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Novembro 21, 2006 | Por: Bruno Nogueira | Na Seção: Reportagens

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Quando o festival Abril pro Rock anunciou inscrições para um concurso de bandas no Recife, Bruno Souto se recusou a participar. Sua banda ainda não tinha completado um ano e já tinha aparecido entre os cinco melhores discos demos do ano no respeitado site da revista e selo Senhor F. “A gente estava no caminho certo, porque pessoas que entendiam de música estavam elogiando. Não queria pensar em perder para alguém naquela hora”. Ele tinha motivo. Meses antes, um outro concurso havia escolhido uma banda para abrir um show dos Engenheiros do Hawaii antes mesmo das finais. Mas seus amigos de banda o convenceram. Ele assinou a inscrição no último dia e, em dezembro de 2004, a Volver era anunciada vencedora.

Difícil pensar que só faz dois anos disso. O que aconteceu deste tempo para cá pode ser contado em flyers e cartazes de festivais. A Volver participou de quase todos os grandes eventos independentes do país. Fechou contrato com a Senhor F e distribuição com a Monstro Discos. Foram convidados para participar lado-a-lado com nomes que já somam década de história, como o Mundo Livre S/A, no tributo a Odair José (Allegro). Entre uma viagem e outra, eles sentaram numa mesa no bar onde ficava o extinto Pina de Copacabana, outrora quartel general do defunto manguebeat, e contaram sua história.

“Mas o release é para isso, né?”; Bruno Souto abre o bom humor da conversa antes mesmo do garçom trazer a primeira cerveja. Antes de virar “a banda mais gaúcha de Pernambuco”, o Volver se chamou Headphone. “Tinha morado cinco anos em Gravatá [interior do estado] e quando voltei para a cidade conheci o Diógenes, que morava na mesma rua que eu em Olinda. A gente fez uma banda chamada Solar da Fossa, que era o mesmo nome de um antigo bar que tinha na cidade alta”.

Antes de voltar a morar na região metropolitana, Bruno já tinha criado o hábito de uma vez por semana vir garimpar CDs. “Lá em Gravatá só tinha uma loja de disco, ficava do lado de um supermercado e só vendia disco de novela, etc”, ri. As músicas da Volver são assinadas por ele, algumas em parceria com o restante da banda. “A primeira que escrevi na vida foi Lucy [faixa seis do disco], já na semana que montamos a Volver”, lembra o vocalista.

Histórias como a da Volver já estão perto de serem patenteadas no franchising das bandas independentes do Brasil. Eles partiram para algo mais sério, chamaram outros interessados e começaram a compor. As influências chegaram na mesma época. “Eu estava ouvindo muito Frank Jorge e Júpiter Maçã”, confessa Bruno. O primeiro show foi num aniversário, dia 20 de março de 2004. “Só tocamos músicas nossas”. Um mês depois, um show da Cachorro Grande no Abril pro Rock, deu a instigação restante para levar a história a sério.

Hoje, a Volver é a voz de Bruno Souto, a guitarra de Diógenes Baptisttella, o baixo de Fernando e bateria de Zeca. “Canções Perdidas Num Canto Qualquer”, o primeiro disco, abre com “Você que pediu” e segue com mais 10 músicas. Referências a jovem guarda e o rock de guitarras saltam a memória em cada segundo. “Mister Bola de Cristal”, “Charminho” e “Não Ria de Mim” são hits fáceis, radiofônicos e atingem nível 10 no efeito chiclete.

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“Quando a gente recebeu o dinheiro do Microfonia [R$ 4 mil], pagamos imediatamente o estúdio para gravar. Só tiramos R$ 20 para pegar um táxi”, conta Bruno. “Nossa vontade era de levar a sonoridade ao vivo o máximo para o disco”, completa. Quem os acompanhou no processo foram os produtores Leo D e William P, do estúdio Mr. Mouse, que virou selo de qualidade nos discos feitos 100% Made in Recife. “Mandamos a máster para Fernando Rosa, do Senhor F, e dois dias depois já tínhamos fechado contrato com eles”.

O disco serviu de passaporte e chave-mestra para os festivais Bananada, Calango (onde eles viajaram um total de 120 horas de ônibus, ida e volta, para tocar por 30 minutos), Goiânia Noise, Porão do Rock e dois Abris pro Rock seguidos. Fora isso, todos os festivais do Recife, além das principais casas de show das cidades que ficam no trajeto do Nordeste até o sul do país. “O massa porque a gente ganha muito em divulgação quando toca fora, os jornais sempre dão algum espaço. Em Brasília, depois do show do Porão do Rock, fomos capa de um caderno de cultura como destaque da noite”.

“Para mim, nosso melhor show foi em Curitiba, com o Relespública”, conta o guitarrista Diógenes. “Lá tem muitos Mods e rockers, quando eles viram nosso show, adoraram, a energia foi muito boa”, concorda Bruno. A banda também já se apresentou em Porto Alegre, terra que virou referência na música que eles tocam. A brincadeira, que foi publicada originalmente num jornal local do Recife, criou eco no país. E aonde chegavam eles passavam a serem chamados da banda mais gaúcha do rock pernambucano.

“Esse rock gaúcho que falam é por causa da influência dos anos 60, que a gente pega muito também, eu sempre fui muito fã da Jovem Guarda”, comenta Bruno. Mas tanto ele, quanto Diógenes, não esperaram chegar à terceira cerveja para entregar o que pensam disso. “Essa história já está enchendo um pouco o saco, quer dizer, ninguém está aqui para revolucionar o Rock’n’Roll, mas estamos fazendo um som que é próprio nosso”.

Prata da Casa
A Volver é, certamente, a banda que tem tido melhor histórico nessa nova cena independente do Recife pós-Mombojó. Nenhuma conseguiu preencher tantos espaços no currículo em tão pouco tempo. Nenhuma tem tido uma atmosfera tão receptiva. “Mas falta muita coisa. Falta a gente se auto sustentar, acho que pouca banda do nosso tamanho consegue viver hoje do próprio trabalho”, comenta Bruno. “No Recife não dá, porque tem poucos lugares para tocar, raramente pagam cachê”.

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É um dos principais motivos para a banda estar arquitetando a mudança de sua base de operações. “Quando você toca em São Paulo, isso costuma repercutir no país, e o contrário não acontece. Tenho certeza que se a Volver passasse dois meses lá, já estaria muito a frente do que está hoje”, avalia. “Os gaúchos também têm esse mesmo problema que nós, estão muito longes do eixo, mas lá eles tem rádios que tocam a música deles e no Recife isso não existe”.

Não é deslumbre. Falar do momento rock independente nacional com a Volver, é ouvir de resposta o nome de suas companheiras de palco. “Recife está muito bem de bandas. Claro que porcaria tem em todo canto, em São Paulo mesmo tem muita”, compara. “Minhas favoritas”, diz Bruno, na promessa de não fazer política, “são Mellotrons, Rádio de Outono, Carfax, Mombojó, Bonsucesso Samba Clube, Eddie, Insites e Superoutro. O que é péssimo mesmo aqui são as bandas de covers do disk MTV”.

No restante da cadeia produtiva da música, a banda também sinaliza para o positivo. “A imprensa do Recife sempre nos trata bem, dos três jornais da cidade, dois deram críticas positivas ao disco. Rádio é complicado, mas a gente ainda consegue tocar nas comerciais, uma vez perdida, num horário louco”.

Meia volta, Volver
Depois de fechar este circuito de festivais, fechar contrato e ganhar menção na edição argentina da revista Rolling Stone, os planos da Volver é recuar de volta até o momento de partida. “A gente está relançando o primeiro disco, agora com nova capa e uma faixa multimídia. Nosso plano é aproveitar para divulgar ele com mais força, agora que as principais capitais já conhecem nosso trabalho”, comenta o vocalista.

“Também vamos ver o que dá nessa gravação do Banda Antes MTV [exibido no dia 31/07], queremos gravar outro clipe, a idéia ainda é trabalhar este disco”, completa o guitarrista Diógenes. “Mas enquanto isso, o segundo disco está sendo composto, claro” diz Bruno Souto. A banda não faz previsões, mas promete um single virtual para ser lançado em breve no próprio site e também no do selo Senhor F. “Já mostramos a música para algumas pessoas e a resposta foi positiva”.

Nesse trajeto de dois anos, as “Canções Perdidas num Canto Qualquer” da Volver foram encontradas, acolhidas e os quatro pernambucanos já podem contar com o elemento mais valioso para uma banda: uma platéia formada. De hits numa festa em Salvador, os aplausos de um público notadamente de hip hop em Natal até o momento de uma conversa perdida em um corredor do Rio de Janeiro, o nome da banda provoca reações. E esses encontros sempre provocam sorrisos, daqueles que observam o rock independente nacional em movimento.

Essa matéria foi publicada originalmente na revista OutraCoisa n.16 | as fotos são da Angela Smaniotto

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