Desabafos do Doutorado I « Pop up!

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Anton Ego. O crítico gastronômico da animação Ratatouille

“De muitas maneiras, o trabalho de um crítico é fácil. Nós arriscamos muito pouco e ainda assim aproveitamos uma posições superior sobre aqueles que nos oferecem seu trabalho para nosso julgamento. Nós prosperamos na crítica negativa, que é divertida de escrever e ler. Mas a verdade amarga que nós críticos precisamos enfrentar é que, no grande esquema das coisas, a porcaria mais mediana produzida é mais significativa que tudo que se propõe o trabalho da crítica. Mas existem momentos em que a crítica realmente se arrisca, e isso é na descoberta e defesa pelo novo…”.

– Anton Ego, personagem fictício na aminação Ratatouille

Quando eu fui contratado pela primeira vez em um jornal já foi para fazer crítica de música. Meio assustado com o que fazer – lembro que o primeiro CD que me deram foi logo um de Chico Buarque – fui bombardeado de informações, dicas e sugestões de como conduzir meu trabalho. Meus “concorrentes” eram não apenas antigos e experientes jornalistas, mas pessoas que tinham escrito parte da história da música de Pernambuco. Acabei indo fazer uma especialização em jornalismo cultural apenas para me dar mais segurança e pensar que eu tinha algo a meu favor. A especialização virou um mestrado que, agora, virou um doutorado. E minha tese é sobre a função da crítica de música.

Talvez o melhor conselho que recebi foi o de ser honesto, quando escrevesse, com quem eu realmente sou. Me dei conta que, assim como eu começava na carreira, tinha muita coisa começando na música na cidade também. E meu esforço maior foi para escrever sobre as novas bandas que, até então, sequer apareciam em jornais. Comprei uma briga. Falei mal de quem era consagrado e ressaltei quem era totalmente desconhecido. E mesmo já tendo recebido até uma ameaça nominal por email, nunca acreditei tanto assim no poder e força da crítica. Ainda mais sobre uma nova cena independente.

É engraçado cortar o tempo e me ver hoje na sexta edição do festival DoSol – que também começou junto comigo – onde bandas que ninguém dava a mínima na época passearam com ídolos na cidade. Entre elas o Black Drawing Chalks, que deve ser hoje uma das cinco melhores bandas de rock do Brasil e com potencial até de entrar num ranking internacional (bem maior, claro). Tocaram do Acre ao Rio Grande do Sul, em importantes festivais no Estados Unidos, Canadá, no SWU e o escambau. Tem até uma coisa que quase nenhuma banda de rock tem, que são hits. Todo mundo canta, dança e as meninas se enloquecem com eles.

Conversando com Douglas, baterista da banda, no backstage / camarim do festival no final da primeira noite, ele comentou de um texto que eu escrevi quando a banda lançou o primeiro disco. Na época a Monstro lançava três discos. O deles, do Valentina e do Violins. Escrevi sobre os três num só texto e, no final, disse que o Black Drawing Chalks não fazia um “bom começo de carreira” porque o disco “atirava para todos os lados”, coisa comum de se ver em primeiros discos. Ele disse que, por causa do que eu escrevi, o selo decidiu apostar um pouco menos no momento da banda, para que ela circulasse mais um pouco, enquanto as outras ganhariam mais atenção.

É irônico pensar duas coisas. Primeiro, que as duas bandas que falei bem acabaram, e que eles, que eu disse que ainda estavam tímidos, chegaram mais longe que qualquer pessoa poderia apostar que uma banda de Goiânia chegaria. Em segundo lugar, pesou na minha consciência a minha proposta de tese de doutorado. De que a crítica de música que é publicada em jornais não consegue mais exercer influência definitiva na cadeia produtiva da música. E que o público tem um poder de aposta muito maior que o jornalista. O treco todo é mais complicado que isso e, com o tempo vou falar mais sobre isso aqui.

Mas fiquei pensando como não existe uma boa força crítica pensando a cena independente brasileira. Temos centenas de blogs e novos sites. Mas numa vista rápida, é clara a presença maior de nomes internacionais nos textos, assim como o interesse por eventos maiores. E como isso faz com que esforços isolados, como o meu e de um número de pessoas que a gente pode contar nos dedos, acaba tendo uma influência enorme no trabalho dessas pessoas. Será que existe essa consciência da parte de quem escreve? Até onde essa relação entre nova mídia e nova cena não é de cumplicidade ou mera “mimica” do que um jornal maior faz sobre um disco de medalhão da MPB?

A indústria da música não muda. As bandas continuam atrás de selos e gravadoras para lançar discos e álbuns. A indústria do jornalismo parece também não mudar. Estamos ambos fazendo a mesma coisa de 40 anos atrás, só que numa plataforma diferente. Será que é importante – ou mesmo se precisa – mudar? O que vai definir essa mudança?

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