Pop up! » Arquivo » Um Nordeste Independente

Pode acreditar, não é bairrismo. A música mais legal que é feita hoje no Brasil, está toda concentrada no Nordeste. O volume da produção é muito grande – ou muito alto, para fazer um trocadilho esperto – o que garantiu a criação de um novo eixo. Agora, as bandas do Sudeste e que batalham para conquistar espaço aqui na parte de cima. Só este mês, pelo menos, cada um dos principais estados da Região desovou um lançamento que esbanja essa qualidade.

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Recife – MELLOTRONS
Do Recife, vem uma história que poderia render um filme super clichê de rock’n’roll. Banda batalha no esquema garagem / descola um festival / uma figura cheia de grana chega no fim com o papo de “vou bancar o trabalho de vocês!”. A diferença é que o encontro acabou ali mesmo. Como o Mellotrons, a banda da história, não é muito de conversa fiada, continuou andando com os próprios pés durante dois longos anos, até lançar agora o primeiro disco, homônimo.

“Mas a banda não é mais isso que está no disco”, entrega já de cara o vocalista Haymone Neto. Capinha branca, com símbolos braile e pouca informação, o disco convida o ouvido curioso para dez faixas, todas em inglês. Sem querer gerar polêmica, este pode ser o disco que acentua toda a discussão entre uma disputa estética local x global. Não é o decreto da morte da alfaia no rock recifense, apenas uma declaração simples e direta de que aqui pode ser feito música que comunica numa sonoridade mundial. Numa audição mais preguiçosa, podia até ser chamado de indie rock.

“As bandas daqui sempre seguem um mesmo paradigma, por isso costumam ter sempre um tipo de rótulo. Às vezes, brinco dizendo que a gente é uma banda de rock entediada”, o vocalista arrisca uma definição. Essa necessidade de mudança do Mellotrons aparece pouco no disco, e vai ser mais notado para quem conferir o show. “Hoje não fazemos mais músicas em inglês, é provável que em breve estas do disco não apareçam mais no show”, completa.

A despreocupação se justifica. O Mellotrons já conseguiu formar um público no Recife, rompendo barreiras até de casas que dão pouca atenção ao rock local. O disco deles tem uma lógica meio doida, mas que é bem coerente. Não representa um ponto de partida para o futuro, mas sim para o passado. É um registro do que eles fizeram até agora na carreira. No palco, o esquema é mais “bola pra frente”, com outros trabalhos mais inéditos. O lançamento oficial no Recife ainda deve esperar até setembro, quando eles substituirão o guitarrista que trocou a banda pelo Havaí.

Escuta ai: Colors to Remind Me

Paraíba – ZEFIRINA BOMBA

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A primeira coisa que vão falar sobre a Zefirina é que ela é uma banda diferente porque não tem guitarras. Mas dê uma atenção no disco antes de virar os olhos em sinal de tédio. O nome “NoiscoreGrooveCocoEnvenenado” pode não ser o melhor convite, mas ele encarta 15 faixas de rock duro, gritado e divertido. Uma viola elétrica empacota algumas das letras mais bem sacadas da semana. “E se eu disser que não to nem ai para você? Vão dizer que eu to podendo!”. Agora imagine isso num berro rasgado, de quase desespero, cantado rápido com um trava-línguas.

O disco sai pela Trama, no mesmo esquema da paulista Cansei de Ser Sexy. “Não mudou quase nada para a banda, a gente continua no mesmo perrengue para conseguir show”, comenta o vocalista Ilson. A mudança para São Paulo, no entanto, foi providencial. Hoje, eles conseguem fazer cerca de sete shows por mês e já pagam o próprio aluguel. O disco é um pouco troféu deste momento. “A gente nunca pensou que isso pudesse dar certo, até quando vieram contratar a gente falamos que eles deviam estar loucos!”, ri.

Escuta ai: Alguma coisa por aí

ChicoCorrea
Já faz um certo tempo que ChicoCorrea é “o cara” de João Pessoa e, porque não, do Nordeste. O que começou com uma idéia de simples de “só eu e um computador”, desencadeou numa banda e um currículo de shows que já passou até pelo Tim Festival. Sem contar na infinidade de outras bandas que o próprio já participou (ele é um dos “cabras” de Totonho, que também circula bastante pelo País). O primeiro disco, homônimo, acabou perdendo um pouco de seu caráter de cartão de visitas, já que ele praticamente já visitou todos os ouvidos interessados. São 11 faixas, mais duas bônus. Um misto de electro-côco-lounge. Baladinhas na voz de Larissa Montenegro. Lembra, de um ponto de vista um tanto grosseiro, o trabalho de DJ Dolores. Mas a pegada é menos “world music” e as referências menos periféricas.

Salvador – CASCADURA
Pensar em rock na Bahia continua uma idéia incomum. Mesmo com o estado dando tantas provas que destroem totalmente qualquer estigma axé. Cascadura, que lança seu “Bogary” junto com a revista OutraCoisa, é uma dessas provas. Formatinho econômico, com embalagem de papelão, o material encarta 13 faixas. Voz grave, que consegue criar hits radiofônicos com um efeito chiclete que é bastante perigoso para a pilha de qualquer discman. Termina uma música e, na hora, já dá vontade de acionar o “repeat”.

Cantado em português, a banda dosa bem as referências num rock que é mais maduro. Vai lembrar Capital Inicial nos seus melhores dias, pela sonoridade de “Elnora” e “Mesmo Estando do Outro Lado”, mas esses deslizes não vão comprometer o todo do disco. A guitarra sem distorção é passaporte para conquistar palcos grandes em qualquer estado do país.

Natal – BUGS
Nos últimos dois anos, a cena potiguar têm acelerado o processo para aumentar a importância de sua cena no rock do Nordeste. Nessa caminhada, eles já tem uma banda que está mais que lapidada para ganhar o país. A Bugs lançou este mês um novo EP – eles já têm um disco completo – chamado “Exílio”, pelo selo local Mudernage. Material curtinho, com seis músicas. Suficiente para mostrar a competência desses quatro rapazes. Rock que bebe um pouco da fonte do grunge e do hard rock.

Tags: Bugs, Cascadura, ChicoCorrea, indie, Mada, Mellotrons, Paraíba, Recife, Trama, Zefirina Bomba

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