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Da coluna Ressaca. Publicada no site Giro Cultural

A pergunta que mais me foi feita essa semana que passou foi qual minha opinião sobre o Abril pro Rock. Confesso que dificilmente elaboro respostas em um bate-papo, sempre falando a primeira coisa que me passa na cabeça. Acho que, num mesmo dia, dei três respostas opostas sobre o que tinha achado dos shows. Aproveito agora a vantagem que às vezes não tenho no jornal, por ser mais imediato, para fazer uma reflexão maior sobre o evento.

Para isso, vamos levantar aqui quatro dados fundamentais: 1) Como já falei antes, organizar show no Recife não é prazeroso. Todo mundo quer entrar de graça, beber de graça, levar o cd de graça e se não conseguir, reclama. 2) Nada no mundo jamais será unânime. Então quem conseguir as façanhas anteriores, pode acabar reclamando também. 3) Discurso batido entre 10 de cada 10 artistas: um show é uma troca entre público e palco.

O quarto, mais importante, é que é inegável a importância músico-social que o Abril pro Rock tem no Recife. Tanto que, passadas duas semanas, ele ainda é assunto nos jornais locais, listas de discussões e fóruns em geral. Levando todas essas coisas em consideração, acredito que, este ano, o festival finalmente encontrou seu foco. Mas o que acho mais engraçado é que o Abril pro Rock foi bom exatamente pelos motivos que todo mundo resolveu reclamar.

Para começar, o preço. Eu, pessoalmente, teria pago até mais que R$ 40 para ver um show do Placebo. Considerando que o grande público do Abril é de estudantes, maioria dos nove mil presentes pagou R$ 20 para ver, de quebra, Los Hermanos e mais cinco shows que, polêmicas à parte, foram bem legais. Não fosse suficiente, o festival conseguiu que quatro mil pessoas pagassem os mesmo valores no domingo para ver um show que rolou de graça no carnaval, junto a outras bandas que tocam todo fim de semana por R$ 5 na cidade.

Em segundo lugar, a escalação. Paulo André acertou em deixar a utopia de lado e ter chamado bandas que tem público garantido. É fato: se Sepultura e Shamam fizessem um show por dia aqui, daria sempre umas três mil pessoas (a prova foi que todos esperaram pelo atraso de 2 horas da atração do sábado). Esse ano deu ainda dois tapas na cara do público do Recife. Quem garantiu que ia vaiar o Massacration se divertiu bastante na apresentação e a presença do Legendary Tigerman é mais uma prova de que Recife ainda não tem ouvido para conhecer novidades em ocasião de show. Tem que tocar na rádio, passar na mtv, ter fotolog, etc. Prova disso é o Gram, que já tinha esse disco ano passado, mas não teve metade da tietagem que rolou aqui quando tocou no Mada, em Natal.

Ainda na escalação, a reclamação geral: É bem verdade que DJ Dolores está sempre lá, assim como Mombojó e essas figuras marcadas do mangue. Mas eu, sinceramente, chamaria a produção do evento de idiota se eles fizessem o maior show de rock da cidade e não colocassem as bandas que eles produzem no palco. É o privilegio de ser o dono da bola. O Coquetel Molotov faz isso de maneira mais descarada e ninguém reclama. Seria inocência demais acreditar que, em qualquer lugar do mundo, aconteça o contrário.

Este ano, se tenho reclamações, é mesmo com o público. Chegou a ser ridículo constatar que os fãs do Placebo (os caras pintam a cara, são super Glam Rock e sempre associados a homossexualismo) sejam menos afetados que os do Los Hermanos (sempre fazendo pose de armorial, sandalinhas de couro e camisas de clima tropical). Fiquei todo marcado porque resolvi ficar na frente do palco. Os caras tocam aqui todo fim de semana e, ainda assim, teve gente chorando, esperneando e jogando confete como se fosse o próprio fim do mundo. E, insisto, eles tocaram aqui não faz nem 4 meses, antes disso, outros 4 e vai diminuindo o espaço de tempo.

Mesma coisa no sábado, quando o público headbanger se fechou completamente para as apresentações excelentes do Retrofoguetes e MQN e, depois, reclamam quando falam que tem cabeça fechada. No domingo, a “galera mangue” também desmereceu a performance de Daniel Belleza e, principalmente, do Volver.

Deixo ainda uma última reflexão, só que esta para a organização: o público do domingo é sempre pequeno. Porque então não excluir o dia e aproveitar a grana para dar um gás ainda maior nos shows da sexta e do sábado?

Molhando o bico

Entre as entrevistas que fiz durante o evento, conversei com o dono da Monstro Discos (que é filho do dono da gravadora Trama). Pedi a ele um comentário sobre a polêmica que muitas bandas do selo dele que venceram o concurso iam contra o regulamento do Claro que é Rock. A resposta foi curta e grossa: “F***-se o regulamento”. Na semana seguinte, todas as bandas que citei foram desclassificadas.
Publicado originalmente em 25.04.05

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