Indo contra a “Era Google” « Pop up!

Da coluna Ressaca. Publicada no site Giro Cultural
Antes de tudo, acho que uma apresentação é sempre saudável. Afinal de contas, a proposta é criar interesse de você que está lendo para voltar sempre, sabendo pelo menos quem é essa pessoa que se meteu a falar tanta bobagem das coisas que deveriam ser tomadas com tanta seriedade. Meu nome você já descobriu antes de chegar aqui, sou jornalista, editor do site independente Vitrolaz, crítico de música da Folha de Pernambuco e faço pós-graduação em crítica cultural na UFPE. Sou bem novo sim, e fico com tanto pé atrás quanto você quando lê o que eu escrevo, justamente pela pouca estrada.

Mas vivemos na era Google, nosso querido oráculo. O conhecimento está a três cliques de distância, com limite apenas de sua criatividade. Se eu disse o nome de uma banda hoje, em duas horas você vira fã daqueles mais psicopatas, que já ouviu todas as discografias e gravações perdidas. Pede licença para o amigo no MSN, diz que vai atender ao telefone quando na verdade vai procurar a resposta para a pergunta que ele fez, para justificar que você nem é tão fã assim e só tem pose.

Então seria perder tempo se eu usasse esse espaço fazendo resenhas, críticas de discos e tudo mais que você já encontra aos montes por ai – aliás, que já encontra aqui mesmo no Giro. Este espaço vai ser para o colunismo no sentido mais literal. Minhas opiniões pessoais sobre as coisas que acontecem ou deixam de acontecer na cidade, sempre relacionado à música. E já deixo avisado que sigo a filosofia de Lester Bangs no filme Quase Famosos: “seja honesto e impiedoso”, então nada de ficar de babação por qualquer coisa, só porque “é da terra”. Eu dou valor ao que é nosso, desde que seja bom.

Agora que já dediquei três parágrafos ao meu ego, vamos ao que interessa. Pouca gente está ligada nisso, mas a casa de shows Dokas vai fechar. O lugar foi palco de alguns dos shows mais legais que a cidade já teve e hospedou os principais festivais de metal do Recife. Lembro de um momento histórico, no show do Hanagorik, onde as pessoas estavam subindo pelas paredes e caindo pela janela, porque não tinha mais espaço para entrar.

Foi bonito sim, mas é exatamente por isso que o lugar vai fechar. Não vale a pena fazer show em Recife por um motivo definitivamente triste: o público é péssimo e extremamente mal educado. Todo mundo quer, de alguma forma, entrar de graça, ganhar o CD da banda de graça, beber a cerveja do bar de graça. Quem não consegue reclama com um discurso de que a organização é ruim, que tudo é um roubo e volta para casa dizendo que em Recife não acontece show legal.

Talvez o melhor exemplo de todos seja o festival Abril pro Rock. Quem lidera nas reclamações muito à frente da escalação das bandas é o preço dos ingressos. Pode perguntar ao seu amigo porque ele não vai. Dificilmente a resposta vai ser “porque não gosto de nenhuma banda”, mas sim “porque eu acho um roubo pagar R$ 20 para ver 10 bandas, boa maioria de outros estados”, por mais absurda e paradoxal que seja uma afirmação dessas.

Chega a ser desmotivante para as bandas terem que se inserir num cenário onde ninguém quer consumir o que eles produzem. Já passamos da fase da arte pela arte. Se até então eram as bandas que sumiam, agora são os palcos que estão preferindo virar restaurantes ou lojas de carro. Certa vez, no agora finado espaço, me disseram “enquanto existir o Dokas, vai existir metal no Recife”. Será que esse é o prelúdio do fim? Quando pensar nisso, leve em consideração que a culpa é, em parte, sua. 🙂

* Molhando o bico

» Saiu à nova edição da revista Outracoisa, que está começando a perder qualidade. 80% das matérias falam de coisas que simplesmente não interessam para quem está fora do Rio de Janeiro. Uma delas chegou ao cúmulo de listar as barraquinhas de cachorro-quente da cidade. E depois reclamam que não vende nos outros estados. Mas vale a pena pelo CD de Quinto Andar, grupo comandando pelo rapper De Leve.

Publicado originalmente em 28.03.05

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