Palco Pernambuco em São Paulo – Pop up!

SÃO PAULO – Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado, explica: “Não só em relação ao Recife, mas aqui mesmo em São Paulo existem grandes diferenças de público. O astral aqui é um, em outro bairro mais distante é completamente diferente”. Explicação fundamental para compreender a relação público-banda na primeira edição do projeto Palco Pernambuco, que começou por um dos bairros mais ricos da cidade, com Lenine convidando dois artistas da terra, fora um grande nome da música nacional.

A ironia dessa mistura sudeste-nordeste é enorme, porque São Paulo tem o tamanho necessário para praticar a política multicultural que o Recife tanto defende. Num mesmo dia, Roberto Carlos, Sandy (em seu projeto solo de Jazz e MPB) e o internacional Ja Rule fizeram apresentações na cidade e isso não comprometeu o Direct TV Music Hall de ficar lotado, com fila de gente para entrar muito depois de começado os shows. Diferenças que começam a distanciar o nome do evento do estado que o inspirou.

A noite abriu com Cordel mostrando uma empolgação de palco imensamente maior que a última apresentação no Recife, que aconteceu no Clube Português junto a DJ Dolores. Lirinha, que mora hoje num bairro vizinho onde aconteceu o show, jogava corpo e voz para todos os lados, num nevoeiro enorme de gelo seco que cegava o público. Melhor assim, porque quando a fumaça dissipava, mostrava uma platéia paulista extremamente respeitosa. Todos parados, com olhar fixo no palco, sem o menor sinal de dança.

O show, que teve seis músicas inéditas (duas instrumentais), encerrou já em clima maior de cumplicidade com os presentes. Vantagem de Lenine que, mesmo cantando apenas músicas do ainda muito recente trabalho In Cité, conseguiu arrancar uns pulinhos do público. A empolgação ia aumentando com as pessoas cantando em coro, contagiando um pouco o vizinho e, aos poucos, dando animação à noite. A banda se prepara para gravar um DVD “MTV Apresenta” em junho e promete essas inéditas para um disco em agosto.

O anfitrião da noite apresentou sua grande aposta da música pernambucana, Junio Barreto. “O mérito é dele, o talento é dele”, comenta mais tarde sobre sua escolha. Compositor de primeira linha, a voz de Junio hipnotiza o público, que ai sim pega fôlego para fazer uma troca de energia mais intensa com os músicos. Nessa hora já tem gente dançando em cada esquina da casa de shows. Quando encerra sua passagem e Lenine fala quem está chegando, os paulistas mostraram realmente porque vieram.

Maria Rita é a dona da noite. Aparece e o povo grita histérico (tipo de reação que o Cordel costuma ter no Recife), entra em êxtase. Assim como Junio Barreto, canta só duas músicas e uma outra acompanhada por Lenine. Faltando ainda 20 minutos para o Palco Pernambuco encerrar, o público se confessa pouco interessado no restante. Várias pessoas já começam a deixar o local junto com Rita.

Mas ela volta, para um momento de encerramento final. Junto também com Otto, que toca na edição do Rio de Janeiro e estava acompanhando os shows. Com cinco horas de duração, o Palco Pernambuco termina as duas da manhã mostrando uma realidade bem distante do Recife. Organização impecável e bem despretensiosa que escolheu um espaço pequeno, mas com lotação garantida. * O jornalista viajou a convite do evento.

Publicado originalmente em 07.05.05

  • Pernambuco no Prêmio Tim de MúsicaO Prêmio Tim de Música divulgou, semana passada, os 104 finalistas de sua quarta edição. O Nordeste foi a região com mais participantes no evento, sendo 17 indicações – de um total de 35 – todas do estado de Pernambuco. Os vencedores serão anunciados em cerimônia na noite de 25…
  • Interpol em São Paulo“Rosemary, heaven restores you in life” http://www.youtube.com/watch?v=o4XgdPRHQcA Paul Banks deve ter ficado triste quando ouviu a voz dele se confundir com a do público no comecinho de Evil. O show do Interpol em São Paulo começou tão frio, que eles deviam esperar no máximo uma orda de zumbis dançantes. Já…
  • O palco não pode ser poucoDa licença? Esta coluna já se estendeu demais no campo do pessimismo. E, assim como os artistas de quem tanto reclamou, vai sair do Recife. Só volta agora quando valer a pena. Hora de partir para novos ares. E é assim que pousamos no Rio de Janeiro. Terra do samba…
  • InCité teve Lenine de classeNa entrada do Centro de Convenções, às 21h, quando devia estar começando o show de Lenine, a fila para entrar no Teatro Guararapes ainda fazia curva, ocupava toda a vista do lugar. No guichê, uma mãe ansiosa tenta falar com a produção do evento. “Minha filha não pode vir porque…
  • Melhor e pior do ano: PernambucoSérie de retrospectivas própria aqui da coluna, começando em casa. Pensando com calma, não teve momento melhor em 2006 que o Porto Musical. Shows fantásticos – alguém lembra da portuguesa The Gift? -, debates bem produtivos, muita gente fazendo contato importante. Mas o melhor era o clima de que algo…
  • São Paulo Noise Festival O que fazer quando o maior festival independente do país não tem mais para onde crescer na própria cidade? Estagnar? O Goiânia Noise escolheu olhar as cidades vizinhas e expandir. Vão fazer duas edições extras esse ano. Uma em Florianópolis e outra em São Paulo. A versão de Floripa…
  • Pernambucanos em São PauloAssunto clichê, mas matéria legal que a Trama Virtual fez com o povo do deslumbre http://www.youtube.com/watch?v=hcUX0aWbbAY …
  • FIG 2005: Primeiro fdsGARANHUNS – O primeiro fim de semana do Festival de Inverno de Garanhuns (FIG) terminou igual o clima nas ruas da cidade. Frio. A maioria dos turistas e visitantes já voltava para casa durante à tarde, deixando o espaço nas praças Guadalajara e Euclides Dourado pouco movimentado. Uma pena, já…
  • FIG 2005: primeira semanaGARANHUNS – A surpresa no começo da noite na cidade era boa. Ao contrário da expectativa de pouco movimento que se comentava entre a produção do evento, o número de pessoas nas praças era grande. Perfeito para contrastar com o número de exageros (alguns não tão bons assim) que a…
  • Festival DoSol 2005: CoberturaNATAL – Foi a Retrofoguetes que declarou o começo do Festival do Sol, em Natal. E eles não precisaram falar nada, só tocar. Na verdade, a banda de surf music instrumental de Salvador, que tocou no Recife durante o Abril pro Rock, era a terceira na escalação da programação do…

Random Posts

  • Pop up!

    29 Abril, 2007 29 Abril, 2007 29 Abril, 2007 26 Abril, 2007 25 Abril, 2007 24 Abril, 2007 21 Abril, […]

  • Entrevista – Martinho da Vila « Pop up!

    Com disco novo praça, Martinho da Vila arregaça as mangas e descarrega o sotaque da malandragem para dar um aviso: […]

  • Quem acredita na MTV? « Pop up!

    Semana passada, a Music Television exibiu o final de uma palhaçada chamada de “Tour Banda Antes”. No esquema, ela selecionava […]

  • Pop up!

    23 Agosto, 2007 21 Agosto, 2007 21 Agosto, 2007 14 Agosto, 2007 12 Agosto, 2007 11 Agosto, 2007 11 Agosto, […]