Festival Mundo 2009: Segunda noite « Pop up!

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O segundo dia do Festival Mundo começou cedo. Antes dos shows, a Usina Energisa já recebia público para o debate marcado às 15h com os produtores Paulo André – da banda Mundo Livre S/A e do Abril Pro Rock – e Fabrício Ofuji – da banda Móveis Coloniais de Acaju e o festival Móveis Convida – sobre auto-gestão no mercado independente. O papo foi mediado por Arthur, da banda Cabruêra, e teve presença principalmente de bandas locais, além de Ivan Ferraro – da Feira da Música de Fortaleza – e o pessoal do Lumo Coletivo, do Recife. O fio condutor da conversa foi sobre como as bandas precisam de jogo de cintura para se dar bem nessa cena.

O papo encerrou já na hora do primeiro show. A ressaca do dia anterior indo embora com o sol fraquinho do fim de tarde e as idéias trocadas na sala do debate escondiam a expectativa de como esse dia seria importante na história do festival. Não apenas por reservar a melhor parte da programação, mas também pelos eventos que se desenrolariam ao longo do dia e contribuiriam para a história dos festivais independentes no Nordeste.

Quem abriu os trabalhos foi a Blue Sheep. Banda bem nova da cidade, formada só por meninas que estão entre 18 e 20 anos de idade. O pouco tempo não impediu elas de terem referências de fazer inveja a muita banda por ai. Tem ecos de Jimmy Hendrix, Led Zeppelin, Chuck Berry e toda essa primeira geração do rock na música delas. Aliás, não só nas músicas – próprias, todas cantadas em inglês – mas também na energia do palco. Elas correm de uma ponta a outra, dançam e se divertem de um jeito que não tem como ignorar a presença delas ali. Diversão pura e, sem dúvidas, um dos melhores shows do festival.

Nessa hora já tinha caído a ficha de um ponto central nesse fim de semana. Essa não era mais aquela João Pessoa dos shows na Música Urbana e Galpão, com bandas que se esforçavam para ficar abaixo da média. Os esforços do Coletivo e do Festival Mundo parecem ter finalmente acelerado a produção da cidade. Blue Sheep, Cerva Grátis, Malaquias em Perigo e Nublado representam um ponto de virada na cena da cidade, que agora dialoga de igual com o que acontece em Recife, Natal, Salvador e Fortaleza.

O festival também foi a primeira oportunidade de assistir o Nublado após o lançamento do último EP deles, “Vôo Livre”. Se na edição passada eles não tinham ainda repertório suficiente para preencher um show – que teve quase tantos covers quanto músicas próprias – dessa vez ele mostraram que levou um ano para atingirem o status de banda de verdade. Não apenas limitada as canções que estão no EP, eles conseguiram dar vida nova para aquelas primeiras músicas que não chamavam tanto atenção quando eles fizeram estréia no MySpace. Se tiver que arriscar, diria que esse show carimbou o passaporte deles para circular livremente no Nordeste em qualquer evento sem deixar a desejar.

Antes de terminar a apresentação deles, chegou a informação via produção do festival que as bandas Amp e Black Drawing Chalks, que tocariam em seguida, haviam quebrado o carro na estrada entre Natal e João Pessoa na altura de Pipa. E estavam esperando um reboque e tentando conseguir uma van para chegar até o festival. A preocupação maior era devido as limitações da Usina Energisa que, por determinação da Prefeitura, deveria fechar as portas de meia noite por estar em região de hospitais e residência. E isso poderia significar que eles não tocariam na noite.

Após um breve período de espera, foi anunciado ao público uma inversão na programação. Chico Corrêa e Electronic Band tocariam antes, enquanto as outras duas bandas tentavam chegar em João Pessoa. Quem viu de fora, ficou surpreso com um dos melhores shows da noite. Mas, ao terminar, circulando pelo público, a própria banda não escondia o sorriso de anunciar que aquele tinha sido um dos melhores shows que eles tinham feito. A proposta eletrônica para a música regional de Chico Corrêa ganhou vida nova. Se livrou do clichê World Music que costumava carregar para se tornar algo mais contemporâneo, dançante e convidativo. Não por acaso, tiveram a melhor resposta de público de todo o festival.

No fim, o problema da noite também parecia resolvido. Black Drawing Chalks e Amp, com cara cansada da estrada, já estavam a postos para a noite. Por conta do tempo perdido, eles decidiram fazer um crossover e se apresentar junto no palco. Seriam quatro músicas de cada, tocadas com troca de integrantes em cada uma no palco. Parecia uma solução perfeita, se não fossem duas das bandas mais pesadas e com espírito rock no Brasil hoje. Acostumadas as maiores farras que acontecem em palcos como o da histórica participação na “Banda da Eline” no Bananada.

Resultado: rock alto e cerveja no palco assustaram os donos do som usado no festival, que foi cedido pela prefeitura de João Pessoa. Com bebida nos microfones e cerveja voando pelo público, eles desligaram os equipamentos no final da primeira música do Black Drawing Chalks. Era My Favourite Way e até quem estava ali pelo regional tinha chegado perto do palco já dançando sem timidez. Mas quem estava ali para ver eles não ficou desemparado.

Para não perder muito tempo e nem o ritmo da noite com a confusão, Guizado começou a montagem de seu palco logo na sequência do caso. A música deles estava afinada com as principais atrações do dia – Mundo Livre e Chico Côrrea – mas atraiu mais olhares curiosos. O público demorou para processar a informação, com dancinhas mais tímidas até a primeira metade da apresentação. Barreira que eles só conseguiram quebrar nas últimas músicas, o que favoreceu o Mundo Livre, por deixar o clima animado para o fim de noite.

Antes deles tocarem, entretanto, a organização do festival anunciou que Amp e Black Drawing Chalks fariam um novo show, de graça, logo após o Mundo Livre. Mas seria no Espaço Mundo, casa que o coletivo mantêm no sítio histórico de João Pessoa. Uma saída honesta, considerando ainda por cima que o Festival Mundo estava marcado para terminar cedo e, até então, não tinha um “after party” marcado.

Com tanto tempo sem tocar na Paraíba, poderia dizer que a ansiedade – e o repertório só de hits do Combat Samba – dariam ao Mundo Livre o jogo ganho antes mesmo da partida. Mas eles subiram ao palco desfalcados, sem o tecladista, o que rendeu uma preocupação e cuidado maior no que eles faziam ali no festival. Essa tensão acabou resultando em um dos melhores shows que o Mundo Livre fez no Nordeste nos últimos dois anos. Rendondinho, sem pausas, segurando o fôlego de todo mundo até a última música. Se terminasse ali, já teria sido histórico para a cidade.

Mas horas mais tarde, Fred 04 e mais um monte de pessoas lotaram o Espaço Mundo no show da Black Drawing Chalks e Amp. Assistir o sol de uma segunda-feira raiar não foi problema para todo mundo que chegou lá com gosto. A apresentação destruidora fez até o mangueboy bater cabeça e instigar a comissão de frente no público. Independente do formato que adote para as próximas edições, terminar com festas assim no Espaço Mundo já virou algo obrigatório para o festival.

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