O fim do amadorismo – Pop up!

Pensar nos principais pontos da profissionalização das bandas, de certo modo, remete a um processo natural do avanço de certas tecnologias. O acesso a ferramentas de gravação e prensagem, por exemplo, são cada vez mais acessíveis. Mas o mercado fonográfico no Recife tem uma postura precoce. Uma que caminha algumas etapas a frente do que acontece no restante do país; muitas com características que são muito próprias da região.

Isso acontece porque, desde o primeiro festival Abril pro Rock, há 14 anos, a Região Metropolitana do Recife passou a construir sua própria cadeia produtiva, com todos os elementos que compõe a mesma. O evento deu uma proporção maior a maneira como se consome música na cidade. Lojas de disco, festas noturnas, programas de televisão e de rádio foram afetados – mesmo que de maneira indireta – por esta necessidade fazer a produção local transitar em várias camadas.

Hoje o Recife tem, até o momento e contando com o palco pop do carnaval, nove festivais de música. São o já citado Abril pro Rock e também o RecBeat, NoAr: Coquetel Molotov, Pré-Amp, Pátio do Rock, Porto Musical, Festival de Verão e Cultura Independente. Todo esse volume exige um refinamento e força, diretamente, uma postura profissional nas bandas que querem passar nessa peneira.

Por isso ter um disco apresentável não mais é etapa final para definir uma banda bem inserida nas novas cenas. É apenas o primeiro passo. Hoje os grupos já contam com a própria assessoria de imprensa, produção musical e de palco, roadies, entre outros figurantes. Os estúdios de gravação também foram envolvidos e viraram selos de qualidade para um trabalho.

Um extremo que representa bem esse quadro é a história da banda Carfax. Formada em 2005 por ex-integrantes de outras bandas – uma história que se repete com freqüência – encabeçados pelo casal Marcelo Pompi e Iana Reckman. “Gravamos uma demo ainda sem banda e parti para o sudeste para divulgar e conseguir patrocínio. Quando voltei a banda estava formada e entramos em estúdio para gravar um trabalho definitivo”, explica Pompi.

Além dos elementos já citados, a Carfax também tem seu próprio palco. Segundo o vocalista, são “cinco microfones, kit de microfones para bateria, pedestais, duas caixas de grave, caixas de médio/agudo, quatro retornos, um praticável de bateria, mesa de som com 12 canais, equalizadores, amplificadores, efeitos, 18 canhões de 1000 wats e outros itens de iluminação”. A única coisa que a banda precisa para se apresentar é uma tomada para ligar os equipamentos.

Este tipo de articulação já permite, por exemplo, que as bandas de Pernambuco negociem distribuição nacional com empresas como a Tratore e Distribuidora Independente – especializadas em entregar os discos pelo territorial nacional – sem estarem necessariamente envolvidos com algum selo ou gravadora. É o caso de bandas como a Eta Carinae, Eddie e Bonsucesso Sambaclube.

“Muitas bandas aqui já sabem o que querem, e com isso é mais fácil estabelecer metas”, comenta um dos produtores do festival No Ar: Coquetel Molotov, Jarmerson de Lima. O coletivo virou uma das principais mediações da nova música feita no estado. Eles coordenam um programa de rádio, uma revista e um selo, além do próprio festival. Jarmerson destaca ainda que a ambição das próprias bandas já vence barreiras geográficas em outras mediações. “É bem interessante, por exemplo, ver resenhas sobre a Rádio de Outono escritas em revistas nacionais por pessoas como Normam Blake [vocalista do grupo inglês Teenage Fanclub]”.

Esta necessidade de se profissionalizar atingiu as bandas num ritmo muito mais acelerado que todo o restante da cadeia produtiva do estado. Apesar da grande quantidade de festivais que acontecem, não existem válvulas de escape suficientes para que as bandas se sustentem na cidade. Falta o cotidiano. Recife não tem casas de shows de médio porte e com boa (ou mesmo qualquer) estrutura de som; além de um público interessado em pagar pelas apresentações e discos da produção local. Como conseqüência, a maioria dos grupos acaba se mudando para cidades como São Paulo, onde conseguem preencher um calendário mensal de shows em casas diferentes.

A imprensa também não acompanha este ritmo. Na maioria das vezes, os jornais só dão espaço para uma banda quando está já está com o disco gravado, shows agendados ou até legitimação do público do sudeste. Foi o caso da Momobojó, que quebrou o hiato de seis anos sem um artista da terra sem contrato assinado com gravadora. Só depois de ganhar destaque em São Paulo e Rio de Janeiro que a mídia local passou a prestar atenção no trabalho deles. Não existe um trabalho, por exemplo, de garimpagem da crítica por talentos menores e iniciantes.

A nova mediação
Durante o Porto Musical de 2006, uma das frases mais repetidas pelos profissionais que vieram ao evento era a de que “Pernambuco é ouvido muito mais fora, que dentro do estado”. Apesar de contar com cerca de 18 estações de rádios FM’s regulamentadas, nenhuma delas faz execução pública dos gêneros próximos do rock de produção independente. A maior parte da programação é preenchida com lambadas, forrós eletrônicos e generalizações do novo brega.

Sem o suporte do meio mais tradicional para difusão de música, as bandas passaram a usar a Internet como novo mediador entre seu trabalho e o público. “É impressionante o que algumas bandas de emocore conseguem só com os Fotologs [álbuns virtuais de fotos]; alguns shows tem público lotado só com divulgação feita nesses sites”, comenta o responsável pela página do RecifeRock na Internet, Guilherme Moura.

O RecifeRock foi o primeiro a identificar essa carência digital. “Notei que os jornais sempre falavam das mesmas cinco bandas, quando tinham muitas outras se apresentando nos fins de semana”, lembra Guilherme, que é arquiteto. Hoje, além dos sites das bandas – alguns com suas próprias rádios online – o Recife conta com pelo menos seis páginas específicas.

“A Internet amplifica as notícias para outras praças”, reforça o designer Leo Antunes, responsável pelo endereço CircuitoPE.org. “Hoje, conto com cerca de 50% de audiência de pessoas do Sudeste”, completa. O Circuito é um dos que tem atualização freqüente de conteúdo mais variado, como blogs (diários virtuais), podcast (rádio), galeria de fotos e de vídeos. A parte escrita das coberturas de eventos é feita pelo próprio público, que escreve e dá notas para questões que vão de estrutura a preço das bebidas.

A Internet também reconfigura o conceito de cadeia produtiva. Com suas músicas disponíveis em licenças como o Creative Commons (uma onde o artista diz o que pode ou não ser feito com a obra, como por exemplo distribuição livre e remixes), as bandas passaram das etapas das lojas de discos e casas noturnas, chegando direto a casa do público interessado.

O espaço virtual também trabalha noções de cena que não tem limites geográficos. Antes de lançar o primeiro disco, com apenas algumas músicas gravadas em estúdio, bandas podem comunicar diretamente com outras do mesmo gênero, fechar shows e turnês. Na lista de discussão Nordeste Independente (hospedado pelo site Yahoogroups), por exemplo, produtores e bandas acertam programações inteiras de seus festivais sem nunca se falar por telefone ou ver uma foto da banda, apenas com a música em formato MP3. Este dialogo ainda permite uma constante troca e ecos de um processo cada vez mais rápido de profissionalização.

Publicada originalmente na revista Continente Multicultural n.70 | Outubro, 2006

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