A nova casa dos independentes « Pop up!

Não é fácil encontrar lugares decentes para uma banda tocar no Recife. Isto nem é mais novidade. Os bares que tem estrutura certa de palco costumam abrir poucas portas para iniciantes e novas propostas, geralmente favorecendo repertórios de grupos de covers. No meio deste ambiente sufocante, sem palco e sem rádio, um espaço improvável virou endereço certo para os novos artistas. O auditório da Livraria Cultura, hoje oferece shows todos os sábado e domingo, numa demanda tão grande que já é preciso agendar uma apresentação com, pelo menos, dois meses de antecedência.

É uma equação que não funciona na cabeça de um produtor padrão do Recife. Os shows respeitam o horário da Livraria, começam às 17h, não tem espaço para dançar, circular ou tomar uma cerveja. Mas funciona muito bem. Com 107 lugares, o auditório recebe, em média, mais de 150 pessoas por show. Numa conversa rápida, se descobre que eles não estão atraídos apenas pela oferta gratuita (ou mediante contribuição de 1kg de alimento), mas sim pela qualidade e oportunidade de assistir bons shows. É a formação de um público que não vai apenas para ver e ser visto, mas sim pela música.

Quando viu o interesse de público e banda, a livraria decidiu vestir a camisa. “O som sofreu uma reforma de R$ 40 mil”, lembra o responsável pela área de eventos da Livraria Cultura, Gil Torres. Hoje eles contam com mesa, retorno, amplificadores, PA’s e toda estrutura para receber uma banda. “Ainda temos datashow e uma tela para quem quiser misturar a música com projeções”, reforça. É ele quem faz a programação do auditório. Seleção eclética, que dá espaço para samba, frevo, rock, pop, experimental e música clássica.

“Hoje eu já recebo muitos CDs demos e releases de grupos querendo se apresentar, a pilha é enorme”, comenta surpreso. Segundo Gil, a procura maior vêm de bandas de pop rock. A principal contrapartida das bandas vai muito além de atrair o grande público que circula normalmente na livraria nos fins de semana. Assim como nas palestras e autógrafos de livro, antes do show eles separam uma mesa com vários CDs da banda do dia para vender. E eles costumam esgotar bem rápido.

Uma das bandas que tocou lá e aprovou o palco do Livraria Cultura foi a Parafusa. “Entrou para a lista dos nossos melhores shows”, lembra o tecladista Juliano Ribeiro. “A gente sempre achou o espaço bastante interessante, vimos altos shows lá e quando lançamos o disco, acertamos tudo e marcamos a data”, comenta. “Acho até que quem tava passeando por lá não conseguia mais entrar, porque o auditório tava lotado”.

“Hoje a gente já tem até artista querendo alugar o espaço para fazer um show fechado, com ingresso”, comenta Gil Torres. Segundo ele, na política da empresa, “se o cliente da loja quiser ver o show, ele vai ver de graça”.  

Dentro do calendário da Livraria Cultura, uma vez por mês acontece o “Cultura Independente”. Idéia de dois funcionários da casa, José Acioly e Marco Antônio, que queriam aproveitar a estrutura do lugar para receber as bandas de rock da cidade. Começou com show de China, em março, e foi fundamental para os investimentos da loja em música. “O show foi bem sofrido, tivemos até que pedir microfones emprestados”, lembra Marco Antônio que, junto com Acioly, trabalha na seção de CDs.

Como ninguém tinha despertado para o potencial do auditório, eles precisaram procurar as bandas que já tinham contato. “Nossa preocupação era criar o hábito de fazer um show por mês”, comenta. Na época, eles precisavam trazer quase tudo que era preciso, da bateria as caixas de som. Marco já fez questão de chamar todas as “cobaias” para fazer um novo show, desta vez mais merecido, na Cultura.

O sucesso do “Cultura Independente” foi tão positivo que na segunda semana de janeiro eles decidiram fazer um festival. Bandas mais experientes tocaram para chamar atenção de outras mais novas. “Já está certo que vamos fazer um segundo festival em julho, estamos trabalhando para mudar a iluminação e termos mais novidades para o próximo”, promete Gil Torres.

Música e Café
Os shows na Livraria Cultura também estão fomentando um “networking” de bandas e artistas locais. Nas mesas do café ao lado do auditório, jornalistas, produtores e bandas experientes trocam idéias, formam novos contatos e marcam novos eventos. Como quem dá murro em ponta de faca, aos poucos, o pequeno espaço da livraria também vai garantindo o crescimento da cena independente do Estado.

Publicado originalmente em 24.01.06

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