Boom Bahia 2008: Segundo dia « Pop up!

Apesar do ritmo light, com menos bandas e terminando em horário cedo, o Boom Bahia também teve clima de maratona. Mal deu para descansar direito a tempo de ver o começo dos shows no Pelourinho. Tive que fazer uma escolha e optei por perder a conferência Slavoj Žižek, o “Elvis da teoria cultural”, que fez parte do Espaço Digitalia – nome dado ao circuito de debates do festival – sobre Psicanálise, Cinema, Gozo e Ideologia, assuntos tratados no livro “A Visão em Paralaxe” que ele veio lançar no Brasil. Programado originalmente para 100 pessoas, o evento paralelo contou com cerca de 450 no Icba.

Žižek tenta atualizar um pouco da crise marxista a partir do declínio do antigo argumento do materialismo e, como a assimilação desse conceito acabou favorecendo o surgimento de uma nova esquerda. Uma que não é mais tão fundamentalista quanto aquela que, por muito pouco, não pregou a pobreza. Alguém ai falou em PT? O legal é que é ele pega essas questões, de bases puramente filosóficas e aplica em produtos como a série Guerra nas Estrelas e a animação Procurando Nemo.

Enquanto ele dava sentido a isso, a Starla dava inicio aos trabalhos no palco. Foi a melhor surpresa para mim, porque pude ver uma banda que cresceu um monte do que tinha escutado apenas pelo MySpace. Fiquei até sem jeito de ter recebido o EP deles e nunca dado a devida atenção. A banda é bem na linha do que gosto de ouvir, afinada com indie rock e, de quebra, um integrante que é cara do Mini. Mas, gosto a parte, eles deixaram esta segunda (ok, na verdade terceira) noite do Boom Bahia com uma boa primeira impressão.

Talvez o ponto mais negativo fosse a constante semelhança que as músicas tem com o Muse. Quando o vocalista Ricardo Longo chega a um agudo – e todas as músicas têm isso – fica praticamente a mesma coisa. E um dos integrantes usando uma camisa do Muse não ajudou muito. Mas é uma referencia muito boa. Talvez se eles tivessem mais direcionamento em questões além da música – do tipo não ir fazer show com a roupa que tava assistindo TV em casa – já teria chegado bem mais longe.

Eu não curti tanto a Yun-Fat, uma das mais comentadas da noite. Grindcore sem muito que acrescentar. Os caras se garantem, afinal quem oscila entre tantos graves e agudos berrados e continua falando, logo em seguida, como se nada tivesse acontecido, no mínimo tem talento. Mas só isso não é o suficiente. Talvez o que me incomode mais é que bandas desse gênero sempre me soam como uma piada contada pela terceira vez. E bandas como o Are You God?, estabeleceram um certo nível que é difícil de atingir e impossível não comparar. Mas a versão baiana também não estava muito ai com isso, o que conta como ponto para eles.

Confesso que fui carregado de preconceito com o que poderia ser o show do Estrada Perdida. Paulo André (aquele, do Abril Pro Rock) chegou a falar que ele era o tipo de cara que faz falta em toda banda de rock. Não sei se é para tanto, mas concordo com a idéia em geral. Aliás, deixando claro, Estrada Perdida não é nome de banda, mas do cara, que tomou alguma coisa que todo mundo ficou atrás depois. Porque ele tava meio maluco, entrando no palco rindo e falando “já começou foi?”. Dali para o final, tirou quase toda a roupa, sempre dançando sem parar.

Acabou se tornando uma boa surpresa. O Estrada faz um rock bem simples, desses que nossos pais ouviam antes da gente nascer e, mesmo assim, nós continuamos gostando. É representante da velha, velha (velha, velha) guarda de Salvador. Não sei ao certo a história dele, mas pela cara, deve ter visto ainda novo um monte de show de Raul Seixas na cidade. Talvez soe clichê, vindo de um grupo com mais idade, mas eles deram aula no Boom Bahia de como fazer um show animado, descompromissado e divertido. Valeu só pela descontração.

A Declinium, que tocou logo em seguida, assim como a Starla, é uma banda que deveria sair mais vezes de Salvador. Tipo de caso que faria Stuart Hall ovular. Vindos do interior do estado – três periferias ai, cidade, estado e país, disputando espaço – com uma produção que, sem exagero, se equipara ou até supera boa parte das referencias internacionais. O indie rock deles é quase soturno de tão carregado. São crias da própria geração indie baiana e estampam um orgulho pela brincando de deus em camisas e constante citações sonoras.

Infelizmente, nessa hora eu já precisava começar a programar minha partida de Salvador. Por isso, perdi o show da Berlinda. Entretanto, você sempre pode recorrer aos comentários de Luciano e Foca em um caso desses. 🙂

Voltei já na segunda música do SubAquático, que é uma banda que anda bem falada em Salvador. Junto com a Yun Fat, foi a segunda banda que não gostei no festival inteiro. Me pareceu superestimada. No show as músicas são imensamente superiores ao disco, que já tinha ouvido na época que eles foram finalistas para tocar no Abril Pro Rock. Ainda assim, me pareceu mais uma banda de rock dessas que a gente encontra em qualquer esquina. E, só por isso, não casou tanto com um evento que só mostrou tanta banda diferente na programação.

Não sei até onde o Curumin era conhecido na Bahia, já que essa foi a primeira vez que ele tocou lá com esse formato de banda. Mas o jogo já estava ganho para ele antes mesmo de soltar o primeiro “boa noite”. Eu gosto a forma como a música dele destoa do que é ouvido normalmente nos festivais independentes, ao mesmo tempo em que acaba funcionando bem melhor. O circuito foi unido pelo rock, mas parece que vai precisar ceder cada vez mais para uma certa brasilidade no som.

Basta perceber como isso começou com os Móveis Coloniais de Acaju e seguiu exatamente na mesma linha agora com o Curumin. Por onde o paulista passou, seja na praia de Natal, no Carnaval do Recife, na terra central do rock (Goiânia, claro) e, agora, em Salvador, essa turma tem agradado muito mais, levado muito mais público e repercutido muito mais os próprios festivais que participam. Por hora é um surto, mas não vai demorar para isso trazer a tona aquele velho papo sobre até onde vale cantar em inglês e se entupir de guitarra, que recheou a cena independente no fim da década de 90.

Nem precisei ver o show do Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta para saber que ele também é exemplo dessa mudança. Mas, na verdade, não pude ver porque já estava na hora de correr para o aeroporto e voltar para o Recife. Mas lá, eu sei que catarse é o mínimo que o show dele causa no público.

Na sequência, os vídeos. Prometo. As fotos são de Mariana Neri.

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