Ja Rule no Recife « Pop up!

Presa entre uma festa da Trashdance e o Dia das Mães, a expectativa para o show de Ja Rule, sábado passado na Chevrolett Hall, era pequena. Sensação que foi reforçada quando a primeira atração da noite, o DJ pernambucano Elias Cabuzz, começou a tocar às 22h para um público de cerca de 80 pessoas, todos com faixa etária entre 15 e 18 anos. Mas era tudo parte da péssima herança cultural do Recife de sempre chegar mais tarde no show, já prevendo qualquer atraso.

Perto de terminar seu set (extenso, porque Ja Rule também decidiu comprar a idéia da cidade e demorar a subir no palco), Elias já enxergava poucos espaços entre os grupos de pessoas. A casa não ficou lotada, mas estava ao menos com o “miolo” cheio quando um segundo DJ precisou entrar para fazer transição entre as atrações – vale lembrar que, em termos de Chevrolett Hall, a casa estar cheia significa que ela pode chegar perto das 10 mil pessoas. Para ninguém ficar cansado, músicas paradonas e luzes apagadas até que os Sacramentos MC, de São Paulo, fizessem sua entrada.

Apesar do preço relativamente acessível (R$ 20 com carteira de estudante), o show de Ja Rule levou à Chevrolet Hall um público classe média alta. A dança “complexa” do hip hop teve todos seus movimentos encenados: aquela levantadinha de mão para cima e para baixo e um passinho de boneco de Olinda (corpo para direita, corpo para esquerda), numa cena de fazer medo a qualquer b-boy mais autêntico.

Quando começava a surgir à dúvida se aquele pessoal estava ali simplesmente pelo social ou se era realmente para ver o rapper americano, o próprio trouxe a confirmação. Durante todo o show do Sacramento, Ja Rule começou a circular entre o público junto com dois amigos, sendo completamente ignorado em plena pista de dança por pessoas que simplesmente não faziam idéia de como ele aparentava.

Ja Rule só subiu no palco às duas da manhã. Usou camisa branca, calça jeans, tênis daquele mais comum, bem distante do que se vê, por exemplo, num videoclipe de rap americano (a estética do carrão, das jóias e das mulheres rebolativas). Foi essa pose modesta que criou o momento mais engraçado do show, quando as pessoas, ainda sem saber quem era quem, ficaram olhando para um companheiro de palco que estava de touca achando que ele era o astro da noite.

Sem suas divas (Ja Rule gravou músicas com Jennifer Lopez, Ashanti, etc), Ja Rule foi acompanhado por um playback com a voz das mesmas. Fez um show com sucessos intercalados em músicas que, mesmo desconhecidas do público, eram boas para dançar. Conseguiu manter a platéia nova (em todos os sentidos) disposta durante a apresentação, mas dificilmente vai cativar algum interessado para comprar algum disco dele. Mas este já é outro problema cultural do Recife, que sinceramente não chega a pesar para o astro americano.

Publicado originalmente em 09.05.05

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