Entrevista – Martinho da Vila « Pop up!

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Com disco novo praça, Martinho da Vila arregaça as mangas e descarrega o sotaque da malandragem para dar um aviso: Vou Viajar. É o título da faixa que abre Martinho da Vila do Brasil e do Mundo e tem noção mesmo cronológica, para avisar que ele pretende absorver referências de outros estados. Artista consagrado que é, poderia ativar seu automático para lançar uma compilação de sambas que seriam sucessos garantidos na passarela da escola de Santa Isabel. Mas ele não cedeu à preguiça e lançou um de seus discos  mais arriscados, onde os convidados não são apenas voz figurante; eles ditam o ritmo da música.

Sendo assim, passado o aviso da viagem, Martinho aterrissa em Negra Li. Já na segunda música, seu samba vira um rap, nesse que é o maior susto do disco, já para avisar e acalmar o ouvinte. Nos minutos que seguem, ele canta frevo, xote e reggae, mistura essas referências em uma ocasião e não cede um instante sequer ao samba. O tipo de mistura que já é comum de ser feita por muitos músicos, mas surpreende vindo de uma figura tão monolítica quanto a de Martinho.

Imagem que ele desconstrói no primeiro segundo de uma entrevista por telefone. “Tá bom o clima ai?”, pergunta. Por algum razão mórbida, essa é sempre a primeira dúvida de qualquer entrevistado, num esforço de já sucumbir a conversa a um papo de elevador. Isso me lembra que Martinho foi uma das primeiras entrevistas que fiz em jornal, acompanhado de uma outra grande figura da profissão, que já começou ligando o gravador e perguntando “E ai Martinho, e o samba?” para receber de resposta um “ah, o samba tá bem“. Ou seja, velhos vícios.

Quando a conversa fiada chega no disco, ele concorda com a impressão que passo sobre o risco desse novo trabalho. “O cantor tem que ter motivação, então se eu não complicar, não fazer um disco que seja um risco enorme, não tem graça”, explica. “Se fosse só escolher umas músicas prontas e soltar, não tinha sentido”, e já emenda em risos. E como quem rouba as palavras, reforça “é meu disco mais arriscado sem dúvidas“.

No texto que divulga esse novo trabalho, Martinho já passou dos 40 anos de carreira, “mas no duro, no duro só tenho 38 de samba”, confessa. Tempo que rendeu a ele o título de cidadão honorário em vários estados do Brasil. “Pernambuco, Espírito Santo, Bahia, Rio Grande do Sul e Minas Gerais”, enumera. Cidades que ele escolheu para fazer essa viagem e encontrar ritmos que podessem entrar em sintonia com seu samba. “A idéia inicial era ir a mais lugares, mas não deu”, lamenta. Na lista, ele acrescentou ainda São Paulo, pela relação que tem com a cidade.

De Pernambuco, Martinho da Vila canta frevo de Getúlio Cavalcanti. Na pergunta que sempre se repete ao samba, sobre como o frevo pode ter tanta repercussão quanto o companheiro de carnavais, Martinho repete a fórmula. “Tem que fazer eventos de frevo, sabe como é que é? Não é fazer Carnaval, mas o frevo como música. E aquela coisa da sombrinha deixa só para fevereiro”, ensina e reforça: “É como a gente faz aqui no Rio”.

Viagem
Apesar dessa relação que o disco tem com o Brasil, Martinho da Vila escolheu lançar o disco primeiro na Europa. Diz que “foi uma coincidência”. E explica: “Na verdade já tinha uma turnê prevista em Portugal. Depois vou para a Suíça e ai volto para o Brasil”. O músico ainda acredita que a música brasileira, no exterior, é ouvida com o filtro da Bossa Nova. “Quero mostrar que tem mais coisa com esse disco”.

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