Independência, parte dois
Primeiro vieram os festivais
Em um cenário apocalíptico onde as grandes gravadoras começaram a apertar a descarga do departamento artístico, reduzindo contratos e lançando cada vez menos discos e músicas, as bandas encontraram nos festivais independentes um sopro de sobrevida. Do primeiro arquivo em formato MP3, há 10 anos, até este fim de semana, a Internet escancarou um fato que não era peciso esforço para ignorar: existem centenas, senão milhares, de bandas lançando coisa nova em todo momento. E se essas bandas não iriam mais assinar contratos, poderiam pelo menos vislumbrar um calendário de grandes eventos ao longo do ano inteiro, em todo o país, que garantiria ao menos uma mímica de mercado independente.
A Associação Brasileira dos Festivais Independentes (Abrafin) permitiu isso. Essa informação de que em um estado distante como Cuiabá tinha eventos tão interessantes como a então efevercente cena do Recife. E que as bandas de Belo Horizonte encontrariam um grande evento logo ao lado, em Goiânia. Os eventos se conectaram e, com a troca de informações, criaram um grande funil para bandas independentes. A coisa ficou mais séria e, quem quisesse tocar, teria que aprender a abrir mão de certas regalias e passar a colocar a banda em primeiro lugar. Pouca gente aguentou o tranco e até cancelou participação em festivais.
Muita banda inclusive acabou depois de tocar em festival. E, provavelmente, muito mais bandas devem acabar a partir de agora, porque o negócio vai começar a ficar realmente sério.
Até então, depois dos festivais não vinha mais nada.
Uma das conseqüências que a Abrafin trouxe ao meio independente do país foi uma facilidade melhor de articular uma turnê fora do país. Nos últimos dois anos a participação do Brasil em eventos como o South by Southwest quadruplicou. E enquanto a banda Debate fazia shows em várias cidades vizinhas ao Texas, Eduardo Ramos (sim, aquele do CSS), teve o estalo ao lado do amigo Sérgio Ugeda, da Amplitude. “Estamos tocando no Texas, mas nunca tocamos em Bauru”. E passaram a olhar mais atentamente a vizinhança.
De volta ao Brasil, os selos Slag Recores e Amplitude decidiram juntar os esboços desses questionamentos em idéias concretas. Até então, fazer shows no Brasil sempre significou 1- Fazer uma temporada de dois meses, sempre com média de cinco ou seis shows, nas casas dos arredores da Augusta em São Paulo; 2- Contornar o Nordeste, com um máximo de três shows que passavam por Natal, João Pessoa, as vezes Recife, as vezes Fortaleza. Um potencial enorme sempre foi deixado de lado em cidades do interior.
Nos últimos seis meses, Slag e Amplitude dedicaram tempo exclusivo em desbravar o interior. Primeiro com ligações para donos de bares e casas de shows, a principio desavisados e desinteressados, muito perrengue, visitas nas casas e persistência. O resultado chegou agora: Esses caras estã montando um circuito de nada menos que 90 shows no Brasil. Noventa. E agora, cair na estrada ganha um novo sentido.
Até então, isso é algo inédito. E incrivelmente grande. Nos Estados Unidos as bandas viajam sem muito glamour de cidade para cidade, as vezes fazendo pequenos shows, outras vezes esbarrando em um grande festival. Essa vida na estrada talhou o som desde históricos Led Zeppelins a hypados Klaxons e mesmo estrangeiros como o CSS. No Brasil, é certo afirmar que nenhuma banda independente conheceu de verdade essa vida on the road, que, ironicamente, é até comum a alguns nomes do mainstream do pop nacional.
A primeira turnê Amplitude + Slag será com as bandas Fóssil e Attractive&Popular. Para não começar dando um passo maior que a perna, as duas bandas somam, juntas, cerca de 40 shows. Tocam em Bauru, Botucatu, São José do Rio Preto, Araraquara, Mogi das Cruzes, São Carlos, Rio Claro, Campinas, São José dos Campos, Piracicaba, Limeira, Guarulhos, Sorocaba, Bragança, Franca, Santos, Ribeirão e São Caetano do Sul, além de São Paulo.
Vai ser a primeira vez que uma banda independente consegue fazer um show por dia, todos os dias, sem parar durante um mês.
Nesse trajeto, encontram outras bandas e, com o tempo, vão multiplicando o circuito. Outras bandas como Firefriend e Macaco Bong já estão fechando suas participações nesses circuitos. E Eduardo Ramos e Ugeda já estão articulando novos braços, com Anderson Foca no Nordeste e, mais tarde, Fabrício Nobre no Centro Oeste. A interiorização vai mudar profundamente o comportamento e postura que as bandas começarão a precisar assumir a partir de agora.
Conversei ontem com Eduardo e, na seqüência, vem um post com entrevista. E as bandas podem começar a se preparar para se levar muito mais a sério do que jamais imaginaram. E, na sequência, as datas das turnês, que começam dia 23 de setembro.
Tags: Abrafin, Amplitude, Attractive&Popular, Eduardo Ramos, Fossil, Sergi Ugeda, Slag



Rss
O pop up é um blog sobre música e mercado independente mantido inteiramente por Bruno Nogueira, jornalista e doutorando em Comunicação e Culturas Contemporâneas.


September 4th, 2008 at 09:30
Muito interessante essa iniciativa, com certeza são poucas as bandas que vão estar “habilitadas” a cumprir uma agenda desse tipo e se levar a sério, mas as que estiverem vão ter uma ótima oportunidade de constituir público, venderem material e tudo mais que a estrada permitir.
Resta saber se uma agenda desse tipo vai proporcionar também sustentabilidade aos artistas que toparem, pois de nada adianta você fazer uma série de shows como essa e não ganhar “nada” – claro que divulgar o trabalho é importantíssimo, mas pagar as contas também é -, pois o bar vai vender cerveja, o cara que aluga o som vai receber pelo aluguel, o cara do táxi que vai levar o público de volta pra casa vai receber, o cara da gráfica vai ganhar pelo cartaz que imprimir e por aí vai…
September 4th, 2008 at 10:07
Acredito que essa postura citada, das bandas, se refere a como elas terão capacidade de gerir suas carreiras, como elas vão encarar o fato de que tudo isso está disponível, mas que é preciso suor, braços e articulações para atingir… não tem mais produtor que vai descobrir você num show e te ”bombar”… como foca diria: tem que se viver o ”music style of life” ou como diriam os cubistas ”Artista igual pedreiro”.
Foi aberto mais um caminho, agora é saber explorar e não esperar :).
September 4th, 2008 at 11:10
americanos e europeus moram na estrada e todo dia pagam seus dias tocando. Isso é o espirito, se a banda cresce, cresce porque o cara fez por onde e não porque tem uma fórmula mágica que faz vc ficar rico da noite pro dia.
Sustentabilidade em 2008 é comer hoje e tentar garantir que amanhã tenha comida de novo.
festivias, bandas, casas, tá só começando a tomar corpo. agora falta consciência pra as bandas de que isso tudo é para elas e por elas. Assumam essa responsa bandas!
:)
quem se habilita???
September 4th, 2008 at 11:26
[...] americanos e europeus moram naHenrique: Acredito que essa postura citada,Pauliño: Muito interessante essa iniciativa, compaulo: [...]
September 4th, 2008 at 12:11
[...] Pop-Up, um dos poucos blogs de música que prestam no Brasil. Ele colocou dois textos (uma matéria e uma entrevista com Eduardo Ramos) tratando da mais importante notícia da semana: a turnê que a [...]
September 4th, 2008 at 13:21
Se essa rede conseguir se conectar com a abrafin de alguma forma, acho que vai tornar o circuito independente muito mais interessante pra as bandas.
Tipo a tour estreando e finalizando em um grande festival…
September 4th, 2008 at 15:04
[...] nenhuma linha alem dessas sobre o assunto. A entrevista abaixo é a sequência do post anterior “Independência, parte dois” sobre o novo projeto dele como [...]
September 5th, 2008 at 03:47
Isso realmente abri uma grande porta pra todas as bandas do brasil de pequeno e médio porte. Pode ser um começo de quebra de fronteiras nunca visto na música independent brasileiro
MUito boa matéria. e a entrevista tb.
September 7th, 2008 at 13:58
[...] “As bandas precisam mudar para começar. Precisa acabar esta postura de “banda de final de semana”… A maioria das bandas são uma piada ambulante… ficam felizes de lançar um CD e mostrar para a namorada/família e eventualmente aparecer em uma matéria na Rolling Stone! Isso não existe… nem aqui e em nenhum lugar do mundo, apesar que este marasmo das bandas é algo universal, não é problema só daqui não. No Reino Unido acontece direto, nos EUA acontece direto. Odeio quando alguém vem e fala que as estradas brasileiras são uma merda, isso é desculpa de perdedor.” Eduardo Ramos – produtor que está lançando um ousado e interessante projeto de levar bandas para o interior com shows diários Entrevista para o parceiro Bruno Nogueira no Pop Up [...]
February 17th, 2009 at 11:58
[...] consolidar longas turnês. As exceções provam a regra. Apesar disso, há boas iniciativas, seja a visibilização de um circuito pelo interior, como fez o pessoal que era da Tronco Produções pelo interior de São Paulo, viabilizando shows [...]
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