Interpol em São Paulo
“Rosemary, heaven restores you in life”
Paul Banks deve ter ficado triste quando ouviu a voz dele se confundir com a do público no comecinho de Evil. O show do Interpol em São Paulo começou tão frio, que eles deviam esperar no máximo uma orda de zumbis dançantes. Já era o finzinho da noite no Via Funchal, que tinha começado pontualmente às 21h com o Cachorro Grande tocando num som ruim o suficiente para deixar os fãs apreensivos sobre a primeira oportunidade de ver ao vivo uma das pontas da santíssima trindade do indie rock. Precisaram 13 músicas para cair a ficha e a banda derreter o gelo, fazendo a parte mais insana de sua apresentação.
Cheguei em São Paulo no dia do show, às 6h da manhã ainda. Tudo bem, é uma cidade grande demais para se comover com um único artista, mas a quantidade de cartazes anunciando a vinda de Julio Iglesias remetiam diretamente ao fato que o indie, aqui, ainda só tem força quando age coletivamente. Fora de um Tim Festival, o Interpol era apenas mais um show na terça-feira. E as notícias que chegavam via colegas – participar da produção do Abril Pro Rock conseguiu me por em contato com o agente direto desse show no Brasil – diziam que no Rio de Janeiro e Belo Horizonte seria menos que isso.
Metade do show do Cachorro Grande foi perdida na fila. A assessoria de imprensa da Via Funchal é feita por um equipe quase toda vinda da finada BMG, antes da fusão com a Sony. Foi algo que acabou facilitando meu credenciamento (e um breve primeiro encontro no guichê entre todos). Ser mais antenado com a necessidade de circular entre blogs e sites menores que a mídia tradicional tem seu lado negativo. A fila para pegar a credencial era maior que a dos ingressos. Tinha direito até a um esquema VIP próprio, com Lúcio Ribeiro, o pessoal da Rolling Stone e Marimoon (?????????) não precisando perder muito tempo por lá.
A última metade do show foi ainda mais assustadora. O som era chiado, abafado e havia uma verdadeira orquestra dos volumes, com o baixo e teclado alternando com a voz e guitarra da banda. O Cachorro Grande evita tocar músicas do novo disco no repertório, reconhecendo que a pegada mais leve não funciona ao vivo. Não salvou muita coisa. Havia um choque claro de público também. Moptop e Pato Fu foram escolhas felizes para abrir a noite no Rio e BH, mas associar a banda gaucha com a nova iorquina apenas porque eles se vestem bem não colou muito. Beto Bruno & Cia saíram acompanhados de uns poucos gritos de “acaba logo!”.
A pausa entre os shows serviu para encontrar alguns amigos e perceber como a fila dos bares era gigante. O Via Funchal é bem estruturado, são seis bares. Mas eram seis filas. Fora as para o banheiro. A sensação claustrofóbica só colaborou para notar como estava quente lá dentro. Eram cerca de cinco mil pessoas para ver o Interpol, isso porque o mezanino com os camarotes estavam praticamente vazios. O segredo era ficar estratégicamente no portão que levava a saída, logo abaixo uma forte corrente do ar condicionado. Porque eu tinha inventado, claro, de ir de blazer para o bendito show.
Os primeiros acordes de Pionner to The Falls, com a banda já no palco, foram abençoados. Diminuíram as filas e mostraram que o problema no som era apenas azar do Cachorro Grande. Abrir com o single de trabalho geralmente é sinônimo de uma noite com poucos hits. Mas Obstacle 1, logo na seqüência, sinalizava o contrário. Ao vivo, essa tensão entre dor e alegria que o Interpol processa em suas músicas fica um pouco mais fácil de acompanhar. A banda, sempre vestida de preto, se diverte muito tocando. Faz caretas e sorrisos ao pouco que começa a identificar que tem um público maior do que imaginava no Brasil.
Existia um contraste divertido. Colado no palco, onde assisti a primeira parte do show, as pessoas estavam frenéticas. Em C’Mere e Say Hello To The Angels tinha de gente chorando, sorrindo como quem havia cheirado 15kg de pó, cantando tudo sem parar, pulando e, claro, a voz das meninas berrando “gostoso”. Menos de três camadas de pessoas depois, a postura era outra. Muita gente parada, com expressão de quem avaliava cada segundo da apresentação. Aconteceu uma outra negociação em escalas. O Interpol enlouquecia o público da frente, que enlouquecia o público do meio. Na parte de trás era apenas socialização.
O Interpol passou a fazer praticamente um segundo show quando chegou a hora do retorno programado ao palco. Foram só quatro músicas, mas a sensação foi de que durou até mais. Paul Banks interagiu de verdade com o público, conversando, perdendo a pose de frio. Agora sem os terninhos, guitarra e baixo passavam os limites do palco, quase sendo tocados pelos fãs. A noite terminou relativamente cedo, no comecinho da madrugada. Agora deflorados pelos fãs brasileiros, fiquei com a sensação que eles devem ter feito apresentações bem mais calorosas nas outras cidades.
SETLIST
1 – Pioneer to the Falls
2 – Obstacle 1
3 – NARC
4 – C’Mere
5 – The Scale
6 – Say Hello To The Angels
7 – Mammoth
8 – No I In Threesome
9 – Hands Away
10 – Slow Hands
11 – Rest My Chemistry
12 – The Lighthouse
13 – Evil
14 – The Heinrich Maneuver
15 – Not Even Jail
16 – NYC
17 – Stella Was A Diver And She Was Always Down
18 – PDA
em BH foi mais calorosa do que eu imaginava mas eu ainda acho que o maior/melhor publico deles foi mesmo em sp.
O show foi incrível! Mesmo com o empurra-empurra entre o público da frente e a falta de ar condicionado nesse miolinho. O set list foi maravilhoso! Seria perfeito se incluísse, no mínimo, mais uma dezena de outras músicas!
Curiosidade: quais são as outras bandas da sua santíssima trindade?
ah é fiquei curiosa pra saber da santíssima trindade.
strokes, interpol e…?
:P
Como assim? Franz Ferdinand, claro! :P