Magia Mutante da música brasileira « Pop up!

Sergio Dias, guitarrista do Mutantes, dá uma respirada após o retorno da banda e compartilha algumas reflexões

“Mutantes é uma banda mágica“. A frase veio de Sérgio Dias, numa voz tranquila em um dia de feriado nacional, pelo telefone, enquanto deu entrevista do Rio de Janeiro, direto de seu estúdio pessoal. Personagem principal do maior evento da música brasileira nos últimos 20 anos, Sérgio é o guitarrista e irmão mais novo de Arnaldo Baptista, com quem fundou a banda Mutantes. E o tal principal evento, sim, é a volta da banda aos palcos. “Eu deixo isso para os filosofos ou quem mais quiser pensar, mas o Mutantes era uma coisa que tinha que acontecer para a música do Brasil se desenvolver“, afirmava, ainda no tom calmo, uma grande verdade.

“A gente sabia da importância da banda, mas internacionalmente a gente não tinha idéia, nunca pensamos que seria assim“, diz, agora já demonstrando surpresa. Na Europa e nos Estados Unidos, o Mutantes fez duas turnês de retorno, com todos os shows “sold out”, termo em inglês para todos os ingressos vendidos antes da data do show. “Fiquei impressionado porque eram só americanos e, basicamente, só garotada, todos cantando nossas músicas“, recorda. No Brasil, o show do Abril pro Rock, no Recife, será a terceira apresentação do Mutantes em território nacional desde essa volta. A cidade teve sorte.

O Mutantes começou em São Paulo, em 1966, com os irmãos Arnaldo Baptista (baixo, teclado, vocais) e Sérgio Dias (guitarra, baixo, vocais), junto com a cantora Rita Lee (vocais). Trouxeram o psicodelismo e experimentação para o Brasil e trouxeram a magia para o movimento tropicalista. Foi uma curva fundamental na linha reta que seguia a música brasileira. O estouro deles veio no fim da década de 70, quando lançaram a música Ando Meio Desligado e o disco A Divina Comédia dos Mutantes. Começam a trabalhar para a Rede Globo e, um ano mais tarde, quando mostram o Jardim Elétrico, a tranformação (mutação?) está completa.

“O Mutantes só voltaria se existisse mágica, e foi o que aconteceu“, explica Dias. “Quando vi o Dinho [baterista da banda] disposto a tocar, vi que era realmente sério“, completa. E essa volta é pra valer? “Eu não pretendo fazer nada que não seja pra valer, nunca fiz isso na minha vida inteira. Toda ação musical traz uma reação musical, então já estou fazendo novas músicas. Fiz umas com Tom Zé, outras com Zélia, só precisamos de um tempo agora pra mostrar a todos juntos“, adianta o guitarrista, que ainda toca com a mesma guitarra Regulus dourada e os mesmo conjunto de pedaleiras desde a principal fase da banda.

“Isso mostra como tudo é possível. Para bandas novas é muito importante, para o mercado mais ainda porque foi algo que aconteceu independente dele“, reflete o músico. “Foi algo que aconteceu pelo público e só, uma coisa louca, a estrela do muntantes já é independente dos próprios fundadores“. Apesar de todas as histórias que cercam esse retorno, sobre reuniões, envolvidos, Sérgio Dias fez questão de lembrar que “sugestões para que a gente voltasse, já tinhamos recebido de quatro bilhões de pessoas, isso não é algo que uma pessoa articula sozinha, não é assim que funciona“. E, de novo, retoma ao misticísmo, avisando que este é um retorno mágico.

Apesar da afirmação impactante, sobre a banda ter vindo para o desenvolvimento de nossa música, Sérgio Dias acredita que o Brasil precisa sempre de novos Mutantes. “O Brasil vive um ato inconstitucional 6 baseado no medo, todos vivem agora trancados em condomínios, mesmo com potêncial para mudar isso. Se quiser pensar em teoria da conspiração, o medo é uma maneira de deixar a população quieta“, reflete. “E tem várias outras coisas, a juventude brasileira está sendo estuprada há 30 anos, então você acaba nem percebendo mais o que é estupro ou carinho“, completa, com a deixa, “o Brasil precisa saber contestar“.

Sérgio Dias faz questão de enumerar ainda mais motes que a juventude brasileira precisa ficar atenta. “Aqui a corrupção é de nascença. A gente nem pensa duas vezes, já usa programa de computador pirata, baixa música ilegalmetne [nota: nos EUA e Europa, a venda de música digital já é comum], enquanto lá fora o que é certo e errado é muito bem definido, o Brasil é uma área cinza, só falta o bandido virar ator de novela. E isso é um negócio terrível” e conclui “com certeza precisamos de uma nova revolução, tem apenas que perceber isso e determinar de que maneira agir“. E a maneira do Mutantes, não precisa lembrar, foi com a música.

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