Coquetel Molotov 2009. Segundo dia, parte dois « Pop up!

Cobertura feita para o portal Conexão Vivo, publicada nos dias do festival

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Entrar no Teatro Guararapes, no Centro de Convenções, nessa segunda noite do No Ar Coquetel Molotov, era perceber uma diferença gritante do público que assistia o show do Beirut no dia anterior. O músico Jr Black – outro que, antes mesmo de sair do estúdio, fazia sua primeira apresentação ao vivo no evento – era assistido por pessoas bem mais velhas. Era quase como se os filhos tivessem ido num dia e os pais no outro. Reflexo da presença de Milton Nascimento e Lô Borges, que fechariam a programação horas mais tarde.

Isso trazia uma mudança profunda no perfil de todo o evento. Os gritinhos histéricos e pessoas que se recusavam a sentar, dançando cada uma das músicas, deu lugar a um público que pedia constantemente silêncio.Acompanhando tudo sempre sentado, aplaudindo sem exageros entre as músicas. Uma experiência mais tensa para o próprio Jr Black, que tinha certeza que estava sendo observado e julgado em cada detalhe de seu primeiro show.

Acompanhado por um time de primeira divisão da música local, ele conseguiu com sucesso fugir do estigma de samba que acompanhava sua carreira até então. Se misturou a programações de samplers e remixou a própria voz ao vivo, só com o microfone. As canções mais tranquilas deram o tom de todo o restante do evento, que teria menos afeto e algazarra que a primeira noite. Os seguranças, nos extremos do palco, já tinham até o semblante bem mais tranquilo.

Esse clima de tranquilidade e um público atento são elementos importantes para a apresentação do São Paulo Underground, que subiram no palco logo em seguida. Maurício Takara, baterista do grupo, já tocou em quase todas as edições do Coquetel Molotov – com seu projeto solo, com o grupo Hurtmold, com Marcelo Camelo, entre outras formações – e por isso chegava com a tranquilidade de quem é de casa.

Assim como o Hurtmold, o coletivo SP Underground parece construir a melodia ali na hora, de tão concentrado que cada integrante está em seu instrumento. Como se contassem uma trama complexa, quem perdesse atenção de algum detalhe, corria o risco de perder o toda a história. Tinham a formação mais diferente de todo o festival e conquistaram o público mais velho pela curiosidade.

Com tantos conceitos esquisitos reservados para a noite, os suecos do Loney, Dear trouxeram o pop mais tradicional. Fizeram um dos três melhores shows de todo o festival, bem animado e sempre conversando com o público entre as músicas. “Quem aqui souber inglês, por favor traduza o que estou falando para quem não entende”, pedia o vocalista Emil Svanangen , em tom de quem está passando uma grande responsabilidade. O show deles corre o caminho contrário da maioria dos repertórios, começando animado mas terminando com canções lentas apenas com voz e violão.

Com o teatro já lotado, eles acalmaram os ânimos para a principal apresentação da noite. Lô Borges subiu cedo, antes das 23h30, cantando músicas próprias. Abriu o repertório com “Feira Moderna”, composta originalmente com Beto Guedes, outro que fez parte do Clube da Esquina. Dai até o final da noite, apenas outras três músicas do Clube apareceram no show. Foram “Clube da Esquina n.2”, “Tudo que você podia ser” e “Trem Azul”.

A noite ainda teve direito a homenagens ao Skank e Leila Diniz. Minas Gerais – não por acaso, onde surgiu a Conexão Vivo que esse ano patrocinou o festival – esteve presente também no lançamento de “Coração Americano”, organizado por Andréa Estanislau e, entre os colaboradores, o jornalista Rodrigo James, que esteve no evento divulgando a publicação. O show começou apenas com Lô Borges e encerrou com Milton, após o encontro entre os dois.

Muito mais do que as atrações no palco, o Coquetel Molotov teve uma edição histórica por conseguir vencer o estigma de “público alternativo” e fazer um festival que já era plural na música apresentada ser assim também entre seus frequentadores. Quem foi pela primeira vez, viu que boa música se encontra mesmo quando tocada apenas com um xilofone ou sem instrumento nenhum. E quem antes advogava pelo esquisito, se rendeu ao refrão do pop, transforamndo o No Ar nessa simbiose de boas experiências sonoras.

Foto de Caroline Bittencourt

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