Eles enxergam a música « Pop up!

Faz parte da fórmula fácil das novelas da Rede Globo ter, além de uma polêmica, uma causa social para panfletar. Potencial as vezes pouco aproveitado pelo medo de ousar e soar exagerado. Jatobá e Maria Flor, protagonistas da vez vividos por Marcos Frota e Bruna Marquezine na novela “América”, são exemplo disso. Quase todos os dias mostram portadores de deficiências visuais que são cantores e pianistas, mas a capacidade destes de se expressar na música é muito mais complexa.

Não precisa procurar muito. No bairro do Bongi, onde nasceu parte do movimento hip hop do Recife, nasceu também, há 23 anos, Edson. A história de como ele perdeu a visão desce para terceiro plano se comparada hoje com sua trajetória artística. Conhecido como DJ Loto, ele anima festas num cenário que impressiona. Ele não apenas escolhe e bota música, como também faz scratchs, vinhetas e remixes. Tudo sem enxergar. “Sempre fui curioso, ia na casa de um amigo que era DJ e ele sempre deixava usar o equipamento dele”, lembra.

Loto já se apresentou no Rio de Janeiro, numa das maiores premiações de Rap no Brasil. “Não quis participar porque corria o risco de ganhar só por não enxergar”, diz com bom humor. Ele explica que, para tocar, tem os discos todos com identificação em braile, mas o resto é puro instinto. “Na picape não tem nada marcado. Eu mesmo monto o equipamento, já sei onde está tudo que preciso usar”, comenta.

O espírito empreendedor de Loto é grande. Ele tem projetos para começar a produzir suas próprias festas e outros DJs. “Já lancei um curso de grafitagem em CD, onde eu ensino falando, também chamei um pessoal para produzir uma revista sobre grafitagem, estamos só procurando patrocínio”, adianta. Bons exemplos ele tem de sobra. No Instituto Pessoa de Queiroz, onde estuda, também estão deficientes visuais que nas horas vagas dão aulas de violão e até mesmo um maestro.

Outra história de sucesso vem do Interior. O grupo de forró Luar do Sertão foi criado em 2000 com Sávio na zabumba, Luciano no vocal, Marconi no baixo e voz, Del no Acordeom, Juba no Triângulo e Assanhado no pandeiro. Eles ainda não gravaram o primeiro disco, mas somam no currículo apresentações em algumas das principais praças da cidade, incluindo a Casa da Rabeca, do Mestre Salustiano. Também conquistaram prêmios em concursos de pé-de-serra.

É importante lembrar que as conquistas dessas duas histórias vêm do talento próprio. Diferente da novela, eles não são panfletários, não forçam ao seu público um discurso de vitória sobre a deficiência visual. São artistas inseridos nas mesmas dificuldades que qualquer artista enfrenta. Aceitos pelo resultado do trabalho que fazem e não pela dificuldade de executar eles. Histórias que ganham força nacionalmente nos exemplos das Ceguinhas de Campina Grande, um trio de embolada que acaba virar documentário, e também no reggae da Tribo de Jah.

Mas eles não recusam a ajuda que a novela “América” está dando. “A contribuição é enorme porque está abrindo uma discussão sobre as ausências de políticas publicas”, comenta Domingos Sávio, da Luar do Sertão. “A novela veio para provocar uma inquietação sobre o assunto, mas não muda muito para quem trabalha com música”, completa.

Publicado originalmente em 03.08.05

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