Para quem perdeu ontem:

Isso bate com uma coisa que, volta e meia, eu falo aqui pelo blog. Sobre as tensões entre a cena independente e o que vai se tornar o mainstream pop brasileiro. A aproximação que existe hoje entre bandas e a produção de festivais independentes não é muito saudável. Poucas bandas conseguem diferenciar que para aquele produtor, atingir algo como a Abrafin é realmente um ponto muito alto. Mas para quem apenas toca não. E por isso tem muita gente arriscada em morrer no circuito de festivais, achando que o lance é realmente chegar ali e pronto. Não é difícil eu encontrar uma banda que vem me falar que não vai conseguir crescer, porque não está fazendo parte dessas escalações. Quando ainda existe muito mais.

O que existe a mais, aos poucos, começa a ser demonizado por essa própria cena. Vide casos como o da Pitty e do Los Hermanos. Existe uma suposta perda de autenticidade tanto para o público quanto para outras bandas quando um artista atinge mais. Como se ser cooptado por um grande veículo de mídia fosse uma força contrária a tudo que alguém constrói numa carreira.

Está se criando uma troca de valores e o novo máximo definido para uma banda atingir caiu bastante de conceito. São idéias muito generalistas (isso é óbvio, mas é sempre bom esclarecer). Mas se aplicarmos esse raciocínio a todas as outras bandas que fogem dessa lógica – curiosamente, as bandas que mais aparecem na programação dos festivais hoje – vamos perceber que esse é um dos grandes motivos para novas bandas terminarem tão cedo hoje. Ser notado, uma parte do processo que antes parecia ser impossível, agora passou a ser ignorado com a facilidade trazida pela Internet. Com isso, a ambição é pouca e a frustração é ainda maior.

Se por um lado, é triste ver uma banda conseguir chegar nesse ponto, tocar em dois ou três importantes festivais independentes e então não crescer em mais nada; é sempre algo incrível ver uma banda “passando de fase” para um nível maior. Não que tocar no Jô seja uma mega conquista, mas acho mesmo que essa participação representa essa divisão para o Cabaret, uma banda que sempre me pareceu predestinada para muito mais. Basta agora eles saberem utilizar a exposição.

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5 comentários


  1. foca on 10 Jul 2008

    realmente não é o fim do mundo e nem a solução dos problemas tocar em festivais (da abrafin ou não). Banda tem que produzir, produção é que leva há algum lugar.

    tocar em grande mídias e festival e ganhar a vida com isso é reflexo… o mundo é grande demais para nos limitarmos.

    rock around the world. Quem num guenta que peça o pinico…

  2. Julio on 10 Jul 2008

    ah, meu amigo, há muitos outros pontos que incidem sobre essa aparição do Cabaret no Jô: você sabe onde o Márvio trabalha, né? não que eu esteja dizendo que jornalista não pode ter banda e crescer com ela, mas sei lá, SEMPRE fico com a pulga atrás da orelha, não tem jeito.

    e se tem uma coisa que os Los Hermanos não podem ser acusados é de perder a autenticidade. ali isso é o que não falta, tem até demais, pra dizer a verdade – e não estou elogiando, hehe!

  3. Bruno Nogueira on 10 Jul 2008

    Márvio é reporter de esportes da Folha de São Paulo. Tu acha mesmo que isso é precedente pra conseguir um espaço num dos programas de maiores audiência da Rede Globo? Se fosse, ele estaria lá antes.

    Ser jornalista fecha muito mais portas para um músico que abre, te garanto. Basta perceber que o único texto que saiu sobre o Cabaret na Folha foi uma micro resenha, quase seis meses depois do lançamento do disco. E a banda nunca é citada em qualquer matéria sobre qualquer coisa no jornal.

  4. Márvio dos Anjos on 10 Jul 2008

    Júlio Ibelli, eu acho que você deveria me entrevistar. Você é jornalista não? Pelo menos em 2003, vc me entrevistava. Deveria tentar de novo.

    Não é a primeira vez que você levanta algo do tipo. Não acha que está na hora de fazer perguntas e me deixar respondê-las, em vez de jogar pseudoconclusões?

    É um convite que eu te faço.

  5. Felipe Gurgel on 11 Jul 2008

    Agora vou defender a classe, hahaha.

    Tudo que diz respeito ao sucesso alheio é conspiração, isso é impressionante. Vivo a mesma situação (sou jornalista e tenho banda) e é como Bruno falou: isso fecha mais portas do que abre.

    Ainda mais quando você trabalha repercutindo a área de música. Então ocorre que sua presença em festivais, por exemplo, muitas vezes é mais interessante para os produtores como profissional de mídia do que como banda.

    O que incomoda algumas pessoas que enxergam pêlo em ovo é o fato de jornalistas, ao menos teoricamente, terem acesso privilegiado à informação. E particularmente não enxergo mais tanto esse ponto hoje, visto que a informação é pulverizada demais e o fato de ser jornalista não é pré-requisito para eu pular etapas, deixar de me inscrever para tocar em um determinado festival, por exemplo.

    Agora se as pessoas não querem procurar informação e ainda assim chorar o leite derramado, aí paciência.


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