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Foto de Paula Muniz

Não precisa de muito esforço, numa manhã de pouca chuva no Mercado da Madalena – ponto de encontro dos forrozeiros em Pernambuco – para perceber o quanto a figura de Xico Bizerra é central. Ele, ao contrário da maioria, não está tocando nenhum instrumento ou mesmo cantando. Mas quem se arrisca num acorde, sempre olha de volta em busca de uma aprovação. Quem chega, faz questão de cumprimentar ele que hoje é o compositor mais gravado do forró no estado. São cerca de 160 interpretes. Apenas “Se Tu Quiser”, sua música mais emblemática, foram mais de 65 regravações.

Quem percebe, mas não conhece sua história, atribui a seus cabelos brancos uma longa trajetória no forró pernambucano. Mas, na verdade, de carreira efetiva são curtos oito anos que ele soma no currículo. “Eu comecei a compor aos 15 anos, mas eu achava que não teria uma atividade profissional com isso. Preferi ganhar a feira, porque com música não conseguiria”, recorda. “Quando eu me aposentei, no ano 2000, comecei a pensar no que fazer para me ocupar o tempo e lembrei das músicas que fazia”.

Xico Bizerra nasceu no Crato, interior do Ceará, mas veio para o Recife ainda jovem no começo da década de 70. “Tenho mais tempo de vida aqui, por isso sempre digo que sou cearense de paridez, mas pernambucano de coração”. A primeira lembrança musical ainda vem de lá. “A poesia vem do meu avô, com quem eu me correspondia por carta, sempre em forma de sonetos; enquanto minha mãe tocava Bandolim. Acho até que ela usava isso de desculpa para andar com meu pai”, sorri. “Eu compunha, mas não dava vazão. Guardava para mostrar a alguém no momento correto”.

Quando chegou essa hora, Xico mandou uma cópia da sua primeira gravação, Forroboxote I, para 10 músicos do cenário pé-de-serra do Recife. “Foi gravado por Zé Bicudo na Sanfona, que esse ano está sendo homenageado no São João do Recife. E dois meninos que eu conheci no Bompreço. Bico de Pádua e Serginho Luz”. Três, dos 10, retornaram o compositor com elogios e incentivo para continuar e colocar o disco nas lojas. Irah Caldeira, Maciel Melo e Petrúcio Amorim. Ele prefere não lembrar o nome dos sete, mas garante que hoje todos já gravaram pelo menos uma de suas canções.

Esse foi também o primeiro contato que garantiu ao compositor contato com outros músicos de pé-de-serra. “Fui me chegando, juntando, conhecendo as pessoas. Foram me respeitando, talvez pelos meus cabelos brancos, vendo minha experiência. Então foram ouvindo, respeitando, gravando. Hoje eu faço parte até como fundador da Sociedade dos Forrozeiros de Pé de Serra e Ai”, lembra. Essa é outra parte de sua história que, para entender melhor, o cenário precisa mudara para sua residência.

Num apartamento bem mais distante do centro, em Candeias, a assepsias das paredes brancas contrasta com o cenário que o forró constrói em seu público. O escritório de Xico é extremamente organizado, com um ar condicionado forte garantindo a tranqüilidade no trabalho no computador. Sinais de uma organização quase compulsiva, que justifica todo o funcionamento de uma sociedade dos forrozeiros.

“E Ai”

Segundo Xico Bizerra, tudo começou de forma bastante empírica. “A gente se reunia para conversar aqui e acolá, trocando idéias do que deveria ser, até que em 2005 ela foi constituída por direito”. A Sociedade dos Forrozeiros Pé de Serra e Ai (o termo no fim é expressão comum no meio) é uma Organização Não Governamental que tem como principal objetivo “gerenciar o forró” e repassar informação de gestão para os músicos e compositores.

“Até alguns anos ninguém sabia o que era um home list ou uma proposta de negociação, era uma coisa muito solta”, conta Xico. Já organizados nesse ponto, eles começam a ganhar noções maiores de uma cadeia produtiva do forró pé-de-serra através de cursos e parcerias. “Pretendemos também dar curso de zabumba e triangulo, já tivemos um de canto”, garante. Formação que nunca fez parte da história do compositor.

“Nunca cheguei a estudar música”, afirma Xico Bizerra. “Aliás, eu não quero aprender absolutamente mais nada. E não é por achar que já sei de tudo, mas é que meu tempo para isso passou”, completa. “As vezes até brinco quando me perguntam se uma música é em tom maior ou menor. Eu não sei! Faço de um jeito que a música sai e pronto”, brinca. Apesar da produção prolífica, ele também garante que não tem método. “Eu não sento no computador e digo ‘pronto, vou compor’ e faço algo”.

O discernimento justifica para ele, mesmo com um grave quase barítono na voz, nunca ter arriscado cantar. “Não canto por vários motivos e o primeiro é que eu não sei cantar. O segundo é porque tem tanta gente boa por ai, que é melhor que faça as músicas e elas cantem”, afirma com modéstia. Xico diz que já se arriscou montar uma banda, mas a experiência não funcionou. E, nesse compasso, ele já completa sete discos que carregam sua marca Forroboxote.

Discografia

Com o sucesso do primeiro trabalho, Xico Bizerra passou a lançar um disco por ano sempre com uma temática central. O segundo foi todo interpretado por Cleo Dantas e, no terceiro, fez uma homenagem as cantadoras do estado. “O disco se chamava ‘Mulheres Cantadeiras de uma Nação Chamada Nordeste’, com Irah Caldeira e Nadia Maia, entre outras cantando minhas músicas”. A versão masculina veio no Forroboxote 4, chamado “Cantadores da Nação do seu Luiz”, com participação de Dominguinhos, Flávio José e Quinteto Violado.

Seu disco mais marcante seria lançado no ano seguinte. Mesmo sem saber tocar sanfona, Xico Bizerra lança o “Alma Sanfonica”, seu primeiro disco sem nenhum forró. “Foi justamente para mostrar a beleza da sanfona como instrumento harmônico, então tinham sambas, choros, tudo instrumental”. Em seguida para homenagear os 60 anos do Baião, ele resgata os interpretes originais da terra do ritmo em “Baião do Reino Encatado do Novo Exu, as Veredas do Resto do Mundo e Adjacências”.

Em 2008, ele consegue implementar o forró pé de serra como instrumento didático nas escolhas públicas de Pernambuco com o Forroboxote 5. “Lancei o ‘Ser Tão Criança’, um disco com temática infantil, valorizando ritmos como xote, xaxado, baião, com temática mais lúdica, falando de céu, terra, sol e de outras coisas que não ‘chupa que é de uva’, para tentar combater esse crime, que é essa música que faz estimulo a droga, bebida e raparigagem”.

Estética do forró

Xico Bizerra está longe de ser um modelo purista, daqueles que quer guardar o ritmo que toca em uma redoma. “Precisamos urbanizar o forró. Tem que cantar o Sertão sim, mas também tem que cantar o urbano. Se continuarmos falando de Juazeiro, da asa branca, do jibão e da sanfona, o público mais jovem não vai querer saber disso”, reflete. “É por isso que eu procuro em meus trabalhos ter sempre algo moderno”. Entre os interpretes mais contemporâneos de Xico está também o cantor Geraldinho Lins, que representa melhor esse público.

“Até porque Gonzaga, em sua magnitude, esgotou. Falou de tudo, do passaro, da planta, do árvore, do rio, da terra, da seca. E falou tão bem que qualquer pessoa que falar disso hoje não conseguir fazer como ele fez”, completa. O orgulho se fere mais quando o forró eletrônico entra em questão. “Já fui sondado por uma banda, queriam conhecer meu repertório, mas disse que o meu estilo não combina com o que eles fazem. São concessões que não valem a pena fazer”, diz.

“Eu pessoalmente recrimino, e contesto a estética do forró que eles usam”, continua o compositor. “Acho até que o Ministério Público é omisso em algumas circunstancias porque uma música que fala ‘dinheiro na mão, calcinha no chão’, incita a prostituição. Um órgão público deveria impedir isso”.

Matéria publicada originalmente na Revista Continente de julho

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