Pop up! » Arquivo » Abril pro Rock 2007 – Terceira noite

Poucas pessoas foram conferir o encerramento do festival Abril pro Rock, que aconteceu no último domingo no Centro de Convenções. Mesmo com a presença quase mística do jamaicano Lee “Scratch” Perry, uma das maiores lendas ainda vivas do reggae – gênero que o Recife é dito ter um dos maiores públicos no Nordeste – apenas cerca de 2 mil pessoas preenchiam o pavilhão. E apesar do pouco prestígio, a noite não deixou de apresentar shows muito bons.

Começando pelo terceiro e menor palco, com o coletivo Êxito d’Rua. Apresentação bem armada, com hip hop de muita qualidade, mostrada para quase ninguêm ainda às 18h. O grupo, que também faz trabalho sociais, acabou sendo assistido mais pela representatividade do público de sua própria comunidade. Ainda assim, não deixou de ser o melhor show daquele palco, que também recebeu a goiana Valentina.

Da terra dos festivais Goiânia Noise e Bananada, o show da Valentina foi bastante dividido. Talvez pela tensão da estréia numa cidade distante, começaram mais lentos, tocando um quase emocore que estranhava. Com pouco tempo para resolver isso – eram 20 minutos de show – eles acertaram o ritmo já perto do final. Mais rápido e com muito mais maldade conseguiram sair sem deixar má impressão. Deixou a sensação de que o show deles é preciso ver com mais calma, num outro contexto, para funcionar como realmente promete pelas faixas do bom disco.

A diversidade de ritmos deste domingo foi tanta que ficou dificil acompanhar todas as apresentações. Hip hop, rock, forró, eletrônica, pop, reggae e samba não conseguiam se misturar muito entre o público. O resultado saiu positivo para os pernambucanos que tocaram neste dia. No segundo palco, Canto dos Malditos na Terra do Nunca e Rebeca Matta acabaram sendo desnecessárias – a primeira, aliás, muito desnecessária – na programação. Ponto alto com a vocalista do Canto dos Malditos (que é irmã de Ronei, da banda Ronei Jorge e o Ladrão de Bicicletas, que tocou na sexta) que na segunda música diz “gente, desculpa aí mas é que eu to fudida. Mas vamos lá“.

Neste mesmo palco, Monomotores e a Orquestra Contempoânea de Olinda deram um suspiro muito bom para as cenas locais da cidade, passando recado que esses novos nomes prometem mudanças significativas na nossa música. Principalmente a Orquestra, que parece ter conseguindo dar um esforçado passo adiante da sonoridade que vem da cidade patrimônio. Fizeram o segundo melhor show da noite, atrás apenas do próprio Lee Perry.

E, claro, está foi a esperada noite do The Playboys. Pessoalmente, discordo muito da presença deles no Abril pro Rock. De ambas as partes. Podiam ter dado uma nova força a piada do Paulo André não me Ouve se negando tocar no festival – aí sim, a história ganharia um tom sério – enquanto o próprio produtor podia ter passado mais tempo sem ouvir a banda. Explico: seus integrantes são os primeiros a declarar a não-seriedade da intenção de viverem como músicos. Como teatro, vale ressaltar, são ótimos. Mas como aconteceu com o Massacration, nenhum boa piada dura longos 25 minutos. Me deixou a impressão de que, com o show deles, a história acabou não surtindo efeito.

Só para não ser todo do contra, a plaquinha que colocaram de “Palco 4″ e “Se vira nos 25″ foram as melhores tiradas. Junto com o cartaz do “Ele ouviu”. =)

No palco principal, a boa intenção de valorizar a música regional com os Mestres do Forró acabou expondo um público que ainda tem pouca maturidade para uma mistura tão rádical entre forró e rock. Pouca gente conferindo, cerca de 3 casais dançando. As mais desconhecidas da noite, The Film (França) e Los Alamos (Argentina) também sofreram um pouco do mesmo. Apresentações que ainda fazem muita falta aqui no Recife, pouco valorizadas na programação deslocada.

Ambas mereciam um show solo em alguma possível turnê pelo Nordeste. A banda francesa tem uma energia de dar inveja, considerando que estavam em frente a um público que quase não dançava seu rock instigante. Referências a The Clash estalam a todo momento que tocam, com exceção do ponto alto do show na música Can you touch me, cantada com um vocoder. Enquanto o show do Los Alamos foi uma montanha russa. Acelerava – e ficava ótimo nessas horas – e depois acalmava. De todos que tocaram nesta noite, aposto todas minhas fichas que esta foi a banda que saiu com mais fãs na bagagem.

Toda a dispersão da noite era porque o público presente aguardava mesmo a chegada de Lee Perry. Sua figura não se confunde com a de um pastor por acaso. O show foi uma pregação da religião rastafari do começo ao fim. Comprometimento que espantou uma boa parte do público, mais acostumado com o reggae fácil que predomina hoje. Cheio de “tiques” exquisitos, enquanto sua banda ainda tocava os últimos acordes, Lee Perry já havia descido do palco e saido do Centro de Convenções. “Fuga” abrupta, assim como o encerramento da noite.

Assim que achar o cabo usb de minha câmera prometo postar aqui a foto do setlist de Perry, junto com a divertida porta de seu camarim =)

Foto de Guilherme Moura, do RecifeRock!

Tags: Abril pro Rock, lee-perry, los-alamos, orquestra-contemporanea-de-olinda, the-film

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