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Fevereiro 18, 2007 | Por: Bruno Nogueira | Na Seção: Reportagens

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O infame ego pernambucano faz com que o estado brigue para ser a maior em tudo. O maior shopping, maior livraria, maior aeroporto, maior avenida, maior carnaval; a lista não pára. Esse orgulho mais bobo – aliás, por ser bobo – esquece que maior e melhor não são semelhantes. Ano passado o Recbeat apresentou uma de suas piores edições justamente por estar maior. Este ano, longe da preocupação, abriu a primeira noite já apresentando o que deve ser uma das melhores edições. Espaço menor e bandas com menos ego foram resultado de um ambiente tranqüilo, com circulação livre de pessoas e sem violência. Quase impossível de associar com edições anteriores.

Eu não caio nesse papo de festival para revelar talentos. Acho o discurso bonito, mas ainda acredito que 70 a 80% do público não leva o show para casa. Só a ressaca. A quantidade de imprensa nas costas do palco e nas barraquinhas de comida também mostra outro grupo desatento. Chamar atenção nesse cenário é muito difícil. Difícil pra caramba. Sem um “medalhão” para instigar a ansiedade de todos então, quase impossível. Mas se o Recbeat rompeu com essa ansiedade pelo maior, quem sabe, consegue acabar quebrando outros tabus também?

Confluência já abriu a noite quebrando esse tabu. Parece que o hip hop vem abrindo espaços maiores nesses eventos mainstream, saindo de seus palcos específicos (e, por vezes, restritos). Sob a batuta do Dj Big, que trabalha para esse projeto acontecer há três anos, e no primeiro palco grande que os caras subiram, não é que rolou revelação mesmo? Dois vocais femininos contra dois masculinos. Um deles, o do poeta Ivanildo Vila Nova. Ficou legal no palco porque não parece clichê. Não é mistura de rap com embolada. São os dois sons, ao mesmo tempo, em harmonia.

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Convencido então que ali era um bom lugar para revelações, passei Erasto Vasconcelos. Confesso que teria assistido o show se ele não abrisse o repertório direto com o “O Baile Betinha”, mas gastou o cartucho do hit já no começo. E como falaram na hora “ele pode, ele pode”, eu também posso. Só voltei do bar na hora do Supergalo. Banda de Brasília que, com exceção do irmão do vocalista, todos tinham me confirmado ser bem chata. Não achei. Foi uma surpresa boa (talvez pela expectativa baixa?), mas é um rock feijão com arroz super necessário nessa época de tantos temperos.

Estava convencido que o DJ Big e Confluência era o melhor show da noite antes da mesma chegar na metade. Foi ai que subiu Zefirina Bomba. Mudança na programação, para dar tempo de todos os integrantes do Digital Groove chegarem. Paguei pela língua em dobro, porque a banda da Paraíba também abriu o show com o hit (pelo menos o hit para mim). “Alguma coisa por ai”, e o rock mais sujo e pesado que aquele palco conheceria no primeiro dia de Recbeat. Já na emenda com Aneurysm do Nirvana e dá o recado que aquele será um show violento.

Pausa para o momento surreal da noite. Cara chega ao lado “que banda é essa?”, respondo “Zefirina”, em troca de um “só”. O tempo passa, ele cutuca, “é Zefirina não” / “é sim” / “é não”, até que a música acaba. “É Zefirina mesmo”.

Zefirina Bomba leva a sério o mote da banda de “nós só precisamos de 20 minutos para rachar sua cabeça”. No fim do show, o vocalista Ilsom pula em cima da viola, uma, duas, três… sete, oito vezes. Insatisfeito, repete a capa clássica do London Calling, do The Clash e sacode a bicha no chão. Não tem outra, uma farpa voa pra cima e o sangue jorra para baixo. No camarim, todas as televisões tentam pegar um segundo sequer dele com o pano na cabeça, cheio de gelo. E, no detalhe, o braço com o repertório do show anotado. Quem perdeu, pode se arrepender.

Foi tudo tão intenso, que a sensação era de fim de festival. Gente se dispersando, sem muito interesse pela próxima Digitalgroove. Quando eles lançaram o disco, lembro de terem me dito “é um disco pensado para festa, não muito para show”. Fez sentido quando vi eles no palco. Misturar é legal, mas volta o papo do ‘maior x melhor’. Tudo parece muito over no grupo. De um lado, Felipe Falcão numa pegada e visual rock, do outro, as caretas de virtuoso de Beto Kaiser. No centro, um repentista, um rapper, um coquista. Na ponta, um computador. Perto da metade do show, tudo soava um tanto cansativo (ou confuso, enfim, muita informação). Diferente de como é no disco.

Não vi o Z’África Brasil. Mas se o show deles tiver sido 10% do que apresentaram semana retrasada no palco da Praça do Arsenal, posso garantir que foi bem chato.

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As fotos são de Vladia Lima, cedidas pela produção do Recbeat

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