Entrevista: Juliano Polimeno « Pop up!

Juliano Polimeno é uma das principais cabeças pensantes hoje na música brasileira. Não apenas no trabalho que faz na Phonobase, mas também por transitar entre vários ambientes de produção e circulação, sempre conversando e reunindo outros interessados em pensar uma nova forma de consumir no música que tem a cara do Brasil. Parte do resultado do seu trabalho pode ser visto na banda que produz, o Cérebro Eletrônico, mas também em vídeos no YouTube, blogs e outros espaços que ocupa com idéias como o “Think Tank”, onde junto com o jornalista Ronaldo Evangelista e Pena Schmidt, do Auditório Ibirapuera, reúne músicos, jornalistas e produtores para conversas livres sobre o assunto. Juliano explicou um pouco sobre esse trabalho dele e o mercado (ou a falta de um) de música no Brasil. Publicado originalmente no Nagulha:

Para começar, queria que explicasse antes para os leitores um pouco sobre quem é você. Quais seus trabalhos hoje?
Bem, eu sou Juliano Polimeno, sócio-diretor da Phonobase Music Services, uma empresa que desde o início funciona como uma prestadora de serviços para artistas/bandas, selos e outras empresas interessadas em trabalhar com música. O que isso significa? Basicamente, a diferença principal é que são os artistas/selos/empresas que nos contratam e não o contrário. Em alguns casos, como o do Cérebro Eletrônico, a Phonobase também atua como selo, dentro de uma relação de parceria com a banda.

Qual a maior dificuldade de se trabalhar com bandas hoje, para quem tem um selo?
A dificuldade é lidar com o sucesso e o fracasso.

De um lado, artistas nos procuram achando que somos a solução para todos os seus problemas e que os faremos estourar e ganhar rios de dinheiro. E caso isso não aconteça, a culpa é nossa. Acho que alguns artistas ainda não perceberam como o mercado mudou e ainda pensam no sucesso nos termos definidos pela fase aurea da grande indústria, ou seja, muito dinheiro, mulheres e fama em um curto espaço de tempo.

Por outro lado (e isso vai soar propositalmente paradoxal), vejo também uma certa falta de ambição que faz com que alguns artistas (e também selos) fiquem presos a um nicho de público que foi reduzido, por exemplo, ao MySpace, ao circuito de Festivais independentes, etc. Li uma entrevista da Fernanda Takai em uma edição da Rolling Stone em que ela dizia que o mercado independente não está preparado para fazer sucesso comercial. E concordo com ela. Caso um artista comece a fazer sucesso – do ponto de vista da infra-estrutura de produção, distribuição, etc, disponível hoje – ele terá que, de uma forma ou de outra, se associar a uma gravadora/produtora maior para que possa aumentar a abrangência de seu trabalho.

Portanto, a dificuldade é achar a medida certa entre a velha e a nova idéia de sucesso e, consequentemente, também de fracasso.

Pelos seus textos, você é claramente contra a música de graça. Por que?
Acho que você está enganado. Não sou “claramente contra a música de graça”, mas também não sou um defensor ferrenho e incondicional da gratuidade.

Vou te dar alguns exemplos só pra ilustrar: no “Pareço Moderno” distribuimos de graça um EP para mais de 50 blogs o que resultou em cerca de 6000 downloads, além da repercussão que a própria ação teve nos meios de comunicação. Em outras duas ações, também eram oferecidas de graça as faixas extras “Marcha de núpcias do Carnaval” e “Desquite”. A primeira vinculada a uma pesquisa que fizemos com o público e a segunda a uma ação para aumentar/atualizar o mailing da banda. No caso do album ‘Terrorist” do Jumbo Elektro também foi distribuido de graça uma versão em MP3 128kbps ao mesmo tempo em que lançamos a plataforma Fan2Fan.

Portanto, esses casos mostram que, para nós, a música nunca é de graça, mas sempre uma troca. Trocamos música por informações sobre os ouvintes/fãs, por dados, por divulgação, etc. E isso faz parte de uma estratégia. Não é simplesmente “ah, vou botar minha música de graça no Rapidshare pra divulgar e ver o que acontece”. Só isso é burrice. Bandas que disponibilizam links diretos para download gratuito estão cometendo um grande erro. O mínimo que elas devem fazer é pedir o endereço de email em troca e, assim, estabelecer um relacionamento com o ouvinte, informar sobre datas de shows, outros lançamentos, oferecer CDs, camisetas, adesivos, etc.

Portanto, entendemos que a música não tem seu valor comercial anulado, como muitos pregam por aí. Ela funciona como moeda de troca e essa troca pode ser por dinheiro ou informações.

Música de graça? Não. Música de troca.

Você também é um defensor fervoroso das editoras. Qual a função delas e porque elas ainda são importantes?
Não exatamente das editoras, mas das obras. O bem mais importante de um artista-compositor é sua obra e não o fonograma. E é preciso cuidar muito bem dela. Uma das maneiras de fazer isso é através de uma editora. Obviamente, o próprio artista pode fazê-lo, mas nem sempre ele quer ou sabe como fazer. O papel da editora é, entre outros, divulgar o repertório do artista-compositor, buscar possibilidades de licenciamento e sincronização, cuidar da arrecadação e distribuição de direitos autorais, etc. E isso dá um baita trabalho. Não é nada simples, mas pode ser feito diretamente pelo artista se ele assim quiser e souber como.

Nas entrevistas que você costuma dar, principalmente sobre as bandas que produz, você nunca entra em detalhes sobre números. Apenas diz que “vendeu bem” ou “teve algumas vendas”. O que é vender bem, em números, hoje, para um artista brasileiro?
“Vender bem” é atingir as metas que foram definidas no planejamento. Se você planeja vender 200 CDs, fazer 5 shows por mês, vender mais 30 camisetas e consegue isso, atingiu seus objetivos. E tem outra: os resultados nunca são meramente quantitativos. A parte difícil é medir, por exemplo, o tipo de relacionamento com o público, saber como ele escuta música, por que, etc. Pra isso fazemos pesquisas online, nos shows, acompanhamos a repercussão de tudo, etc.

Todos sabem que a venda de CDs caiu muito. Não vou chover no molhado. E isso atingiu também (e talvez com consequências piores) os pequenos selos. Aqui na Phonobase trabalhamos sempre com o tripé produtos/shows/direitos autorais. Desses vértices vem o dinheiro para, por exemplo, financiar um próximo trabalho. “Vender bem” é ser auto-sustentável e isso ainda é uma batalha no Brasil.

Você acompanhou as recentes discussões sobre cachê e festivais independentes que aconteceu na internet? Qual sua opinião, do ponto de vista de quem agência bandas nesses eventos e também tem um selo?
Acompanhei o debate. Minha opinião é que o mercado sempre definiu e continuará definindo os cachês. Se um artista atrai 50 pessoas ele deve receber por essas 50, se atrai 10.000 recebe por elas. Agora, se ele não atrai público algum e tem consciência de que, tocando de graça hoje em um Festival, no próximo ele terá 10 pessoas que irão ver seu show, aí ele pode ter condições de barganhar um cachê ou, no mínimo, uma “ajuda de custo”.

Outra coisa que citei é a necessidade da divulgação e transparência na prestação de contas quando se trata de eventos financiados com dinheiro público. Pois eu quero saber, por exemplo, quanto o promotor do evento ganhou e se isso está em consonância com outros custos. Quero saber também qual foi o cachê mais alto pago a um artista. Todos falam do mínimo, mas eu quero saber qual foi o máximo.

Temos vários modelos de negócios em atividade hoje no Brasil, mas parece que nenhum traz resultados realmente significativos para quem quer viver de música. Na sua opinião, música no Brasil é um bom negócio? Se não, o que falta para ser?
No que me diz respeito, ainda é muito cedo pra dizer se é realmente um bom negócio. Digo isso porque a Phonobase é uma criança de 2 anos e nosso planejamento prevê resultados a longo prazo. Se você perguntar para os “medalhões” da indústria, provavelmente ouvirá que “não é mais o bom negócio que era”. Pra mim, a música será o bom negócio que eles deixaram escapar.

Você já disse em entrevista que as grandes gravadoras vão “abduzir” as estratégias de trabalho das gravadoras pequenas. Isso é mais positivo do que abduzir os próprios artistas? Em sua avaliação, é mais legal o Cérebro Eletrônico ter a estrutura de uma Sony/BMG ou a Sony lançar um download card de uma dupla sertaneja?
Acho que é um processo vinculado à situação atual da indústria. Gravadoras pequenas podem arriscar mais já que elas não tem que prestar contas para acionistas inescrupulosos. E esses riscos poderão gerar resultados que, posteriormente, serão “pirateados” pelas majors. E hoje, com o mercado maluco como está, do ponto de vista das majors isso me parece mais positivo do que “abduzir” os artistas porque se o negócio delas não se estabilizar, elas morrem e levam consigo também seus artistas.

Ainda sobre o assunto anterior, você acha que é bom ou ruim hoje um novo artista estar em uma grande gravadora? Por que?
Depende do artista. Eu sinceramente acho que as majors irão continuar cuidando dos hit makers globais e irão ter que encontrar maneiras de manter seus tentáculos abertos sobre o mundo todo. Agora se é bom para um artista que quer desenvolver uma carreira sólida, não vinculada a resultados imediatos, eu acho que talvez não. Esse artista deverá procurar parceiros para desenvolver seu trabalho ou fará por si mesmo.

Quem quiser conferir o “Think Tank”, basta assistir o primeiro vídeo e seguir os rastros!

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