Explicando a música II « Pop up!

Se todo século tem um mal, o do século 20 nasceu na Alemanha, quando estudiosos de comunicação começaram a definir os conceitos do que seria uma indústria cultural. Basicamente, a arte sendo produzida em larga escala, para ser vendida a atacado nas lojas. A crítica se fundamentava no fato que uma música de Beethoven, vendida em discos em larga escala, para experiências diferentes na casa de cada consumidor, perdia sua aura de arte. É quando a música ganha sua divisão entre o erudito, que vira sinônimo de restrito, e o popular, produzido em massa.

A raiz de toda a música popular hoje está no blues. “Nela você pode encontrar facilmente o jazz, rock, rap, hip hop, funk, gospel, quase todos os gêneros”, explicava durante sua última passagem pelo Recife o lendário Deacon Jones, blueseiro americano. Ele fez questão inclusive de desenhar uma árvore, onde o blues dava fruto a outros gêneros. É esse exagero todo mesmo. A música foi uma das primeiras a nascer do povo e ganhar o interesse dos centros culturais, depois de anos da tradição soberana européia.

Sua história começa ainda no século 19, com o canto falado dos primeiros escravos negros americanos, um pouco influenciados por nativos africanos que dividiam o mesmo sofrimento deles. É uma associação perigosa, já que hoje muitos cantores de blues tentam afastar os conceitos da música que tocam da melancolia e tristeza. Um dos primeiros registros do blues foi feito em 1912, com a música “Dallas Blues”, do violinista branco Hart Wand. De lá pra cá, não faltam nomes. BB King, Muddy Waters, T-Bone Walker, Willie Dixon, John Lee Hooker, Howlin’ Wolf e Elmore Jones, para citar, são alguns deles.

Mas o blues sempre teve uma aura erudita, porque, no mesmo período de sua formação, nascia também em Nova Orleans o jazz. Diferente do blues, que é uma música mais lenta e falada, o jazz é swingado, dançante e contestador em muitas formas. Foi a manifestação popular predominante pelos próximos 20 anos, quando deu espaço para o “cool jazz”, uma forma mais lenta e “inteligente” da música.

John Coltrane, Miles Davis, Chet Baker e Louis Armstrong são os nomes que vão fazer você pensar em jazz já na primeira audição. Além do clássico e do Cool, foram deles que também nasceram o “bebop”, uma formação de banda mais curta, com músicas mais rápidas. Junto com o blues, na década de 50, os dois ritmos deram origem às bases do rock’n’roll. “My baby rocks me with a steady roll”, foi a música de Leo Mintz onde o DJ Alan Freed batizou o ritmo.

Nesse ponto, a produção de musical na industria fonográfica ganha uma proporção muito grande. Bill Halley, Johnny Cash, Chuck Barry, Ray Charles, Buddy Holly, Dion and the Belmonts, Berry Gordy e Elvis Presley foram apenas alguns, dos tantos que em pouco menos de dez anos conseguiu transformar o rock em um número quase sem fim de ramificações, como o soul, surf, rockabilly e muitas das raízes onde nasceram os gêneros mais contemporâneos da música com guitarras.

Enquanto os Estados Unidos presenciava um nascimento de novos ritmos periféricos, como o punk e o hip hop, o Brasil começava a dar sua contribuição na música popular. Na década de 50, Dick Farney, Ismael Neto, Johnny Alfa e Maysa foram os precursores do estouro que viria com Vinícius de Moraes. Foi com “Chega de Saudade” que a bossa nova entrou no mapa da música internacional, uma construção extremamente complexa e, ainda assim, com um forte apelo popular. Ineditismo que espantou todo o mundo.

Ainda assim, era uma música da classe média alta. O samba, verdadeiro popular brasileiro, só viria a chamar atenção anos mais tarde. Seus principais formadores foram Noel Rosa e Lamartine Babo. Juntos, os dois ritmos viraram parte do cotidiano brasileiro nos “Festivais da MPB”, que a televisão passaria a apresentar. Foram lá que nasceram os ídolos de hoje. Elis Regina, Gilberto Gil, Caetano Veloso, João Gilberto.

A música popular brasileira foi marcada ainda por uma forte dualidade. O Rio de Janeiro era o cenário do refinamento, da bossa nova, música da praia e classe média alta. Na São Paulo cosmopolita, nascia a jovem guarda, mais influenciada pelo rock americano. As constantes disputas eram a grande atração nos programas de TV e grandes shows. Com o fim da ditadura, ambos os ritmos começaram a ganhar uma falsa aura de velho, quando o Brasil abria suas portas para a toda a cultura americana e européia, que predomina na música até hoje.  

Publicado originalmente em 30.11.05

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