A gente vai muito mal, obrigado! « Pop up!

Da coluna Ressaca. Publicada no site Giro Cultural

Uma das partes menos glamourosas do cotidiano de quem escreve sobre música é ter que ouvir diariamente as rádios e sempre dar uma olhada no que toca nas novelas. De quem quer fazer um trabalho bem feito, claro. Se você não tiver nenhum interesse sobre o que as pessoas são forçadas a ouvir, pode ficar sentado dentro da redação ouvindo o novo Franz Ferdinand e acreditando que a vida é realmente só aquilo. Não chega a ser uma má opção, porque a qualidade dos dials está triste. Muito triste.

Outro dia, perto da hora do almoço, fui obrigado a antecipar um pouco a fome. Era um novo bloco, onde os ouvintes podiam ligar e dar seu recado amoroso. Novo para aquela rádio e naquele horário, claro. Foram 20 minutos de “Me chamo Maria, queria conhecer novos rapazes. Meu número é…”. Vou me permitir um pouco de polêmica aqui para dizer que se o povo soubesse do que quer, o Brasil não estaria conhecendo tantos neologismos engraçados como mensalinho. Democracia é bom com responsabilidade. Esse tipo de coisa já passa longe de anarquia barata. Desliguei o rádio e fui comer mais cedo.

Um colega de profissão costuma dizer insistentemente que, se não tocar numa rádio nacional, o artista não vai fazer sucesso nunca. Não chega a ter a dimensão apocalíptica que ele propõe, mas, de certa forma, ele está certo. E as rádios locais, infelizmente, não oferecem mais argumento para uma banda tocar na programação nacional. Tudo anda muito mal e a opção de quem quer fazer um trabalho sério é dar a volta pela lateral. Conseguir ser encontrado por uma gravadora e, assim, chegar ao ouvinte.

Você pode argumentar que existem novas iniciativas de pessoais legais. É verdade. Mas isso não quer dizer que é bom. Gente legal não faz um programa ter qualidade. Caso contrário João Kleber deve ser a pessoa mais desprezada a nascer no Brasil. E existem as alternativas. Rádios de bairro, de Internet. Mas esse afunilamento, no fim das contas, só consegue deixar a coisa mais distante. Aliás, fim das contas mesmo é considerar que essa grande quantidade de novos programas só é um reflexo do descaso das rádios.

Para não dizer que não falei de flores, vou listar aqui os programas que valem à pena ligar o rádio para ouvir. Por “valer a pena”, digo que você vai escutar aquele hit do novo disco do Franz Ferdinand, mas também vai ouvir coisa nova, de qualidade e não vai perder tempo ouvindo muita bobagem e piada sem graça. Dá para contar na mão e você só vai usar um dedo: o coquetel molotov. O caminho das pedras: sábado, das 11h às 12h, na Universitária (99.9 FM).

Mas queria lembrar mesmo era do “Sintonize Pernambuco”. Um programa que estreou nessa mesma rádio e, todos os dias, trazia um personagem diferente da música local fazendo sua programação. Era apresentado por Pupilo, José Telles, Paulo André, Renato L e Débora Nascimento. Time de primeira qualidade que hoje é simplesmente ignorado pelas estações. Logo, não é um programa que faz a gente ter saudade, mas faz sentir vergonha de não ter mais.

Saideras

* Falando no diabo
O novo disco do Franz Ferdinand não é melhor que o primeiro. Se você queria um motivo para deixar de baixar MP3’s e comprar um CD, ele se chama “LCD Soundsystem”. Faça sem pensar. É duplo, vale o preço de R$ 45 e você só vai parar de ouvir quando acabar a pilha do discman.

* Faça barulho A Bizz está de volta no formato mensal. Vale à pena. Tem algumas verdadeiras lendas escrevendo ali. O mais legal, no entanto, está no final. Um texto curto que ensina como transmitir seu show por Podcast. Formato que está fazendo o maior sucesso e não sai do ouvido de gente importante como Lúcio Ribeiro, colunista da Folha.

Sobre a revista, outro detalhe, quem abre é a Nação Zumbi.

* Não somos tão feios assim
O Recife está merecendo que um artista local grave seu DVD na cidade onde nasceu. Este mês chega às lojas o do Cordel, gravado em São Paulo. O discurso de todos é o mesmo, “queria muito, mas não tinha como”. O Mundo Livre promete quebrar esse descaso e gravar seu primeiro DVD por aqui.

* Uma reflexão…
…Para banda Rádio de Outono. Nada é bom com exagero. Muita gente vem comentar que não vê motivo para tantos shows em fins-de-semana seguidos. Tirando uma folga ocasional, chegou a passar de cinco. Mais de um mês seguido. Não faz bem para a imagem da banda que vai precisar pensar numa estratégia diferente para divulgar o primeiro CD que sai no Curitiba Rock Festival.

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