Festival Mundo 2008: Primeiro dia

Foto de Rafael Passos

Eu me devia uma visita ao Festival Mundo desde sua segunda edição. Naquele ano fui convidado para apresentar o Overmundo para o público da Paraíba e, por motivos pessoais, acabei tendo que voltar para o Recife logo após a conferência. Nos outros dois anos também não consegui estar lá, mesmo acontecendo em uma cidade vizinha. Problema corrigido esse ano. Sai do jornal direto para a rodoviária, encontrei com Montarroyos e seguimos em direção a João Pessoa. Por lá, já esbarramos nos Macaco Bongs, Calistoga e o pessoal do Cabaret, que terminava passagem de som.

Corremos com o check in no hotel e depois para o jantar, mas não foi o suficiente para pegar o show da primeira banda. Era a Outona, atração local que tocava hardcore melódico. Dei uma espiada lá no Foca e ele disse que não chamou atenção. Eu fico me devendo uma vista, já que a banda não usou metade do tempo que tinha de show. As fotos chamam atenção pelo visual bem cuidado deles. Coisa que fez falta em boa parte de outros mais experientes que passaram pelo palco.

Este ano o Festival Mundo se viu obrigado a diminuir de proporção. O lugar onde acontecia antes não podia receber um evento este ano por causa da eleição municipal. Num passeio rápido pelo Galpão 14, escolhido como substituto, já ficava evidente a importância que o evento tem em João Pessoa. Eles estão apertando o Fast Forward, descarregando informação em excesso para que o público local perceba o que está acontecendo nas cidades vizinhas. O vai e vem blasé das pessoas ficou entre as sensações mais angustiantes do evento.

As duas bandas potiguares não se deram muito bem na estréia que fizeram no festival, pelo mesmo problema da Outona. Como a programação é menor, dava mais tempo de apresentação para cada atração. E nem o Camarones Orquestra Guitarristica e a Calistoga pareciam preparados para um repertório de 40 minutos. A primeira, instrumental, divide as músicas com um começo mais rock, encerrando com reggae e versões para trilhas de desenhos animados. Resultado: esticaram a parte mais difícil de acompanhar, por ser mais lenta.

O mesmo aconteceu com o Calistoga. Acho eles uma das melhores bandas de rock do Nordeste hoje – entre as mais novas, claro! – mas o pique desandou da metade para o fim. Chegaram a terminar mais tímidos, quando deviam levantar e instigar o público cada vez mais. Não vou me meter a produtor de banda aqui, mas de repente escolher algum cover conhecido ajudasse. Sem isso, acabaram perdendo as pessoas que assistiam tudo da frente do palco. Por sinal, nessa primeira noite, o Festival Mundo teve cerca de 300 pessoas conferindo os shows.

Coube a Star 61 dar o primeiro suspiro de esperança da noite. Tocando em casa, começaram brincando um pouco com folk, quase escondendo o potencial glam do vocalista Flaviano. Ele sabe comportar no palco como poucos e, rapidinho, faz caretas, pulas e jogas as plumas para cima, tira a roupa e transforma totalmente a falsa primeira impressão do show. Me lembrou o que escrevi no Boom Bahia sobre se levar a sério. Eles conseguem fazer escracho e ultrapassar o limite do rídiculo sem precisar pagar de personagem.

Isso é a chave central. É impossível não se contagiar quando Flaviano sai para o meio do público, sobe o muro e ensaia um strip tease. O Star 61 consegue existir nos limites no bom senso e, ao mesmo tempo, soar agradavelmente pop. O constrangimento é zero, enquanto a diversão e as músicas já não podem se medir em notas. Eles são uma prova de que o Festival Mundo está tentando mostrar uma realidade rock que já existe na cidade, só precisa ser disseminada.

Tanta purpurina acabou complicando o meio de campo para o Cabaret. Afinal, a proposta das duas bandas eram a mesma. E quando Marvel, vocalista da banda carioca, cantou “O Vira” do Secos e Molhados numa ponta do show do Star, ficou claro que ele não ia vencer na disputa da imagem. Mas acho que isso só não passou de um bom desafio… O Cabaret precisaria, talvez pela primeira vez em festival, mostrar que pode chamar atenção além do cênico.

Mas além de performer, Marvel – codinome que Márvio dos Anjos usa no palco – canta como poucos. Aliás, depois de rodar o país em festivais, vendo para lá de mais de 200 bandas diferentes, me sinto seguro em dizer que o cenário independente ainda precisa correr muito para chegar no nível do que eles conseguem fazer no palco. Mesmo nessa, que foi uma apresentação regular, com direito a falha no microfone quebrando a concentração da banda, o Cabaret surge como principal nome de fora nessa edição do Mundo.

O Cabaret é uma banda de hits, algo que ainda faz muita falta no circuito de festivais. É impossível sair do show sem ficar com pelo menos umas duas músicas no repeat mental. Acho que bandas como essa evidenciam a necessidade de um novo meio termo entre a cena independente e o mainstream, já que ela tem competência para transitar entre os dois meios sem pertencer necessariamente a nenhum deles. Mas não deixa de ser divertido imaginar o estrago que eles fariam com uma projeção maior.

Ao contrário do que acontece com o Macaco Bong, que tocou logo em seguida. Esse choque entre o pop e o experimental acabou não sendo bem assimilado pelo público, que ao não entender quando uma música começava e outra terminava decidiu deixar o local. Confesso que essa mistura de virtuosismo com stoner rock não consegue fazer muito sentido para mim, apesar de reconhecer o quanto a banda é foda no palco. Vi poucos shows dos Bong até hoje (acho que três), e ainda acho que não vi a mesma a banda que tem sido elevada ao patamar da cena independente.

Mas nessa noite, especificamente, tive a primeira decepção real com a banda. Um amp do palco estourou quando inventaram de esfregar a guitarra nele. E tive que ver os caras saírem do palco com cara de quem não queria saber, falando de forma bem ríspida para a produção do evento que “festival é assim, isso é normal”. Para uma turma que faz tanta questão em falar de cadeia produtiva, deviam saber que ferraram o dono do som, deram prejuízo ao festival e prejudicaram as bandas do dia seguinte. E não, isso não é normal.

Conversei com o pessoal da banda e eles explicaram o acontecido. Segundo Bruno Kayapy, o que aconteceu é que o amp sofreu um arranhão e o responsável pelo som do festival exigiu um novo. A banda até topou oferecer um novo, mas apenas em troca do que teria sido “danificado”. E ele acabou não aceitando e deixando a história para lá.

Fotos de Anderson Silva e Rafael Passos.

10 comments

  1. Trackback: Bruno
  2. Pablo Capilé

    Bruno, o kayapy me falou sobre isso que aconteceu, mas o que ele me disse é bem diferente do jeito que vc quis passar o que aconteceu, segue abaixo o relato exato dele:

    “no final do show eu fiz um ”scracth” apoiando o corpo da guitarra no ampli e ficou 3 marcas bem pequena das cordas,nao foi com a intencao de marcar,mas depois do show o tecnico de palco e o bruno que era diretor de palco do festival disse que eu teria que pagar 1.700 reais pra eles por causa dos 3 arranhos das cordas,alegando que o valor do aluguel do ampli custava 1700 reais, e o ampli era um meteoro vulcano,combo simples,bem propicio para ensaios, eu disse para o bruno tranquilamente que,entendo que o ampli pode se desvalorizar se for vende-lo,pedi desculpas, mas este ampli nao custa 1700 reais e que muito menos aluguel e que em 5 anos de realizacao do calango agente ja teve situacoes muito mais complicadas como queimar ampli que era valvulado,agente arcou pq era sim uma demanda do festival,,e por sinal era jcm cabeca e caixa poe 160 reais a diaria, e eu completei com o seguinte posicionamento, se eu tiver que pagar ,beleza eu me viro e pago,mas eu levo esse que ta ai comigo,o seu amplificador esta funcionando perfeitamente,nao esta com nenhum knob estragado,nenhum ruido,os canais estao funcionando e os potenciometros e os falantes estao em perfeito estado. dai o bruno fez uma cara feia e disse pra mim com essas palavras: que quebrasse entao o ampli aqui,ou entao faz isso com o seu!(em um tom bem arrogante!) eu disse a ele bem tranquilo e calmo: brunao, se for pra gente tentar resolver isso dessa forma nao da,na boa,um abraco,minha proposta esta feita,se vc tiver outra massa,agora se tu continuar compactuando com a ma intencao do proprietario da empresa,fica complicado,na boa,pensa desde onde que 1.700 reais custa um aluguel de um meteoro combo,nem o ampli custa isso!!na boa,um abraco,to aih, e sai do palco e fui para a van voltar pro hotel”

  3. Pablo Capilé

    Converssei com o Rayan, tambem, e ele me disse que tinha sido tudo tranquilo, do jeito que vc fala parece que eles foderam com o ampli, e até onde sei a unica coisa que rolou foi o riscado, e eles ainda se propuseram a pagar o ampli e levar pra elas.

    Ou seja, a historia nao é bem essa né brunao, no mais, acho sim que eles precisam tomar mais cuidado com isso, da mesma forma que vc precisa tomar mais cuidado com seu texto, pq vc da a entender que os caras tiveram uma postura hiper poser e blase, coisa que quem conhece eles, e ja fez show deles em QQ lugar do país sabe muito bem que nao acontece.

  4. Henrique Campos

    Putz Bruno, nada a ver isso aí com o ampli do Macaco velho… eu tava lá, o que aconteceu foi que ficaram 3 riscos na parte de cima do ampli, que não foi prejudicado em nada, ficou funcionando normal… o cara do som que era um esperto, queria levar uma grana da galera por uma bobagem…a gente sabe como são esses caras…

    De boa velho, não vai na onda desses caras não, o próprio diretor de palco foi muito indelicado na hora e não soube resolver a parada.

  5. Rafael Borges

    Era a mesma coisa de eu pedir uma indenização ao festival pelo sujeito que se jogou na minha bateria e derrubou (e arranhou) meu prato.

    Essas coisas acontecem, ninguém faz de propósito pra estragar equipamento não. Quem mais conhece o preço de um equipamento é o músico, músico odeia quebrar algum equipamento. Mas esses danos superficiais podem ser retificados, é barato, inclusive. R$1.700, esquece, é esperteza do dono do som.

  6. Rayan

    Vamos lá…

    Os Bongs foram tranquilos, humildes, prestativos e super gente boa. Além, claro, de terem feito um show pra deixar todo mundo boquiaberto. Isso todo mundo tem consciencia, produção e publico.

    Aconteceu que foi esfregado uma guitarra no amplificador e ao que me parece (não tenho certeza, pois não vi o amp) ficou apenas arranhado. Porém era alugado e o dono do som ficou stressado, com os nervos a flor da pele, o que o levou a falar merda (cobrar o amp) e acabou até contagiando nosso diretor de palco (peço desculpas por ele).

    Conversei com o dono do som após o acontecido, o acalmei e resolvemos tudo. Ele apenas não quis mais deixar o amp no fest e o trocou por outro, mas não prejudicou as outras bandas.
    Pelo contrario, os Bongs ajudaram o tempo todo nas bandas anteriores, para que o som ficasse o melhor possível.

    O show do Macaco Bong no Festival Mundo 2008 só foi possível devido a uma parceria importantíssima com o Fora do Eixo. Assim, nós conseguimos trazer uma das melhores bandas independentes nacionais e apresentá-la ao publico paraibano e comprovar de perto o quanto os caras são gente boa.

    Espero ter ficado claro, agradecemos a todos, e nos desculpamos caso teja havido algum desentendimento.

    Abraço,
    Rayan – Festival Mundo.

  7. Bruno Torrez

    Bruno xará, não fui em hipótese alguma rude contigo. Somente disse que se fosse o teu amp, tudo bem. Falei q o amp era alugado e vc me falou as seguintes palavras: “É festival cara, festival é isso mesmo, é festival.” Nesse momento fiquei apático, não retruquei e nem sequer comentei sobre preços contigo. Cataram no chão a chapinha do knob do meteoro, entreguei na mão de clayton (dono do som) e depois me dirigi ao batera do macaco bong, pedindo pra depois falar com vc, pq ao meu entender “É FESTIVAL” não casou uma desculpa ao acontecido. 1700 contos é muito dinheiro véi, meu papel ali era assegurar que as bandas cumprissem os horários determinados pelo festival mundo.
    Quanto ao louco chei de bala na cabeça q deu um mosh na batera tb tive preju, era minha batera locada ao festival e meu surdo ganhou uns morsas a mais. E assim concordo com rafael, esquece. Eu sou fã do macaco bong e vou divulgar o som de vcs pra excelentes músicos daki com o maior prazer.

  8. Fábio Sanches

    Bruno nogueira é um cara meio fantasiosos e tem um preconceito bobo misturado com ignorância e inveja de quem toca sem vocal como a Macaco Bong, todo som instrumental para ele é dificil e para virtuoso, é meio fosa esse papo. Só presta banda decadeirada, deprê, cabeça e indie descolada, é foda de aturar. E os caras da Macaco bong nem virtuosos são, são mais que isso, são grandes compositores.

  9. Bruno Nogueira

    Cara, você viajou um monte agora. Basta ler um mínimo aqui do blog para ver que minhas bandas favoritas são instrumentais. Pata de Elefante, Retrofoguetes, Chimpanzé Club Trio, O Garfo. Você que foi fantasioso ai ao falar de mim sem nem me conhecer.

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