Loucos por música eletrônica « Pop up!

Sábado à noite, show daquela banda famosa bombando de gente no Recife Antigo. Quem vai, diz que ninguém podia perder, só que não muito longe dali, a estudante Natália Mesquita, de 17 anos, esta perdendo. E ela não faz a maior questão. Sua noite começa numa boate, as batidas da música eletrônica pulsando já na porta de entrada. “Entro e procuro logo minha turma, vou achar meu canto”. Juntos, os amigos observam quem também apareceu. “A gente sabe se a festa vai ser boa vendo quem veio”. Natália e os amigos fazem parte da sempre crescente cena eletrônica do Recife, um grupo que ganha cada vez mais destaque na noite.

Techno, Electro, Trance, House, os ritmos todos se misturam dentro das casas noturnas. “Depois do sucesso de Benny Benassi, o público se misturou bastante nas boates. Antes, quem ia para a rua da Guia, não chegava nem perto do Downtown”, comenta Natália, que é fã declarada de electro. A rua da Guia que ela fala, por sinal, foi berço de grande parte da cena eletrônica da cidade. Era lá que ficava a boate Non Stop, ponto de encontro do pessoal todo sábado.

Essa variação de ritmos e gostos dentro do cenário eletrônico é a base do trabalho de quem produz. Kelmer Luciano organiza festas no Recife desde 97. Ele está sempre em contato com o público, perguntando o que estão ouvindo de novidade e também panfletando os próximos eventos. “Quem está começando agora nas festas sempre prefere o Electro”, reflete. Ele explica que a preocupação é porque o ritmo em que novas pessoas aparecem hoje é muito maior. “Antes não passavam de dez pessoas novas numa festa, hoje o número é maior e precisamos segurar esse público”.

Quando o assunto é freqüência, Kelmer é realista, “as festas dão, em média, 400 pessoas. Principalmente no Recife Antigo, onde tem sempre outras três ou quatro casas com a mesma programação”. As boates costumam ignorar isso, mas a repetição não agrada o público.

Do outro lado da cidade, a aposta é outra. Em Boa Viagem, a boate A Casa  reúne um grupo mais seleto. Quem freqüenta sempre é o professor de espanhol Gerson Filho, de 26 anos. Ele também começou na Non Stop, em 1999, mas passou logo para a Fun House, que ficava no bairro da Torre. “O público pode ser mais reservado, mas A Casa tem uma preocupação maior com a qualidade do som e iluminação”.­ Gerson não esconde que, com ele, o negócio é mesmo dançar. “As vezes fico na pista até às 4h da manhã. Depende, claro, da empolgação do grupo que está com você. Mas a estrutura do local e a qualidade da música sempre conseguem segurar até o sol nascer”.

Diferenças de público à parte, os loucos por música eletrônica sempre conseguem encontrar diversão na noite, independente do hype que está acontecendo na cidade. Têm até os que juntam uma boa noite de música e dança com prazeres gastronômicos. É o caso do Café Prouvot, que fica em Casa Forte. O lugar tem de tudo: espaço aberto e fechado para quem quer dançar e boa cozinha para quem cansou, mas ainda não desistiu da noitada.

VINCULADA – Diversão que vai além das pistas

Se no fim do show um monte de gente sai com vontade de montar uma banda, depois da rave sempre tem alguém que chega em casa com vontade de virar Dj. Começam já nas festas seguintes pedindo música para quem está comandando o som e, quando menos se espera, já estão com o nome circulando pela cidade em algum panfleto. Para quem está dançando, tudo pode parecer muito divertido, mas ser louco por dançar música eletrônica é uma coisa, louco por tocar já é muito mais complicado.­

A designer Luana Pontes nem tinha pretensão de ser Dj quando começou. Ela organizava festas com os amigos e, numa delas, sugeriram que ela ficasse no som. “Particularmente, sou fãs de muitos Djs. Já cheguei até a viajar para poder ir nas festas que eles tocam. Mas, em Recife, acho que ainda não existe muito essa cultura do público aparecer no lugar só pelo nome do Dj”. Essa pouca relação com o público é a maior complicação no começo de carreira.­

“É impressionante, não tem festa que não apareça alguém pedindo uma música que não tem a ver com o que está sendo tocado”, comenta Luana, que não esconde que não gosta disso. Quem conseguir passar pelo teste, conquista a confiança do público e entra no circuito das festas. Mesmo assim, nas boates, os papeis se misturam. Dj ou freqüentador da casa, são todos amantes da música eletrônica.

Publicado originalmente em 23.05.05

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