Totonho e os Cabra – Sabotador de Satélite – Pop up!

Totonho é duas vezes um típico MEB. Música Eletrônica e Música para Exportar Brasileira. Exemplo mais clássico da criatividade nordestina em reprocessar suas batidas regionais com os samplers eletrônicos que recebe freqüentemente uma porta na cara dos produtores locais. Até, claro, voltar cheio de referências, elogios e um disco lançado no sudeste do País. Junto com sua banda, “Os Cabra”, o paraibano volta a dar as caras no segundo CD, “Sabotador de Satélite”, o primeiro produzido pela Trama.

A descrição lembra muito do que aconteceu com Otto. Mas a música de Totonho não ficou tão eletrônica assim. Ainda. Com roupa prateada e cheio de colares, só para fazer tipo, Totonho é o tipo de figura que se encontra num bar e, depois de tanta história, não dá para saber se a bebida está batizada ou se você que já passou da conta. Sua poesia é assim. Uma prosódia de uma sociedade que vive num latifúndio do espaço sideral onde ninguém tem emprego e educação. Hoje está tudo bem, o amanhã é que anda mal.

As pequenas histórias desse cenário cheio de intertextualidade começa com “Jaspion do Pandeiro”, rapaz que anda por aí com um skate no pé e batuque na mão. Traz consigo um par de silicones para mamas juvenis. Segue sempre nesse clima engraçado, com um pé no inteligente, lembrando um pouco de longe letras da extinta Karnak. Aliás, comparações são o que não faltam em “Sabotador de Satélite”.

Totonho rima com a vontade de experimentar de Chico César, Cordel do Fogo Encantado e Otto. Como esses três, sua música se venda pela sinceridade que mostra nas faixas do CD. Diferente deles, suas histórias parecem ser conduzidas por uma constante melancolia mesmo nos efeitos e batidas eletrônicas. Mesmo quando soa bobo ao falar que “o peito da morena / quando aperta faz fom fom”. Chega num limite perto do final, em “Rita Leea de Itamaracá”, onde canta “já estou de partida para o meu apê lunar”.

Existe ainda o fator de timing, que garante a esse disco uma expectativa maior de chamar a atenção dos produtores. A fase de crítica negativa a supervalorização das misturas regional está bem perto do fim. “Sabotador de Satélite” chega num momento onde uma triagem mais responsável deve selecionar artistas de qualidade para representar essa parcela do mercado fonográfico. Para quem está atrás disso, o disco é um prato cheio.

Entrevista

“Vamos fazer uma parceria?”. A proposta veio do produtor musical da Trama, Carlos Eduardo Miranda, depois que Totonho mandou sua demo para nada menos que 20 gravadoras. Bem antes desse resultado, sua história começou em João Pessoa, onde participava de uma cooperativa de compositores. “Éramos 19 e, quando um fizesse show, todos os outros estariam a disposição deles para conseguir som, contato com imprensa, etc”, explica. Mas acabou indo para o Rio fazer mestrado. Encontrou uma ONG no meio de caminho e parou de fazer música.

Quando viu que um dos colegas da cooperativa estava fazendo sucesso, viu uma oportunidade para voltar. Era Chico César. “Comecei a produzir umas demos, achando que através dele conseguiria chegar numa gravadora”, lembra. Mas não é assim que a coisa funciona. Totonho acabou aprendendo que o artista, na verdade, costuma estar bem distante das decisões de uma grande empresa. “Mas acabei me encorajando e fundei esse aglomerado de gente, “os cabra” que tocam comigo”.

Foi quando começou o processo de procurar shows e mandar demos para gravadoras. “Engraçado que eu nunca toquei no Recife. Sempre mandei material para o Rec Beat e Abril pro Rock, mas nunca tive resposta”. Engraçado mesmo, já que seu disco de estréia, homônimo, é o tipo de som que os produtores locais procuram. Talvez numa embalagem menos jovem.

Totonho volta para o Nordeste no fim do ano, onde se apresenta na sua cidade natal em novembro. “Tradição é uma coisa que não anda sem ser mudada, transformada. Parece que só agora começam a dar atenção para isso no Nordeste”, reforça. Enquanto se prepara para a viagem, tenta “fazer uma ponte com os outros estados próximos”.

Publicado originalmente em 20.09.05

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