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Fevereiro 5, 2006 | Por: Bruno Nogueira | Na Seção: Discos

Primeiro trabalho em casa independente. O resultado é uma diva que parece estar mais a vontade para brincar com timbres, melodias e ousar nos compositores

Outro resultado positivo do êxodo que os medalhões da MPB estão fazendo para as gravadoras independentes, Gal Costa faz sua entrada com classe e muito estilo em “Hoje”, disco que é lançado este mês pela Trama. Produzido em parceria com Cesar Camargo Mariano, presente também nos teclados, é um disco que mistura inéditas com interpretações que passam do pernambucano Junio Barreto ao esperado Caetano Veloso.

São 14 músicas que mostram uma Gal que estava em débito grande com os fãs. Muito mais à vontade, com variação e afinação de voz de fazer inveja. Verdade que o repertório contribui bastante para o sucesso que esse disco deve fazer. A poesia simples e rimada de Nuno Ramos, Moreno Veloso e Carlos Rennó são embaladas por uma mistura boa e sutil de samba tranqüilo e percussivo com um pouco de bossa e pagode.

O trabalho é audivelmente minucioso. Resultado que não poderia ter chegado com a pressão engessada de uma gravadora de grande porte. Já em “Mar e Sol” encontra a perfeição que tanto persegue a fama de César Camargo. Mistura instrumentos acústicos com elétricos sem criar ruídos. Passa do reflexivo para o romântico de “Voyeur”. Gal Costa incorpora o verdadeiro sentido de interprete e dá alma às músicas.

E faz um trabalho muito mais que justo em “Santana”, música de Junio Barreto que, mesmo já cantada por Maria Rita em shows, custa para circular no País. Nos versos simples “a santa de Santana chorou sangue / chorou sangue / chorou sangue / era tinta vermelha”, Gal dá energia contagiante e excessivamente contida. Como numa dança forte e cronometrada, que exige disciplina mesmo de quem ouve.

A expectativa para um novo disco de inéditas era grande, mas Gal e Mariano chegam mesmo a brincar com essa tensão. Voz e melodia fazem uma mistura quase tropicalista, como só a musa do gênero conseguiria conduzir. Consegue ser pura poesia em “Nada a Ver”, onde canta “tudo parece ser / um precipício / nem sei dizer…” e também auto-referente em “Luto”, de Caetano, que fala “A minha mente está na Castro Alves / Na Rio Branco / No Marco Zero”, sem perder o compasso.

Mas é na que dá título ao disco, com muito trocadilho, que melhor indica a Gal de hoje. “Não vou mudar nada / de tudo que eu fiz”. Diferente apenas quando fala da lembrança. Lá, não deve haver um “nós” como melhor parte dela. Mas quando esse “nós” é Gal Costa, Cesar Camargo e o ouvinte, este disco é, sim, o que tem de melhor.

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