Page 169 — Pop up!

  • A Prefeitura de Olinda está de parabéns pela iniciativa de criar um festival de jazz (mais detalhes do evento neste caderno Programa). Falam do pouco espaço que o rock tem no Estado, mas quando se trata do gênero que deu vida a música popular, ele ainda se comporta aqui da mesma maneira que estava em Chicago, 1940. Nos becos, para um público restrito e estranho.

    Conhecer o jazz é fundamental para o bom amante da música. Então, para entrar no clima, cate umas músicas de Charles Mingus, Thelonius Monk, Duke Ellington, John Coltrane e Chet Baker. O ritmo tem duas divisões clássicas, o Cool, tranqüilo, relaxante e cheio de idéias; e o Bebop, rápido, dançante e contagiante.

    As autobiografias de Mingus e Chet Baker, ambas lançadas pela Jorge Zahar, são essenciais. Para fazer a tarefa de casa bem feita, é bom também conferir um pouco literária beatnik, nos livros de Jack Kerouack, Bukowski e Fante. O jazz é pano de fundo para as melhores histórias deles.

    Tim Festival
    Em Salvador, a casa com a melhor estrutura para receber o Tim Festival (e possivelmente o Radiohead), o Teatro Castro Alves, só tem espaço para duas mil pessoas, que não podem dançar nem usar bermuda. Chame de bairrismo, mas Recife ainda é uma melhor opção.

    Tributo
    Tudo bem que a influência do Legião Urbana no rock nacional é grande. Mas fazer um tributo oficial com uma faixa por Chorão (como assim, Chorão?) foi uma opção, no mínimo, estranha.

    A voz do povo
    Segundo a lista dos mais vendidos da Loja Passa disco, Pernambuco está entre 4, dos 10 mais. Se contar o Nordeste, são 6, que só não vencem Marisa Monte e o Tributo a Odair José (que tem 3 bandas daqui).

    Seção – Coluna

  • Podem até dizer que, num sentido pejorativo, o Belle & Sebastian é uma banda fofa, mas é fato que ela nunca teve uma atmosfera muito feliz. Por trás da cara de bons moços dos ingleses e do encanto que é a voz Sarah Martin, sempre estiveram espaços para as sentenças diretas “já fui feliz um dia”, “era uma garota abusada”, “a garota errada” e tantos outros pessimimos. Eles estão mudando isso. “The Life Pursuit”, sexto da banda (sétimo para os fãs mais obsessivos, que contam também com uma trilha sonora feita pela banda), deve ser o disco mais otimista deles.

    Lançado nos Estados Unidos em janeiro, o disco chegou só agora no Brasil via gravadora Trama. É um atraso bem saudável. Dois veículos de grande circulação chegaram a mudar de opinião sobre ele, atropelados pela pressa de noticiar logo o lançamento. Um dos motivos é que o Belle e Sebastian está no filão das bandas que podem se permitir serem pirateados à vontade. Seus fãs formam quase um culto religiosos e, cedo ou tarde, vão acabar comprando o disco. Todo cuidado é pouco ao opinar para um público fervoroso.

    Ouvindo sem pressa, “The Life Pursuit” é um disco com vários motivos para ser muito bom. Os motivos estão todos escondidos após a primeira faixa, “Act of the Apostle”. É a prova de fé . Quem passa por ela, encontra uma melodia viciante, alegre e que pode ser identificado como sendo o Belle & Sebastian até de ouvidos tapados. “Another Sunny Day” é o começo desse novo otimismo da banda. “Você passou direto do meu olhar / eu me pergunto porque / mas nem reclamo / por favor faz isso de novo”, cantado num agudo apaixonado.

    Se você for fisgado pelos versos, todo o restante do disco é de uma alegria enorme. “The White Collar Boy” e “The Blues are Still Blues” são para trilhas da melhor seção de amigos em casa, jogando pura conversa fiada fora. Esta última vem ainda com um dos melhores refrões do pop inglês do semestre, que diz “deixei minha roupa suja na lavanderia / você pode deixar um pouco de dinheiro lá / fazer uma pequena aposta”.

    “The Life Pursuit” é pontuado por momentos que lembram o Belle & Sebastian dos discos anteriores. Não parecem estar lá para acalmar antigos fãs, mas sim para marcar um momento de transição da banda. O disco não é a reinvenção do septeto ingês, é apenas a necessidade de cantar acordes mais altos, com um leve clima de redenção “em busca da vida” (tradução do nome do disco). A sonoridade deles ainda é aquela mesma datada, cheia de referências folk e estética dos ano 60.

    Belle & Sebastian – The Life Pursuit
    Gravadora: Trama
    Preço: R$ 32,90 [compre aqui]
    Escute: The Blues are Still Blues

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    Seção – Discos

  • barfly-7902466

    Escutar o disco do Barfly traz à memória uma lembrança engraçada e pré-conceituosa. Daqueles dias pouco distantes, onde o bilheteiro do cinema recomendava “tem certeza? o filme é nacional”, quando muitas vezes o filme na verdade era muito bom. Depois de exatos 1m15, quanda passa o refrão de “Daylight”, a primeira música, o encarte volta à mão com a pergunta “isso é nacional mesmo?”. É sim. A postura natural do grande mercado de discos é de que artistas brasileiros cantando em inglês não funcionam. Se fosse verdade, o Barfly seria então a exceção que faz a regra.

    A única coisa no Barfly que não é exceção é o selo da Monstro Discos no verso do disco. A gravadora de Goiâna, e as bandas dessas cidades, são as que tem de mais legal aparecendo no rock independente do Brasil. No resto, “The Longest Turn” consegue mesmo correr na lateral de muita coisa feita no país. Primeiro por fazer um disco de puro rock inglês com cheiro de anos 80 com muita qualidade, sem deixar se afetar por sotaques, expressões ou até mesmo moda, como fizeram os badalados paulistas do Wry.

    O disco tem 12 músicas, todas carregadas de uma melancolia que contrapõe a energia de uma guitar-band (são três guitarras no grupo). É a estréia dessa banda goiana, que começou oficialmente em 2003 já com um EP de sete faixas bem elogiado em zines na Internet. Apesar das referências aos anos 80 (e muito também do que estorou no começo dos anos 90, como o Sonic Youth), não é um banda amargurada. A harmonia melancólica é só clima, quase de pretexto, para letras que falam sobre muito do cotidiano.

    Cláudio Ribeiro, voz e guitarra, é uma das melhores surpresas do Barfly. Um letrista de primeira linha, que fala bem sobre aqueles amores que fazem a gente se sentir mal. Parece ser o dono da voz certa para cantar o que escreve, começando sempre em graves e esticando agudos nos refrões de uma maneira que vicia o ouvido. Mesmo com seus pontos baixos, o disco é daquelas que dá vontade de acreditar no rock independente.

    Barfly – The Longest Turn Gravadora: Monstro Discos

    Preço: R$ 15 [compre aqui]

    Escute: Daylight

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Seção – Discos

  • Falem o que quiser da facilidade para pegar músicas na Internet. Nada substitui o prazer de comprar um ótimo disco pelo puro acaso. Atraído por uma capa bem simples, um fundo branco e um pequeno efeito na foto de um guitarrista, junto com um nome que parecia mais uma onomatopéia de uma metralhadora. “Ratatat”. Alguma coisa simplesmente parecia certo na caixinha perdida num mar de tantos CDs na prateleira da loja.

    A mensagem do começo, falada em inglês, nem fez tanto sentido quando o “play” dava início aquela degustação injusta de 30 segundos. “Eu faço rap há 17 anos, ok? Eu não escrevo mais minhas coisas, ok?”. Isso mesmo, era todo instrumental. Guitarras, sintetizadores, palmas e beats. Rock, eletrônico e até minimalista. Um achado.

    Da próxima vez que tiver um tempo livre, perca um pouco dele passeando naquela loja mais próxima. Escolha os CDs pelo acaso e perturbe um pouco o vendedor para ouvir cada um com cuidado. O prazer da descoberta vale muito mais que o mais rápido dos downloads.

    Escute: Ratatat – Seventeen Years

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    Sampa
    Pernambuco está em alta em São Paulo. Durante essas últimas duas semanas, passaram pelos palcos de lá o Eddie, Bonsucesso Samba Clube, o DJ Bruno Pedrosa e o Mundo Livre S/A. Uma amiga de lá comentou que não adiantava marcar outro programa, porque todo mundo já estava certo que o show do fim de semana eram das bandas daqui.

    Sirrose
    O projeto de Silvério Pessoa cantando Reginaldo Rossi, o Sir Rossi, que foi adiantado aqui na Folha terça passada já tem datas para os primeiros shows. Claro, vai ser uma dobradinha com a Del Rey com músicas de Roberto Carlos. O encontro dos reis será no Clube das Pás, dia 07 de abril. Os ingressos vão custar R$ 12.

    Internet
    O Programa Independente, agora programa Recife Rock Independente, está colocando a partir de agora na Internet as edições que vão ao ar na Rádio Universitária. É só acessar o www.reciferock.com.br . Já o site CircuitoPE liberou, sexta-feira, seu terceiro podcast. Agora Fred 04, do Mundo Livre S/A, apresenta o novo e ótimo disco Bebadogroove. Para acessar: www.circuitope.org .

    Seção – Coluna

  • É raro ver a entrada do Clube Português do Recife vazia em noites de show. Mas estava assim sábado, ainda às 22h, quando a banda Iron Maiden cover terminava sua abertura para o show do Massacration. Essa e outras contradições seriam o mote da estranha noite, que reuniu cerca de mil pessoas no clube, com faixa etária que se esforçava para passar dos 17 anos. Todos de preto e sem bermuda, como dita a regra da piada criada pela dupla Hermes e Renato do canal MTV. Sem bermuda, mas de calça jeans, claro.

    A entrada do Clube era ocupada pelos pais. Uns pareciam headbangers da velha guarda. Outros pareciam fantasiados em cima da hora, para não deixar os filhos fazerem feio com os amigos. Muitos pareciam bem incomodados. Talvez porque, de longe, o som do Iron cover soava abafado. E isso aumentava o contexto confuso onde estavam seus filhos.

    Considerando a função fundamental que a Iron Maiden original tem na formação de música de já quatro gerações de fã rock, parecia impossível que um tributo a eles pudesse empolgar tão pouco. Com exceção do vocalista e um guitarrista, que arriscavam animar o público um pouco além da própria música, com frases e poses de efeito. Chegava até frases engraçadas, como “no show, eles sempre falam isso”, seguido então da frase em inglês.

    O grupo cover estava bem inexpressivo e constantemente olhando para o chão e as pedaleiras dos instrumentos. Fez um repertório óbvio, com sucessos que vão arrancar coro até do mais novo iniciado. Complicado para alguns fãs mais velhos que não foram para lá pelo Massacration, e se incomodaram com versões para Fear of the Dark, que vêm de uma fase menos celebrada.

    A presença da velha geração entra como a segunda contradição da noite. Até então, citar Massacration na frente deles era motivo de discussão no trabalho. Mas estavam todos lá, reclamando da banda cover e esperando a atração da noite.

    A terceira contradição foi a banda de brincadeira, o Massacration. Eles ensinaram a pretensiosamente verdadeira atração anterior como fazer um mis-en-cene de um show de metal. A batida eletrônica, a ceninha com joselito, todos prepararam para uma hora de palhaçada, mas no palco a banda tem realmente uma expressividade de heavy metal. Não só com as roupas, mas com caras, bocas e uma ótima presença de palco.

    Não restou dúvidas que as mil pessoas, que ora se arriscavam 1.200, tinham ido lá carregados apenas do bom humor. Todos dançaram em clima de brincadeira, fizeram onda com os braços e cantaram os refrãos que faziam pouco caso deles próprios. Talvez não exista outra cena no Recife que consiga levar uma brincadeira tão bem.

    Se interessar para alguém, do show que fizeram no Abril pro Rock até este, o Massacration melhorou bastante. Para quem não faz playback, a banda está cada vez mais afinada. Isso inclui também o guitarrista de apoio, que toca escondido do palco, mas também fantasiado.

    Num show onde o mote é a piada, o ponto alto foi quando um garoto subiu no palco e robou a peruca do vocalista “Detonator”. O show parou, com direito a carão, e todos acabaram fazendo um esforço para encontrar o cabelo, que enfim voltou com o restante do show.

    Nesse ponto, entraram também dois bonecos de ar. Igual aqueles que enfeitam postos de gasolina, só que direto do inferno. Com rosto de cavera, fazendo uma dancinha maldita que o Massacration repetia de vez em quando. A banda tocou o primeiro disco “Gates of Metal Fried Chicken of Hell”. Com tanta brincadeira, só ficou na dúvida se a frase de despedida “Recife já é nosso melhor público”, era realmente verdade.

    Fotos: Guilherme Moura / Recife Rock

    Seção – Reportagens

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