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Da coluna Ressaca. Publicada no site Giro Cultural

Não precisa observar muito para perceber que falta alguma coisa nessas bandas daqui do Recife. Numa fase tão fértil na música local, a referência que o sudeste tem daqui ainda é o manguebeat, mesmo com bandas como a Mombojó quase como uma presença nacional, tocando vários fins de semana seguidos por lá. É uma figura que, na verdade, nunca foi muito famosa aqui na cidade: o produtor.

Existem, claro, dois tipos de produtores. Aquele que organiza eventos (e desses aparecem um a cada minuto) e aquele que Bartes destaca como “intermediário cultural”, o recorte da indústria fonográfica que tem contato com as bandas independentes. É o pai, no sentido mais chato da palavra, que todo grupo deveria ter. Serve para dar puxão de orelha, apontar o que está errado e precisa melhorar.

E não se iluda. Aquele seu amigo que estuda comunicação e conhece todo mundo das festas não serve de produtor. Não precisa ser um João Marcelo Boscolli ou um Miranda, mas pelo menos alguém que tenha sensibilidade suficiente para prestar atenção na música, distanciamento para não se empolgar com aquele ensaio onde todo mundo está de bom humor e (muito mesmo) senso crítico.

O que acontece no Recife é o velho esquema de auto suficiência que dificilmente funciona. As próprias bandas se produzem, ao mesmo tempo que procuram shows, fazem os cartazes, publicidade, assessoria. Esse “muito tudo” acaba prejudicando uma dessas ramificações, geralmente a própria música e disposição da banda. Quem nunca, depois de um dia irritado, terminou um ensaio falando “está bom assim mesmo”, só para ir embora logo?

Misturar não é saudável. Do mesmo jeito que não é bom o crítico que toca em banda ou a banda que organiza mini-festivais, não é bom a banda que se produz. Até porque esse é um trabalho que precisa apenas da dose suficiente de amizade apenas para se sentir confortável com a sinceridade. Um passo a mais e já se corre o risco de ficar com pena para falar “olhe, sua voz não é boa. Vá praticar canto”.

O resultado é esse cenário atual. Bandas com grande potencial e às vezes sem conseguir mostrar identidade. Misturam gêneros incompatíveis, exageram no experimentalismo e acreditam que tocar por tocar já é suficiente para fazer um som competente. Mas esse já um assunto para outro dia. 🙂

Publicado originalmente em 12.07.05

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