem uma mistura quase tropicalista, como só a musa do gênero conseguiria conduzir. Consegue ser pura poesia em “Nada a Ver”, onde canta “tudo parece ser / um precipício / nem sei dizer…” e também auto-referente em “Luto”, de Caetano, que fala “A minha mente está na Castro Alves / Na Rio Branco / No Marco Zero”, sem perder o compasso.

Mas é na que dá título ao disco, com muito trocadilho, que melhor indica a Gal de hoje. “Não vou mudar nada / de tudo que eu fiz”. Diferente apenas quando fala da lembrança. Lá, não deve haver um “nós” como melhor parte dela. Mas quando esse “nós” é Gal Costa, Cesar Camargo e o ouvinte, este disco é, sim, o que tem de melhor.

InCité teve Lenine de classe

Na entrada do Centro de Convenções, às 21h, quando devia estar começando o show de Lenine, a fila para entrar no Teatro Guararapes ainda fazia curva, ocupava toda a vista do lugar. No guichê, uma mãe ansiosa tenta falar com a produção do evento. “Minha filha não pode vir porque tem apenas seis anos, mas […]

Entrevista: Ultraje a Rigor

Quando surgiu na década de 80, cantando “Inútil” nas festas da boate Noites Cariocas, o Ultraje a Rigor ganhou destaque pelo rock debochado, mas ainda assim de protesto, um que todos esperavam no período já decadente da ditadura. Era o reflexo de uma época que conheceria em breve os Titãs e Legião Urbana. É irônico então observar que hoje, passados mais de 20 anos, a banda continua sendo reflexo da modernidade do rock, cada vez mais devagar e cansado. Cada vez mais acústico.

“A gente teve que se adaptar a tocar os violões, eles são mais duros, são mais incômodos, dá microfonia ao vivo”, comenta o vocalista Roger, em entrevista por telefone. “No início pensamos até em não fazer, achamos que não soaria bem o Ultraje com violão”, completa o guitarrista Sérgio Serra. Mas, apesar da resistência, foi de comum acordo que o resultado é positivo. “A gente estava se ouvindo melhor e conseguiu manter o peso da banda”, refletem.

Mesmo longe de se desplugar, a tendência é diminuir os ruídos. “A sonoridade ficou tão interessante que a gente está pensando em usar mais violões num disco posterior. Acho que vai ter uma influência muito grande a partir de agora”, adianta Sérgio. Esse novo trabalho, no entanto, ainda é incerto. O processo criativo da banda está todo em Roger, que não tem pressa para lançar um disco novo por ano.

Por hora, a preocupação do Ultraje a Rigor é o lançamento do DVD, que sai em setembro com cinco músicas a mais que o disco. Até lá, preparam também a turnê do Acústico MTV. Show que, apesar de simples, não deve chegar aqui no Recife ou mesmo no Nordeste, já que Roger não anda mais de avião.

Acústico MTV

Em “Rebelde sem causa”, o Ultraje cantava “Como é que vou amadurecer sem ter com o que me revoltar?”, brincando com a classe média alta que assumia pose contra a sociedade, ao mesmo que tinham todo conforto em casa. É exatamente o que acontece no Acústico MTV. Bem à vontade no palco armado pela emissora, a banda contesta pouco e aparece madura. É a revolução da postura da década de 80 no cenário do banquinho e um violão. Com um monte de palavrão também.

Apesar da discografia curta para uma banda com mais de 20 anos, escolher o repertório para um show definitivo do Ultraje não é um trabalho justo. Existem poucas que não viraram um hit nas suas devidas épocas. Mas a MTV costuma ser generosa no espaço que dá aos acústicos e a banda conseguiu definir bem as músicas. São pelo menos duas músicas de cada disco, além de uma inédita. “Ciúme”, “Zoraide”, “Independente Futebol Clube” são algumas da velha guarda, juntas com “Me dá um Olá” e “Agora é Tarde”, do mais recente.

Mesmo tendo lançado um disco menos rock e mais surf music em 2002, o impacto do acústico é grande. O Ultraje funciona no violão e parece a vontade com os novos arranjos. Mas apesar das lembranças serem divertidas, são as músicas novas que fazem o ponto alto da qualidade do show. Como é tradição na história dos acústicos da MTV, eles costumam representar um ponto de virada importante da banda (quando não o próprio fim). As mudanças no som já é uma prévia do que pode acontecer no caso do Ultraje a Rigor.

Publicado originalmente em 31.08.05

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Los Hermanos: 4

Os fãs do Los Hermanos acabam de ganhar um motivo de verdade para chorar nos shows. Motivo que deve se manifestar de maneiras diferentes, todas através do novo disco “4”, que deve estar esgotado nas lojas até próximo fim de semana. Disco que marca, talvez, a fase mais introspectiva do grupo e reflete a idéia pouco necessária de se trancar dois meses numa fazenda para conseguir criar.

Já é tradição dos quatro barbudos, que só lançam disco no intervalo de cada dois anos, trazer uma face nova em cada trabalho. Eles estão numa fase MPB, com presença dos sintetizadores e também percussão perdida nas guitarras sem distorção. De resto, faz lembrar bastante a época da música de praia e das letras literatas em excesso de Chico Buarque.

Se não por isso, será pelo fato que “4” é o disco mais difícil do Los Hermanos. Não se deve escutar ele de surpresa, tampouco levar para uma festa. Escutá-lo é um quase ritual. Tentativa boba, já que esse “difícil” é, na verdade, quando se tenta associar aos discos anteriores, “4” é um trabalho simples, enxuto e visivelmente parte de um momento pessoal. Se as músicas trazem algum sentido escondido, é apenas para eles.

Das 12 faixas, sete são assinadas por Marcelo Camelo e cinco por Rodrigo Amarante. As diferenças entre elas são fortes, já que o primeiro sequer chega a formar sentenças inteiras. Apesar do impacto da primeira audição, onde tudo demora a deixar de ficar tão lento, “4” é um disco bem executado.

Existe ainda uma divisão bem evidente, de ordem cronológica. A primeira metade de “4” é toda de melancolia em excesso e, em alguns momentos, chega ao exagero de ter segundos de silêncio. É onde se encontra um Los Hermanos mais à vontade e até mais criativo. Com excessão de “Paquetá”, música perto de uma valsa, essa primeira parte tem uma caracterísitica saudável. Ponto para a banda, que vai evitar frases de efeito nesse trabalho. A segunda metade chega com uma sensação forte de obrigação. Músicas animadas e letras fáceis. É nessa leva que está “O Vento”, de trabalho que está tocando nas rádios. E o provavel é que saiam daí os principais sucessos em clipe e shows.

Publicado originalmente em 30.07.05

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