Coquetel de público e atrações
Cobertura feita para o jornal A Tarde, de Salvador

O fãs pernambucanos de Beirut tiveram mais sorte que os soteropolitanos. Encerrou no último sábado (19) a sexta edição do festival No Ar Coquetel Molotov, que durante dois dias aconteceu no Centro de Convenções, na divisa entre Recife e Olinda (PE). Apesar do clima de maratona, uma programação selecionada trouxe 16 shows para um público médio de 2.500 pessoas por dia, que foram conferir desde nomes internacionais como a banda Beirut a grupos locais que nem gravaram o primeiro disco ainda. Formato que mistura atrações gratuitas com pagas e consegue fazer uma simbiose entre um público bem jovem e pessoas que já passaram dos 40.
É algo inédito no formato “festival independente”, geralmente focado no rock e para público de nicho. Boa parte das pessoas estava lá para assistir Beirut, na verdade uma pílula do festival Perc-Pan em Pernambuco. Ao contrário da experiência desastrosa no Teatro Castro Alves, onde não tocaram mais de cinco músicas, o público de Recife conseguiu assistir uma apresentação de mais de duas horas – o maior repertório na turnê nacional – sem interrupções. Em parte, graças a grande parede humana formada por seguranças na subida do palco.
Apesar de estar no centro das atenções, a música de Beirut não soa exatamente como algo inovador para o ouvido brasileiro. Tem muita referência que se identifica com forró e outros ritmos regionais que fazem parte de uma pesquisa feita por eles que, talvez nos Estados Unidos, soe como algo inédito. Sóbrio e sempre espirituoso com os amigos de banda, o vocalista Zach Condon agradecia o tempo inteiro, se aproximava do público e conseguiu até ganhar uma flor dos fãs. No repertório, além de Elephant Gun – da trilha de série global Capitu, responsável pelo sucesso da banda no país – e Nantes, tocou Aquarela do Brasil e Le Javanese de Serge Gainsbourg.
No outro foco das atenções estava o Clube da Esquina, um reencontro entre Lô Borges e Milton Nascimento. Trouxeram um público mais velho e totalmente novo ao festival. Muito mais respeitoso e menos afetado, garantiram uma experiência nova aos mais jovens entre tantos pedidos de silêncio. Sorte para artistas como Jr. Black, que fez a estréia do primeiro trabalho solo – um samba urbano, remixado e quase falado – para uma platéia atenciosa. Conquistou novos fãs assim como Jam da Silva, um dos três melhores shows da noite, que construía texturas sonoras que se completavam em projeções de vídeo.
Ainda entre a santíssima trindade da programação, está a aposta Radistae. Banda pernambucana formada por Yuri Queiroga (que toca com Silvério Pessoa e já concorrou ao Grammy Latino como produtor), Gabriel Melo (que toca com DJ Dolores e Orquestra Contemporânea de Olinda), Chico Tchê (ex-Bonsucesso Sambaclube) e Pernalonga (da banda Faces do Subúrbio). Eles misturam de Kraftwerk a Luiz Gonzaga em ritmo instigante de surf music. Não por acaso, o nome faz referência a um ponto de surfistas na Olinda da década de 70.
Mas a grande surpresa foi Loney, Dear, grupo escandinavo que fez parte da Invasão Sueca que compõe a programação. Pop simples e honesto, com refrões para dançar, foi quem fez a união entre o público interessado em atrações mais experimentais – como o grupo São Paulo Underground e o francês Sebastien Tellier – com os refrões de “Resposta”, música do Skank que foi cantada por Milton Nascimento. Seu encontro com Lô Borges, por sinal, passou perto do desnecessário, com poucas lembranças do Clube da Esquina. A apresentação foi centrada no trabalho solo de ambos, que parecia ser também o interesse do público mais velho.
O Coquetel Molotov ainda trouxe bons shows de bandas novas como a mineira Dead Lovers Twisted Heart e a local Sweet Fanny Adams. Também apresentou as bandas suecas Those Dancing Days e Britta Persson, que deu o clima de festa aos dois dias do evento. Junto com a francesa Zombie Zombie – uma bateria e um sintetizador – venceram a batalha contra o ar condicionado do auditório onde tocaram, deixando todo mundo suado. Mas foram bem pontuais na programação. Esse ano, o Coquetel Molotov se livrou do estigma de “micareta indie” que ganhou em edições passadas.
Foto de Caroline Bittencourt
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