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Outubro 23, 2007 | Por: Bruno Nogueira | Na Seção: Reportagens

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O diretor de cinema Hector Babenco passou uma tarde inteira sentado no hall do hotel que se hospedava para lançar seu novo filme “O Passado”, recebendo jornalistas convidados pela distribuidora Warner para fazer entrevistas. De paletó, com os pés apoiados à mesa, parecia não se importar muito com os excessos. “Eu nunca me repito, sempre respondo tudo diferente”, diria em tom sorridente. Tanto desprendimento se respondia pelo brilho em seus olhos, entregando que ele estava no momento mais apaixonado pelo seu novo trabalho. Logo, tudo se justificava.

Babenco supera com facilidade uma limitação inerente a qualquer contador de histórias. Ele não está preso a limitações geográficas. Já fez filmes brasileiros, norte-americanos e, agora, argentino. Circulou entre os indicados ao Oscar e em eventos mais restritos da indústria de filmes. “Ele é muitos, é seu próprio gênero”, como bem indicou a atriz Argentina Moro Anghileri, que protagoniza “O Passado” ao lado do mexicano Gael Garcia Bernal e outras duas atrizes conterrâneas, Ana Celentano e Anália Couceyro.

ENTREVISTA| HECTOR BABENCO

– Como você lida com a localidade em seus filmes, ao contar histórias que fazem partes de culturas tão diferentes? 

Você não escolhe onde filmar. Você deve ir atrás de boas histórias e por isso me sinto como um cigano. A moderninade tem mostrado que esse fluxo migratório faz perder o medo de novos lugares. Além do mais, quando se chega a um lugar novo, percebe-se detalhes no cotidiano que as pessoas não vêem mais e isso se destaca mais nas histórias.

– Você acha que o público lida bem com isso, seguindo a carreira de um diretor que nem sempre retrata sua realidade? 

Eu não estou preocupado com isso. Se fosse me preocupar com o que o público pensa, acho que nem sairia de casa. Cheguei a pensar que esse [”O Passado”] não teria 10% do público de “Carandiru”. Não é por isso que eu faço filmes.

– E porque você faz filmes, então? 

Faço porque eu não me sentiria bem comigo mesmo se deixasse de fazer. São histórias que eu vejo e preciso dar forma a elas de alguma maneira.

– O livro “O Passado”, de Alan Pauls, onde você se baseou, é de uma história contada sem diálogos. Quanto mais complicado que é transpor uma narrativa assim para o cinema? 

É muito difícil, bastante difícil, e foi por isso mesmo que me interessei em fazê-lo. Havia coisas no livro que me interessavam, mas não fiz uma adaptação literária, afinal duas horas não condensam 500 páginas.

– Você disse recentemente que Gael Garcia Bernal foi o melhor ator com quem já trabalhou. Não acha essa declaração indelicada para os atores brasileiros que ajudaram a construir sua carreira? 

Não sei. Não estou desmerecendo ninguém e acho que disse isso com muito do momento de outra entrevista. Também acho que essa pergunta vai por um caminho perigoso do nosso contra o estrangeiro. Me encantei (sic) muito com Gael e com as escolhas que ele tomou em sua carreira. Acho ele um dos grandes atores de nosso tempo.

– Mas, ainda assim, ele está longe de ser o modelo de grande ator com o qual fomos educados a adorar. Você acha que esse conceito de sucesso precisa – ou já está – sendo repensado? 

Eu percebo muito feliz que está mudando sim. O mercado está sinalizando que o ator hollywoodiano clássico não tem mais o mesmo apelo ao público que antes. Mas acredito que é um estereotipo muito bem firmado e por isso não vai mudar.

– Em “O Passado”, você faz uma clara homenagem a técnicas de filmagens mais antigas. Mas, o que acha dessa grande quantidade de produções em filme digitais que o Brasil está recebendo?

Não acho o cinema digital algo mais novo. Não faz a mínima diferença, é só uma opção de como captar as imagens, uma informação técnica que precisa ser dito ao público, da mesma forma que precisaria ser dito que um filme foi feito inteiro com atores cegos. Para mim, o que importa é o conteúdo, acho que é o com o conteúdo que essa nova geração precisa se preocupar, não com algo técnico.

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