Móveis Convida X: Cobertura « Pop up!

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O Móveis Coloniais de Acaju nunca foi exatamente o modelo de banda que a gente pensa que vai dar certo. É como se existisse um manual das coisas certas a se fazer – pouca gente na banda para facilitar a viagem, nome curto e fácil de lembrar, aceite as propostas de gravadoras e selos – e eles tivessem decidido fazer tudo ao contrário. Talvez seja por isso que eles sejam tão alegres no palco, sempre correndo de um lado para o outro. Aquela prazerosa sensação de “rir por último” que todo mundo sempre precisa sentir um dia na vida, eles sentem sempre que estão tocando.  E isso nunca foi tão forte agora, quando eles lançam “C_mpl_te”, o segundo disco da carreira e que afirma eles como a principal banda do atual cenário independente nacional.

O reforço disso vem no Móveis Convida, festival que a banda produz em Brasília e que chega em sua décima edição (não é um evento anual). O mote podia até ser o disco, que ainda vai ser lançado oficialmente pelo selo Álbum Virtual da Trama, mas quando a noite encontrou seu climax com cerca de cinco mil pessoas, todas cantando e dançando, ficava claro que era também uma grande celebração ao próprio Móveis. Quando os portões se abriram perto das 22h, numa capital totalmente debaixo de chuva e sob o aviso de que “aqui, quando chove, ninguém sai de casa”, um pequeno amontoado de gente já fazia questão de garantir a beira do palco, mesmo que custasse encarar uma maratona de outros três shows.

Quem abriu a noite foi a banda Black Drawing Chalks, não por acaso, aposta desse ano entre os novos nomes que surgem no país. Esse foi primeiro show deles no Brasil após voltar do South by Southwest e Canadian Music Week, além de turnê quase sem fim nos Estados Unidos e no Canadá. Já no começo do show a sensação é de que a bagagem que eles trouxeram de lá não foi sucifiente para caber o intensivo de rock e experiência ao vivo que apresentaram de volta em casa. A banda conseguiu dar um avanço de quase 100% do que foi visto nos últimos festivais que participou. Está redondinha, com um show que mete porrada no ouvido de quem arrisca ficar perto. Sem falar que conseguiram construir uma imagem forte no palco, conquista rara na cena independente, sempre composta por bandas visualmente bem parecidas.

Esse retorno também dá sinais do som definitivo da banda, que passa a tomar forma a medida em que o segundo disco se prepara para ser lançado pela Monstro em maio. Menos obtuso e até um pouco dançante, o Black Drawing Chalks se aproveita cada vez mais dos agudos do vocalista Victor Rocha em contraste ao baixo cada vez mais pesado de Denis de Castro, ritimado pela bateria acelerada de Douglas de castro. E isso reforça um pouco do hard rock a brasileira – ou “rock duro” na sua melhor tradução – como tem acontecido com bandas como a Amp e até o próprio MQN, que estão cada vez mais distintas do modelo norte-americano.

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Nessa hora dava para ver como o Móveis educou bem seu público local. Ninguém estava ali em busca de rock pesado, mas entrou fácil no clima das bandas, dançando, pulando e sempre aplaudindo. Platéias calorosas parecem ser uma das marcas registadas do Centro Oeste brasileiro. Acho que a receptividade do público só não supera o que a gente costuma ver em Goiânia, que intercala shows do Mundo Livre com Sepultura, A Besta com Mallu Magalhães, e ainda parecer que é um mesmo único evento.

Se o público esperava pelo Móveis, nos bastidores ninguém falava outra coisa senão que naquela noite também teria um show da Galinha Preta. O nome estava na boca de todo mundo, mesmo de quem ainda nunca tinha ouvido a banda de brasília, que existe a tanto tempo quanto os anfitriões da festa. Era a banda do Frango, talvez o principal coordenador de palco e técnico de som de Brasília, que é contratado quando nomes como o Iron Maiden e o Heaven and Hell (aquela mistura do Black Sabbath + Dio) passam por lá. É uma daquelas clássicas figuras locais que consegue arrancar risada de todo mundo com as hitórias que conta quando viaja com outros artistas. E no meio tempo, ele toca numa das melhores bandas de hardcore que eu já tive oportunidade de ver na vida.

O Galinha Preta é rápido e sarcástico de uma forma muito inteligente. O segredo é a simplicidade. Ele consegue fazer piada do Padre Quevedo Aderli de Carli (lembra, né? O do balão) sem soar mórbido e reclamar do funcionarismo público (imagina cantar isso logo em Brasília) sem parecer que está dando lição de moral em ninguém. O bom humor não atrapalha em nada você entender muito bem o sentido real por trás de cada crítica. Essa preciosidade brasiliense quase nunca toca fora de casa, principalmente porque o Frango está sempre no palco de algum outro mega show trabalhando. Mas fica a dica para os festivais que querem inovar esse ano… levem o Galinha Preta!

Aliás, falando em bastidores e trabalho no palco, surpreendente ver os Móveis funcionando enquanto empresa. A banda é grande, o que faz deles também uma grande equipe que não pára um segundo de trabalhar. Cada integrante fica responsável por um pedaço do que está acontecendo ali. Uns vão buscar alvará para uso do espaço, outros estão no receptivo, enquanto uns fazem a contabilidade, a identidade visual, etc. São 10 integrantes, o que faz deles uma das poucas bandas do país com 10 roadies. Ninguém está ali para brincadeiras.

Depois dele foi a vez do Macaco Bong trazer sua parcela de destruição aos ouvidos. É impressionante o quanto a banda cresce quando se apresenta em boas condições de som – tudo bem, isso é comum em uma banda instrumental, mas no caso deles o efeito é ainda maior. Eles são o bom exemplo do que foi falado antes sobre o público. Com um rock ainda mais inacessível, pegaram um público ainda maior e mais ansioso pelos Móveis, mas ainda assim conseguiram prender a atenção de todo mundo até o final. Aliás, esse foi o primeiro show da banda que eu vejo e que eles resolveram falar entre algumas músicas. A presença do trio de Cuiabá dava a noite um ar de sucesso garantido, sem nenhum show ruim na programação.

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Mas impressionante mesmo é o tamanho do Móveis Coloniais de Acaju em Brasília. Esse era seu show ideal, afinal, estavam com todos os recursos que precisavam para se apresentar. O que incluia até um painel de led no fundo, fazendo projeção de imagens que brincavam com as cores do novo disco. A estrutura maior deles deu direito até uma contagem regressiva, acompanhado em um único coro por todo o público.

Todo o show era intercalado por pausas a cada três músicas. Começou com “Cão Guia“, “Lista” e “Descomplica“. Três inéditas já avisando que esse repertório seria quase todo com enfoque no novo disco. André, o vocalista e nosso próprio Wilson Simonal 2.0, diz que a idéia é tocar tudo na integra. No C_mpl_te a banda parece agora estar mais plural, o que era a principal falha do anterior “Idem“, onde o Ska as vezes soava repetitivo em várias faixas. O Móveis brinca mais com os extremos do próprio som, dando idéia que seu próprio universo de referências agora parece ser bem maior.

Com 19 músicas, o repertório ainda trazia as melhores do disco anterior. “Copacabana“, “Esquilo não samba“, “Perca Peso“, “Seria o Rolex“, “Cego” e “Aluga-se-vende” estão todas lá. O público segue tudo com quem foi seriamente doutrinado, já cantando as inéditas – que estão no Youtube – e fazendo um coro que quase sufoca a banda no novo single “O Tempo”. A devoção até assusta umas horas, mas encanta na maioria do tempo. Nessa noite, via-se o respeito que o Móveis Coloniais de Acaju conquistou na própria casa, sendo prestigiado por várias bandas locais e até grandes figuras como Fernando Rosa, do selo SenhorF. É coisa rara ver uma banda atingir a auto-estima de uma geração e, nessa noite, foi isso que eles fizeram.

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Depois disso, a banda pegou o ônibus e todos seguiram para Goiânia. Na noite seguinte, eles repetiram a sequência de shows e a catarse do público no Centro Cultural Martim Cererê, onde acontece o festival Bananada e já teve edições do Goiânia Noise (onde a banda deve ser uma das atrações desse ano). Mas lá, o segundo tempo era o momento maior de diversão de todos, que sabiam que chegavam já com a partida ganha de goleada. Logo mais eu falo do disco novo e também mando uma entrevista com a banda.

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