Page 168 — Pop up!

A gravadora Trama lançou esta semana nas lojas o disco “Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not”, do grupo inglês Arctic Monkeys. Diferença de quatro meses do lançamento internacional, pela Domino Records, e quase meio ano depois das músicas chegarem à Internet. Raras bandas têm oportunidade de ganhar três reflexões distintas do mesmo trabalho, todas com a mesma sensação de ainda estar falando de uma novidade. E em muitos aspectos, o Arctic Monkeys vai continuar sendo novidade durante muito tempo.

Para começar, a partir de agora, sempre que alguém falar para você sobre manipulação da mídia ou construção da realidade através dos jornais e revistas, pense imediatamente em Arctic Monkeys. Nenhuma banda foi tão mais falada que ouvida que esse quarteto de Sheffield, cidade que lançou entre poucos o The Long Blondes. A boa vontade em divulgar o single “I Bet You Look Good on The Dance Floor” como o que tinha de mais legal nos últimos dois anos de música rendeu, em um único dia – o primeiro dia – 118.501 vendas deste disco.

Numa situação dessas, que entra no registro do Livro dos Recordes, é sempre bom refletir o contexto com cuidado. A mídia especializada em música é, no geral, muito anti-MTV. Entre 1999 e 2000, todas estavam esperando algum barulho – literalmente – que pudesse soar rock e jovem, como o Oásis, mas com um pouco mais de atitude. Um pouco menos de clipes ou, pelo menos, sem a Sony (que virava na época a Sony/BMG) fazendo tanta pressão nas TVs e Rádio. Eles encontraram esse som do século XXI no disco “Is This It”, do Strokes.

Essa nova onda, a volta das guitarras mofadas, efeitos para que a voz soasse velha, rendeu uma vertente. Foi onde então essa mídia acima, revistas como a NME e sites como o Pitchfork Media (que disputam com o canal de clipes o direito de criar hypes) passaram a apostar. Meios que, de muita forma, são mais rápidos que a televisão. Um canal pode repetir o mesmo clipe um mês inteiro. Uma revista jamais poderá repetir uma matéria. Sim, lembre que estamos ignorando aqui a presença das rádios.

As gravadoras menores deram pano para manga. Em 2001 era lançado o Strokes, em 2002 saiam os Libertines (também o Interpol) e, em 2003, finalmente, o Franz Ferdinand. Uma banda por ano para ser trabalhada. Cada uma com suas características próprias. A mídia se acostumou nesse ritmo quase fast-food de ter, por ano, pelo menos uma banda mais legal da face da terra. Mas toda colheita tem sua entressafra. A deles aconteceu em 2005. Todos os discos seguintes das bandas não passavam de lançamentos mornos. O hype foi perdendo força.

É esse o contexto do Arctic Monkeys. Fome e pressa para um novo nome para promover. Se tivesse sido lançado em 2002, “Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not”, seria exatamente o que ele realmente é: um disco regular. Isso não aconteceu. E o que aconteceu também com o Arctic Monkeys é que, na verdade, eles nunca lançaram um disco. Muito antes das bolachas serem prensadas, eles eram sucessos com singles individuais. As mp3′s que eram distribuídas sem pudor por eles mesmo na Internet.

Ponto para a banda. Graças a isso, a música volta a ser pensada numa lógica que não funcionava mais desde 1997. Analisado no todo de suas 13 faixas e 40 minutos, o Arctic Monkeys pode ser apenas um resumo desse rock pós-2001, com um pouco de cada banda, em uma embalagem regular. Mas se visto single a single, recorte a recorte, situação a situação para cada música, eles seriam quase hitmakers. Prova do sucesso que foi o “I Bet You Look Good…”, segunda do disco, mas que hoje já é um pecado ser tocada em festas.

No faixa a faixa, o Arctic Monkeys ganha mais pontos. Esse cara que está cantando, Alex Turner, tem uma voz muito interessante. Ele estica os agudos com quem realmente se diverte e encurta nos graves como um inglês caricato de uma comédia adolescente. Já viu Trainspotting? É mais ou menos aquilo, com os agudos sendo as cenas dos picos e os graves os momentos de pretensa sobriedade no pub. É isso, com alguns dos nomes mais legais que podiam ser bolados para as canções.

“Eu aposto que você fica bem na pista de dança”, “Talvez você não visse por causa das luzes, mas você…”, “Luzes vermelhas indicam que as portas estão seguras”, “Talvez vampiros seja um pouco forte mas…” são as traduções mais legais. Depois da terceira audição, até o ouvido mais preguiçoso percebe que muitos riffs se repetem nas músicas. O que conta mais aqui é realmente a letra. E elas são puras conversa fiada sobre cotidiano adolescente. Tudo contado de uma maneira bem divertida.

Pecado a parte, “I Bet You Look Good on The Dance Floor” é realmente a preciosidade do disco. Divertida em excesso, dá para repetir sem dó e bolar uma experiência diferente para cada bebida que acompanhar, cada vez que ela é tocada. Ela é a segunda faixa. Antes dela, e a seguir, tudo continua num tom de “mais ou menos”. Algumas faixas, como “Fake Tales of San Francisco” e “Mardy Bum” (faixas 3 e 9) parecem saídas de uma trilha de comédia com Eddie Murphy e Jackie Chan. Respectivamente as cenas de graça e melancolia desengonçada.

É uma das curiosidades desse disco. As músicas com nomes longos e engraçados são, também, as mais divertidas. Mas todas com um grande potencial para passarem despercebidas. Se o disco tem um segundo hit, ele se chama “When the Sun Goes Down”. Música irregular, que fica no ora lento, ora rápido (logo, as chances de você esbarrar com ela numa festa é bem curta), mas que tem um dos riffs mais dançantes de todo o CD. Adiante a faixa até os 0:50 e deixe tocar até 1:15 e você vai saber do que estou falando. Mas ele também só aparece duas vezes.

Dizer que o disco de estréia do Arctic Monkeys é muito barulho por nada seria exagero. O que ele tem de ruim, na verdade, é a mídia sufocante feita pelas revistas que não querem perder aquele ritmo de um hype por ano. Por isso, e só por isso, os próprios Monkeys correm o risco de não durar muito, já que tiveram esse estranho lançamento, dividido entre fim de 2005 e começo de 2006. Em tempos de Internet, a vida-útil da banda está mais curta. Para quem nasceu na rede então, isso pode significar ainda mais tempo.

Arctic Monkeys – Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not Gravadora: Trama Preço médio: R$ 30

Para comprar: Submarino

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