Festival de Inverno de Garanhuns 2006 – Pop up!

GARANHUNS – Já era oficialmente domingo, quando a neblina das três horas da manhã deixava o cenário do parque Euclides Dourado cinza e com uma falsa impressão de frio cortante. A equipe da prefeitura da cidade de Garanhuns já começava a desmontar parte da estrutura das barracas e palco. Mas, num espaço perto dali, com algumas panelas e até bolo de aniversário na mesa, o Festival de Inverno só estava começando para os técnicos de som, fotógrafos, coordenadores de eventos e jornalistas. Era o primeiro suspiro depois de nove dias seguidos de trabalho intenso na cidade das flores. A relação deste pequeno grupo com as cerca de 30 mil pessoas que circularam por dia em Garanhuns é maior do que parece. Numa pesquisa rápida entre o público, a resposta para a pergunta “que atração você veio ver no Fig?” era sempre respondida pela apresentação que estivesse no momento no palco. Atenção constantemente imediata seja nos bastidores, seja no gargarejo do palco. Com a empolgação do frio, ou o descaso do mesmo em sumir alguns dias, boa parte das pessoas tinha pique para esticar a programação até o nascer do sol. São casos raros como esses que o público vira parâmetro de qualidade. Comentar a diversidade da programação do Festival de Inverno de Garanhuns seria tarefa injusta, remando contra uma maré de 40 mil pessoas que quase perdem a voz num show de Magníficos. A Esplanada Guadalajara oscilou na qualidade do som – o mesmo equipamento, mas que não era tratado corretamente pela maioria das bandas – e teve, no geral, uma escalação bastante coerente. Barão Vermelho encerrou com o maior público, cantando em coro de afeto junto com uma imagem de Cazuza que era projeta no telão. Na peneira do repertório fácil só com sucessos – e uma inédita que só falava em voltar no tempo – a banda impressionou pelo carisma que ainda tem no palco. Mérito deles. Mas o mais atentos vão ter dado o devido valor a Júnio Barreto, caruaruense que ainda sustenta moda em São Paulo, mas é pouco conhecido aqui. Sua apresentação na sexta-feira lavou os ouvidos de uma constrangedora aula de samba de Gustavo Travassos. Impressionou também a portuguesa Clã, que abriu para os Los Hermanos. O Palco Pop foi também um de contradições. Programação boa, que dividia os dias em gêneros. Mas o público fez questão de esbanjar a frieza que faltou na temperatura. Não tinha um “chega junto”, um “vamo ver”, que fizesse a frente dos shows se animar. “Entre nesse lugar chamado inferno”, cantava, em inglês, a Goiânia MQN. Os versos traziam um pouco de verdade – porque lá, quase sempre, estava muito quente – na apresentação que foi a mais animada dos oito dias.

Mas inferno também porque muitas bandas não conseguiram afinar o som. Mellotrons fez um show prejudicado, Totonho teve seu público afastado pela chuva e a MTV tentou, mas acabou também fazendo uma apresentação para poucos. Talvez seja hora de repensar o conceito de um palco que só introduz novidades e pensar num “medalhão independente” para encerrar as noites.

Refinado
Se teve um palco com boa programação todos os dias, foi o do Virtuosi na Serra. Apresentações bem dosadas, que não se prolongaram tanto quanto ano passado. O maestro Rafael Garcia teve, este ano, o cuidado de explicar um pouco de cada obra executada pelos músicos. Nas noites realmente frias do FIG – que chegaram perto dos 12o – se aquecer ao som do violino, clarinete ou ao som da voz de um tenor, parecia sempre uma opção mais que agradável.
O palco instrumental, entretanto, não foi tão feliz. O parque Ruber Van Der Linden não favorece a posição do público, que sempre se dispersa fácil. Em apresentações como a de Fred Andrade, fica o desperdício nas caretas e poses do virtuosismo das guitarras. O espaço teve muita sorte de um encerramento merecido, com o ótimo Duofel, de São Paulo, e o trio Cezinha, Lalão e Racine.

..Programação da madrugada teve o maior público

Até a edição do ano passado, o fim dos shows na Esplanada Guadalajara também significava o encerramento do dia. Mas uma das novidades do 16o Fig já podia ser vista antes do encerramento das atividades do Palco Pop. Perto da meia noite, o Euclides Dourado já começava a receber o público do Palco Forró. Das pequenas concentrações, era a mais movimentada de todas. Sem pré com três atrações, que iam de Ivan Ferraz, Karolinas com K e Genaro e Valkyria, o pé-de-serra era sempre sucesso garantido. Logo ao lado, subindo uma pequena elevação, uma tenda de circo recebia as Noites Cubanas. “Aqui que é bom mesmo, porque o povo já chega calibrado pra dançar”. A frase do caruaruense Manoel Gonçalves, 34, era o melhor mote possível para o clima da noite. Apertado, quente de fazer suar nos primeiros segundos e com um forte cheio de bebida. O forró e a cubana – como não podia deixar de ser devido à hora e condições – foi também onde teve mais confusões com briga e polícia. Mas nada que estragasse a diversão.

Não era incomum quem resolvesse acordar para conferir a programação matinal, encontrar com uma ou outra cara conhecida, ainda longe da ressaca e com o rosto vermelho de tanto agito, passeando pela avenida da cidade. Foi bom também para fugir do óbvio de Valdir Português e Edinho Jacaré, conferindo uma boa seleção dos DJs Big e Catarina Dee Jah.

..De manhã

Se a noite tinha diversão, público e espaço garantido no Festival de Inverno de Garanhuns, o mesmo não podia ser dito pela manhã. Os ciclos de leitura e o pólo de cultura popular tiveram movimento fraco e, de um certo modo, um pouco de descaso mesmo da própria organização. O horário era cedo demais para quem tivesse se esticado na programação noturna e a falta de informação também favoreceu uma certa escassez. O pólo popular foi o mais prejudicado. Na principal avenida na cidade, passava fazendo batuques que só chamavam atenção pelo exótico entre os cidadãos comuns de Garanhuns. Era difícil ver um turista no lugar, até porque ele fugia da rota dos hotéis e dos palcos. Com um tom de abandono, durante o silêncio, foi possível ouvir um morador perguntar ao amigo “que barulheira é essa ai?”. Os dois ficaram sem respostas. O problema do ciclo de leituras era mais complicado. Começando pela própria entrada do Hotel Tavares Correia, que recebia os visitantes com um punhado de fezes de cavalo no chão aromatizando o ambiente. Sendo um hotel grande, cabia um mínimo de sinalização, já que os funcionários também não sabiam indicar como chegar até o lugar do evento.

Apresentado pelo jornalista e ator Manoel Constantino – e não pelo Doutor em Literatura Anco Marcio, como anunciado – o ciclo teve um clima de reunião intima. Piadas internas e histórias que esclareciam pouco para o público ouvinte deram um tom fechado aos debates. As vezes, apenas os envolvidos na organizam riam de certos acontecimentos, o que chegava a ser ainda mais constrangedor para quem vinha de fora.

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