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Para atacar a valorização decrescente do frevo como ritmo principal do carnaval, Mário de Andrade foi, de certo, bastante econômico. “Entre nós, são muito raros os que têm verdadeira convicção de cultura”. Já são cerca de 60 anos de uma crítica que continua válida. Essa falta de consciência é o único obstáculo entre o “Nove de Frevereiro”, novo de Antônio Nóbrega e o sucesso absoluto já agora, nas prévias da festa de Momo. O disco é a primeira parte de um projeto para anunciar – e comemorar – os 100 anos do frevo.

A coletânea traz 15 frevos-de-rua executados em violino. Experiência que Nóbrega já tinha feito com Quinteto Armorial e que teve resposta bastante positiva. Dessa vez, ele é acompanhado por quinteto de metais, conjunto de sax, regional de cordas e orquestra. Proporção que ganhou gosto com o trabalho de Spok e agora vira arma principal contra a invasão axé, brega e escambau que embolam as ladeiras de Olinda.

São composições de Levino Ferreira, Toscano Filho, Capiba, Cláudio Almeida e Nelson Ferreira, entre outros. Frevo-de-rua que se mistura com frevo-canção e frevo-de-bloco, instrumentais e cantados, que Nóbrega fez questão de não separar entre os dois CD’s. Por sinal, o segundo da coletânea, ele pretende lançar em 2007, quando o ritmo comemora 100 anos. É um registro que preza pela inovação – neste caso, o uso do violino – também pelo resgate.

O disco é encartado por um livreto precioso. Muito bem cuidado, ele traz resumos biográficos dos compositores escolhidos e referências de outras canções dos mesmos. É também impresso com fotos de agremiações antigas. Uma delas, sob a objetiva de Pierre Verger, em 1947 faz uma interferência com a imagem recente de Antônio Nóbrega brincando carnaval junto com o povo. Talvez a mensagem mais sincera do disco, já que a mesma cena, hoje, remete a outras trilhas sonoras.

Em “Nove de Frevereiro” Nóbrega tem muito sucesso em modernizar o frevo, sem esbarrar nas redomas que tentam evitar forçosamente que ritmo não se misture. Mais que simplesmente bonitas, as notas do violino parecem certas para o frevo. Um polimento na música, que consegue deixar o som com aspecto novo, sem forçar para um lado erudito. Conquista de artista e obra que merece o acima citado sucesso, não fosse a barreira das interferências culturais.

“No mar do frevo, cada peixinho nada do seu jeito”, diz a frase de Luís da Câmara Cascudo no fim do encarte. Do seu jeito, o novo frevo de Antônio Nóbrega por enquanto só se encontra nas lojas. Ele se programa para lançar as músicas ao vivo quando o calendário estiver mais próximo do carnaval. Opção que pode parecer um reforço nessa falsa parede que afasta o frevo cada vez mais dos ritmos e festas populares.

Publicado originalmente em 11.01.06

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