Calango 2009: Cobertura parte dois « Pop up!

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CUIABÁ (MT) – O termometro nas ruas da cidade marca 40 graus. É tanto calor em Cuiabá que os turistas chegam a tirar foto junto ao medidor, apenas para provar para os amigos, com o sorriso coberto de suor. O clima seco e quente no centro geodésico da América do Sul parece combinar com a efevercência da cena musical local, que nos últimos anos lançou dois dos mais importantes nomes no país, as bandas Vanguart e Macaco Bong. Motivo suficiente para atrair a atenção de todos para o que acontecia aqui. E no caso da música, o centro vira o Festival Calango, que aconteceu no último fim de semana na capital do Mato Grosso.

A importância de estar no Calango vai além da projeção de duas bandas. Foi aqui que, discutindo política publica entre os ensaios de novos artistas, o Espaço Cubo conseguiu formatar um modelo de negócios – incluindo até sua própria moeda complementar – que tem contamina o país como um vírus. Hoje, são mais de 30 coletivos Fora do Eixo espalhados pelo Brasil. E tudo converge também para esses três dias de shows e debates em Cuiabá. Todos estão presentes aqui, trabalhando e contribuindo de alguma forma para construção de uma cena que passa a superar a noção de limite geográfico.

Apesar dos detalhes intimidarem, a primeira impressão em relação ao Calango mostra uma estrutura que é extremamente simples. Os dois palcos montados no Centro de Eventos do Pantanal lembra alguns dos festivais menores que acontecem no Nordeste, assim como a programação dos dois primeiros dias centrado em novas bandas de rock. Essa é uma posição quase política dos realizadores, que preferem ignorar o mainstream nacional, a favor de novos bandas. Mesmo nesse formato de “mostra”, apostar no novo sempre parece um tanto arriscado. A sensação de repetição invadia constantemente, tanto nas atrações locais quanto em algumas convidadas de fora.

Mas, talvez nesse mesmo contexto, o Calango seja ainda mais importante que naquele que diz respeito as boas atrações. O festival parece funcionar como um marco inicial para que uma cidade como Cuiabá, até então carente de estar no eixo da produção cultural, possa ter um ponto de partida para evoluir. É um momento importante de troca, onde o público local tem acesso ao extremo criativo do país, como a excelente Caldo de Piaba, do Acre; a instrumental cearense O Garfo e o rock em português dos Walverdes. No topo, a banda cuiabana Macaco Bong deixa claro que aquele palco serve como uma cartilha: aqui é onde estamos e, passando por essas referências, é aqui que queremos chegar.

A sensação ficava ainda mais forte no sábado. Com a apresentação de destaque maior no festival, do carioca Jonas Sá, que serve como um exemplo criativo que ora parece ser difícil da cena independente alcançar, e ora parece ser fundamental que isso aconteça para que ela possa seguir crescendo. E o Calango conseguiu mostrar como é importante dar atenção a um país gigante como o Brasil ao apresentar que esse sopro de criatividade está vindo, por exemplo, do Amapá, no extremo norte. É de lá que vem o Mini Box Lunar, nossa versão contemporânea para os Mutantes, com suas duas vocalistas que prendem a atenção pela voz e postura no palco.

No terceiro dia, o festival celebra a sonoridade brasileira e sofre a transformação mais positiva. Passa a acontecer na Praça das Bandeiras, de graça, em um abiente que é tomado por famílias e crianças, além do público natural. E é lá que Cuiabá mostra que ainda tem lugar nesse mapa do novo com a banda Vitrolas Polifônicas, maior revelação local dessa edição, mesmo tendo anunciado o fim prematuro logo após a apresentação. Surpreendente também foram Nevilton, do Paraná, com um rock enérgico, que não tem medo de soar pop e contagiar o público que pela primeira vez começava a dançar. Junto com a banda Cassim e Barbária, de Santa Catarina, fizeram valer o dia inteiro do festival, que ainda celebrou a velha guarda mato grossense, mesmo que só estéticamente, com shows de Ebinho Cardoso e Paulo Monarco.

Se, da perspectiva de quem só assiste, o Calango ainda está distante de um formato inovador; nos bastidores o festival chama a atenção pelo trabalho dos coletivos. Uma força tarefa que vinha de quase todo o país para fazer o evento acontecer, sempre com a circulação do Cubo Card. Com a moeda complementar criada por eles era possível não apenas comer, mas comprar roupa e até CD das bandas. Algo que ainda parece complexo de implementar em outras cidades, mas que mostra uma saída criativa no arranjo da cadeia produtiva da música.

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