A última transmissão – Pop up!

Está aqui uma verdadeira preciosidade. Quando a editora Conrad anunciou a série “Iê Iê Iê”, foi feito muito barulho sobre a coletânea de textos de Lester Bangs em “Reações Psicóticas”, que inaugurava a coleção. Tanto barulho, que acabou ofuscando o valor do prometido segundo volume, “A Última Transmissão”, do americano Greil Marcus, que chega agora às livrarias. Este sim, uma verdadeira aula e fundamental no repertório de qualquer bom amante do rock’n’roll.

Se a intromissão beatnik nos textos de Lester Bangs não foi feita para ser seguida, Greil Marcus soube transformar sua escrita em regra. Pode soar um elogio exagerado, mas basta ler o Prólogo “O Fim dos Anos 60”, certamente uma das críticas musicais mais completas e coerentes já publicada até hoje. Marcus analisa o então recém lançado “Let it Bleed”, dos Rolling Stones. Mistura referências musicais, mercadológicas e históricas. Também faz uma previsão que vai marcar toda sua carreira.

A previsão era o conturbado comportamento adolescente que marcava o início dos anos 70. Greil Marcus foi o principal jornalista a cobrir a música punk nos Estados Unidos e Europa. Cobertura que virou sinônimo de reflexão e compreensão num grau que foi aceito pelos próprios anarquistas ingleses. Trunfo que passou bem longe da carreira de outros colegas da época, como Tony Parsons, que teve seu recente “Dispáros do Front da Cultura Pop” publicado no Brasil.

É pela seriedade que conduziu seu trabalho que Greil Marcus acabou virando uma referência histórica. Para as revistas Rolling Stone e New West, ele registrou momentos importantissimos, como o nascimento da gravadora Rough Trade, a mais importante do mercado independente. Escutou o disco “London Calling” do The Clash e avisou que aquilo estava “apontando em direção ao futuro”. Sua “Última Transmissão” é o decreto oficial do fim do punk rock.

O texto simples de Marcus é a fórmula da leitura deliciosa da versão brasileira. A tradução, ao contrário do livro de Lester Bangs, está mais segura, direta e fácil. Por isso o livro flui rápido, com boas surpresas que só aceleram a leitura. Por necessidades e limitações óbvias, o livro escolhe um recorte nos anos 70, mas Greil Marcus continua ativo. Ele assina uma coluna chamada “Real Life Rock Top 10”, no site Salon.com.

Para o próximo volume, a editora Conrad promete um livro ainda sem título com reunião dos textos de Nick Tosches sobre o começo do rock. O jornalista da revista Creem e Fusion ganhou destaque em 1982, quando lançou o livro “Hellfire” com a biografia de Jerry Lee Lewis. Na sequência, está cotado Simon Reynolds, uma das principais vozes na cobertura das bandas pós-punk. Ele esteve no Brasil em 2005, entre outros compromissos para assistir ao festival Campari Rock, em São Paulo.

Publicado originalmente em 18.01.06

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