Hamilton de Holanda – Contínua Amizade « Pop up!

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Parece ser uma benção enorme para a música brasileira que Hamilton de Holanda tenha uma coceira incontrolável na mão e, por isso, não pára nunca de tocar seu bandolim. Depois de mostrar a música que o distrai na estrada, no repertório do disco “Íntimo”, em que tocava Chico Buarque e Dorival Caymmi, ele lança agora “Contínua Amizade” (Deckdisc). O título revela sua relação com o pianista André‚ Mehmari, anunciando que ambos estão juntos, criando diálogos entre as obras de Egberto Gismonti e Pixinguinha.

E se é para falar em benção, que seja dado crédito também a mania de exagero natural a Mehmari, que sempre grava duetos com o fino da nova MPB. Passear entre as faixas remete a memória a outra parceria do pianista e como a voz de Na Ozetti cairia como luva entre essas novas faixas instrumentais. Sem ela, a impressão que fica é que esta é uma das melhores fases do momento instrumental da música brasileira. Hamilton e Mehmari aproveitam o crédito merecido com o ouvido do público para reconstruir um pouco da história musical do Brasil.

Essa intenção fica evidente em “Rosa”, música que abre o repertório do disco. É Pixiguinha em sua fase mais rica de referências. É a valsa, seresta e choro do começo do século 20 se reunindo nos primeiros acordes do que seria o samba. Ritmo que receberia mais tarde influências do jazz, navegando pelo país para criar o frevo, como nunca poderia prever Nelson Cavaquinho ao compor “Notícia”, segunda escolhida pela dupla. Aos poucos, a audição ganha noções de visão, quando o repertório se transforma em cartografia para a música popular brasileira.

Caminhos que levam o ouvinte direto a Cartola, com “Acontece” e Guinga, com “Di Menor”. E, depois, faz jus a atualizar o repertório com compositores atuais, caso de “Choro Negro”, de Paulinho da Viola. Entre tantos, que contam ainda com Egberto Gismonti e Andrea Morricone (essa com o tema do filme Cinema Paradiso), Hamilton de Holanda e André Mehmari inserem suas próprias músicas, encerrando assim um trabalho de continuidade. Não apenas da amizade, mas de avisar quem são os novos nomes desse repertório.

Produzido pela própria dupla e lançado em formato digipack, “Contínua Amizade” entra na lista do essencial para quem quer ter em casa um recorte bem selecionado da música popular brasileira. E pelo caráter quase educacional da escolha do repertório, funciona também como um mapa ao passado, mostrando os primeiros refinamentos que as primeiras composições populares receberam no começo do século passado. Quem escuta encontra direções, tanto para encontrar nossas raízes, como para vislumbrar o futuro da nossa musica.

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