Independência sem teoria « Pop up!

Eu ia esperar baixar um pouco do pânico gerado pelo texto que o Thiago Ney publicou recentemente, mas parece que o efeito é o contrário. Só fui ver bem depois da repercussão na poplist o burburinho que estava no Orkut. É impressionante ver a quantidade de desinformação gerada por um texto curto e irresponsável num blog da Folha de S. Paulo.

Em tempo, estou longe de ser aqui advogado da Petrobras e da Associação – basta ler os textos anteriores já publicados aqui para confirmar – mas é preciso esclarecer alguns pontos importantes. O principal: o edital da Petrobras nunca deu o valor dito por Thiago a evento nenhum. Esse mesmo valor não cobre o custo completo de um festival (muitas vezes sequer a metade) e, o mais importante, nem metade dos contemplados fazem parte da Abrafin.

Alguns outros esclarecimentos mais brandos. Muitos dos festivais estão em atividade há pelo menos mais de 10 anos. É simplesmente natural que um produtor que faça isso a tanto tempo – e muitas vezes passe o mesmo tempo também tocando em outros eventos – faça amizade com outras bandas. Isso não é errado, as pessoas se relacionam desde que o tempo é tempo. Ser amigo de uma banda não faz dela uma banda ruim. Nem vivemos numa produção cultural grande o suficiente para que nenhuma das partes se relacionem. Dizer que é errado ter bandas amigas num evento é simplesmente um argumento arbitrário.

É preciso dar o braço a torcer a um fato: existem sim muito mais conquistas positivas que negativas desde que a Associação Brasileira de Festivais Independentes chamou a atenção da Petrobras e outros órgãos públicos para esse tipo de evento. É óbvio. Afinal, os festivais precisam de dinheiro para existir e se as empresas privadas estão cada vez mais optando ter seus próprios festivais então é preciso recorrer a uma alternativa. O próprio fato de que as bandas e produtores agora sabem para onde olhar no momento que precisam reclamar de algo já é uma vitória muito grande.

É claro que existem muitos pontos negativos. O maior é que os festivais estão criando uma nova noção de localidade na cena independente brasileira. Por exemplo: a banda Violins (GO) nunca havia tocado no Recife, mas ao ser escalada para o Abril Pro Rock é questionada com um nome que já aparece bastante em outros festivais. O mesmo vale para o Superguidis (RS). O Brasil passa a ser uma territorialidade absoluta para essas bandas, mesmo que elas estejam lidando com público específico (e que nem sabe desse papo todo que estamos tendo aqui). E mesmo sendo uma crítica mais recorrente, ainda é confusa para se trabalhar uma solução.

Um problema originado por isso é o do espaço oferecido pelos festivais. Se o território agora passa a ser o Brasil, então o Goiânia Noise não está oferecendo 30 bandas para a cidade onde acontece. Ele se soma ao Abril Pro Rock, Porão do Rock, Mada, Calango, Gig Rock e todo o restante do circuito. Então estamos falando aqui de uma abertura para mais de 300 bandas. Um número que existe em quantidade, mas não em qualidade no país. Minha teoria é de que não temos mais que 30 bandas boas por unanimidade. Daquela que nem eu, nem o Dago vá discordar que vale mesmo a pena ser chamada.

Esses são apenas duas das grandes dificuldades que os festivais independentes vão precisar passar agora que existem em unidade. Existem outros, claro, mas minha intenção aqui não é a de levantar polemicas… mas justamente mostrar que o debate poderia está sendo encaminhado para outro lado. Porque toda a parte primaria questionada na Folha de S. Paulo já está muito bem resolvida: o conceito trabalhado para independência, a noção do financiamento e a questão das curadorias. Estamos em outro patamar, portanto não faz sentido recuar o debate.

Toda essa gritaria e dispersão acontecem, é claro, porque estamos tratando de um assunto muito mais delicado que a qualidade das bandas. Estamos falando de dinheiro. Talvez essa seja uma dificuldade que nenhuma Abrafin vá conseguir solucionar: os festivais estão inseridos numa cadeia produtiva totalmente desconectada. As bandas reclamam de um cachê de um único show (porque eles sabem a quem reclamar, como falamos aqui), mas esquecem do dinheiro para apresentações diárias, durante todos os outros fins de semana do ano. As casas de shows e contratantes particulares ainda estão totalmente a parte das necessidades desta cena. A exceção são os que também tem festivais (DoSol, A Obra, Fora do Eixo, etc).

E esse é apenas uma parte: some ai lojas de disco, estúdios de ensaio, lojas de instrumento (se faz muito oba pela tecnologia, mas se esquece que o hardware da música continua caro), imprensa (esse é o mais crítico. Muito mais que qualquer festival ou programa de patrocínio) e, claro, o próprio público. Diversas partes que se envolvem com as bandas, devem a elas muito mais do que já estão dando, mas não estão sendo cobrados com o mesmo afinco.

Para encerrar o raciocínio… é assustador como as pessoas falam sobre Petrobras, Abrafin e Festival como se esses tivessem atingido um patamar absoluto do processo. Gente, sério, não é assim. Esse é um primeiro passo. Antes os festivais mal estavam conseguindo existir. Agora podem seguir. Nos próximos passos os valores também passam a crescer naturalmente. Os eventos não tinham dinheiro nenhum e, agora que tem, já estão reclamando por mais? Não é assim que funciona. Tempo ao tempo, antes de tudo.

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