DJ com carteira assinada « Pop up!

O sindicato de DJs e profissionais de cabine de som de São Paulo (Sindecs) entregou ontem à Assembléia Legislativa do estado um ofício com o pedido de um projeto de lei para regulamentar e criar a categoria no País. Se aprovado, isso significa que, para discotecar na noite, será exigido um curso técnico e também o cumprimento de uma carga horária. A contrapartida são as vantagens trabalhistas, que as casas noturnas seriam obrigadas a oferecer aos DJs.

O diretor executivo do Sindecs Darcio Correia explicou que o processo ainda é lento e a longo prazo. “O texto está sendo montado juridicamente para ser analisado. Estamos trabalhando como vai ser feita a metodologia de ensino e carga horária, para que passe a ser diplomado”. Ele lembra que a regulamentação é para todo o Brasil e que cada estado terá que fazer sua proposta junto ao MEC. “Estamos criando os dispositivos, leis, para que cada região abra um curso com seu perfil”.

No Recife, onde não existe um sindicato, tampouco muita união entre os DJs, a proposta sequer chegou ao conhecimento de muitos que já têm nome conhecido dentro e fora da cidade. Avisados pela reportagem da Folha de Pernambuco, a recepção não foi positiva. Apesar de estar separado em grupos de discurso diferente, todos concordam que a iniciativa não é positiva. Primeiro por não existirem agências de DJs aqui, segundo porque, no fim, a técnica acaba importando menos na pista.

Nome sempre presente nas principais festas da cidade, a Lala K é receosa quanto a um curso certificar o DJ. “Eu acho que o que importa é montar a pista, fazer bombar. Do que adianta ter técnicas, milhões de discos e não conseguir segurar duas pessoas dançando?”, comenta. “Talvez em São Paulo vale a pena, já que eles são bem mais organizados, mas aqui ainda tem muita picuinha, o pessoal tá interessado mesmo é em ganhar dinheiro”, completa.

Esse tipo de reação é o mais esperado pelo Sindecs. Para Darcio, “tudo que mudança é traumático” e, por isso, o sindicato pretende trabalhar devagar, passo a passo. “Mas com passos firmes”, reforça. Apesar do perfil sindical em excesso, o discurso do presidente do Sindecs Antonio Carlos é convicente. A regulamentação procura trazer respeito, dar respaldo e parâmetros para os profissionais negociarem suas apresentações. A maior dificuldade deles, no entanto, será trabalhar de forma unificada.

“Existem dois focos distintos de DJ”, categoriza o organizador do Recife Beats e também DJ Bruno V. “O discotecário, de onde deve partir essa necessidade de proteção, e o artista, além do DJ Arte, que sobe no palco para se apresentar, sem vínculo empregatício com a casa”.

VINCULADA – Empresários concordam com iniciativa

Os chamados “residentes”, DJs com vínculo com alguma empresa, apesar de serem menos populares, são bem comuns no Recife. Independente da atração na noite, o bar Mad Pub sempre conta com a presença do DJ Faixa. “Ele é um funcionário da casa, com carteira assinada e todos os direitos de um empregado”, explica um dos sócios da casa, João Didier. Para ele, “toda regulamentação é válida, porque esclarece a negociação. Quando não tem regra, a casa pode fazer uma proposta indecorosa ou mesmo o DJ chegar com outra maluca”.

Além de Faixa, o Mad Pub recebe DJs de nome conhecido durante a semana, como Elias Cabuzz. “Mas ai é uma negociação diferente. As vezes ofereço porcentagem ou um preço fixo”, explica. Apesar de toda organização com o funcionário, Didier confessa que não sabe com que função a carteira dele está assinada. “Acho que é como operador de som”. Mas ele é reforça que a profissão regulamentada é fundamental exatamente para evitar esse tipo de situação.

Apesar do bom exemplo, existem casas no Recife ondo o residente trabalha por favor ou mesmo valores vergonhosos. Procurado pela reportagem, um DJ que pediu para não ser identificado, para não prejudicar sua relação com a boate, confirmou que recebe apenas R$ 15 por noite. “Não tenho muita opção para começar fazer meu nome circular na noite. Quando estiver conhecido, pretendo sair logo de lá”, comenta com desanimo.

A discussão mostra que regulamentar a profissão de DJ é, a principio, uma iniciativa muito mais complexa que a Sindecs prevê. Principalmente agora que a música eletrônica começa a ganhar destaque maior que a pop nas rádios e o número de interessados no gênero crescer em ritmo acelerado. Mas é uma discussão importante para mostrar como o DJ ainda é um artista vulnerável no país.

Publicada originalmente em 27.08.05

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