Page 178 — Pop up!

  • Yamandú Costa já disse nessas páginas que “uma hora, todo mundo se cansa da música ruim e vai atrás do que é bom”. Ele não guarda modéstia. Na ocasião, falava de seu show e da recepção cada vez maior que o público tem da música instrumental. Achava tudo muito natural e bem mais forte do que tantos falam por ai. Para não ficar no falatório, ele registrou a prova. Junto com a Biscoito Fino, lança seu primeiro DVD. Essa tal boa música, que um dia todos encontram.

    Tente criar a cena. É um show onde o único atrativo visual é o bigode de Yamandú durante uma hora e tantas de exibição no Sesc Pompéia, em São Paulo. Deve ser o projeto de DVD mais arriscado que uma gravadora enfrentou em 2005. Dificuldade que ele supera rápido nas composições próprias, nas versões de Baden Powell, Geraldo Vandré e mesmo nas mais injustas de Caetano Veloso. As sete cordas sempre acompanhada pelo baixo de Tiago do Espírito Santo e bateria de Eduardo Ribeiro.

    Não tem como ser chato com a execução de Yamandú. Os pecados ficaram todos do portão para fora, longe das câmeras, talvez no posto de gasolina mais próximo, onde a música ruim saia do som exagerado de algum carro. Tudo está no lugar na Valsa Número 1 de Powell, na Suíte Retratos de Radamés Gnattali e na Disparada de Vandré. Música autêntica, que é construída nos olhos do público. Yamandú faz do som o principal atrativo visual do show. Assim mesmo, invertendo os sentidos de quem experimenta.

    Interessante de assistir porque Yamandú, no palco, não é só técnica. Ele brinca com os acordes, faz traquejos latinos quando interpreta “Taquito Militar” e “Nuages”, de Mariano Mores e Django Reinhardt. Aliás, interpreta é a palavra que define melhor a apresentação. O violonista deixa tudo com seu tom, inconfundível e sem comprometer as versões originais. Talvez seus improvisos não passem de técnica, mas se for o caso, ele guarda isso entre um sorriso e outro que dá quando brinca com as músicas.

    A produção do DVD acertou na dose servida no menu de extras. Imagens de Yamandú Costa em turnês em várias cidades brasileiras e uma conversa do músico com Hermeto Paschoal na Holanda são o topo da lista. Conta ainda com uma apresentação feita com o parceiro Armandinho em um programa de TV na Bahia e uma passagem por lojas na Espanha, onde ele experimenta vários violões. Além das já esperadas galerias de fotos em shows e na companhia de amigos que só reforçam o talento do músico.

    Publicado originalmente em 03.01.2006

    Seção – Reportagens

  • Dizem que as idéias geniais são sempre as mais simples. Sentado em um banco de plástico no Espaço Usina, em Casa Forte, com chapéu verde e olhar concentrado, Felipe Caburé, 40 anos, percussionista, entrega que ainda não caiu a ficha do que ele acaba de inventar. “Alguns amigos estão dizendo que eu revolucionei a maneira de tocar pandeiro”, comenta. Mas, no mesmo fôlego, completa: “Eu acho que não”. Na mão, o pandeiro que ele segura tem um estranho suporte de ferro, parecido com um puxador de gaveta. É o massa.

    Basta colocar o pandeiro na mão usando o massa que se entende a função dele. O objeto muda o centro de equilíbrio do instrumento, repousando a mão do instrumentista. É uma sensação bem próxima a passar a vida subindo de escada e, de repente, encontrar um elevador. O suporte foi ergonomicamente pensado para facilitar o aprendizado e, mais importante, dar fim à tendinite que acompanha a mão de nove entre cada dez pandeiristas.

    “Nasceu de uma vontade de tentar vencer a dor”, recorda Caburé. “Quando comecei a aprender a tocar, cai na ilusão que a dor me traria um ganho”. O calo que já ocupava metade do dedão dele, no entanto, discordava da idéia. Foi quando decidiu colocar em prática o que aprendeu sobre cinesiologia no curso de Educação Física. O nome complicado é a ciência que estuda os movimentos do corpo. De onde são criados novos tênis e roupas para atletas.

    Quando mostrou a idéia para os amigos, a reação foi única. “Poxa, é massa!”. O adjetivo se repetiu tanto que acabou virando o nome do suporte. Desse primeiro susto pra cá, o massa já teve cinco versões. “Levei para um ortopedista e depois para um engenheiro para eles sugerirem modificações”, explica Caburé. “O engraçado é que todos ficaram espantados quando tiveram o primeiro contato com ele. O engenheiro quase enlouquece”, fala com bom humor.

    Nesse segundo momento, de divulgação, o marketing fica na mão do criador. Onde vai, Felipe carrega seu pandeiro com um massa instalado. “Ele chegou lá em casa ainda com o protótipo, um puxador de gaveta”, se recorda a multi-instrumentista Ganga, do grupo Côco Lunar. “Na hora fiquei curiosa, peguei pra testar, quando vi falei logo ‘pô, que massa!’”. Hoje, ela toca junto com Caburé e nas apresentações que faz com outros grupos fora do estado sempre mostra a novidade.

    CUSTO – Como existem poucas fundições no Recife capazes de fazer o molde de ferro do massa, o preço do suporte ainda é alto. “Eu acho ele muito caro”, concorda Caburé. No Recife, o massa está sendo vendido nas lojas Gramophone, CI Eletrônica, Oficina da Música e Musitecnica. Chega para o consumidor ao preço final de R$ 48. Quase o mesmo preço de um pandeiro artesanal. Felipe já tem a solução para isso: um molde de plástico mais resistente. Quando fizer isso, o preço cai para R$ 15. A única coisa que o impede de colocar essa solução em prática é o custo do molde, que sai, em média, por R$ 60 mil.

    Publicado originalmente em 22.12.05

    Seção – Reportagens

  • O ritual já ficou datado e, muitas vezes, até brega. Quando a terceira música termina, a primeira já está sendo encaminhada para outras quatro pessoas desconhecidas. Com 30 minutos, um bando de viciados ansiosos já está com o novo disco do Strokes completo no computador. Quando “First Impressions of Earth” for lançado oficialmente em janeiro provavelmente já vai estar cansado de tanto tocar por ai, perdido nas festas.

    Os Nova Iorquinos, que abriram as portas, em 2001, para aquele rock que soa velho, cheira a mofo, mas não deixa ninguém letárgico, estão de volta. Graças a eles, você certamente já conhece muito mais músicas do que significados para a palavra letárgico. Graças a eles também, o som ganhou mais fichas para continuar nessa partida por mais dois anos.

    Quem escutou o primeiro hit, “Juicebox”, pode ter tido a impressão que a banda partia para uma re-invenção. Longe disso. “First Impression” cumpre seu papel, coloca o Strokes de volta na “top 5” das bandas indies que ditam a moda. Mas, no geral, é um disco sem surpresas. Tudo bem, dentro do esperado. A banda já não tinha vencido a síndrome do segundo. Perdeu também a luta contra o terceiro.

    “Heart in a Cage” chama atenção, mostrando eles cedendo um pouco para a moda White Stripes. Baixo bem forte e riff dançante. O Strokes começou como uma banda de guitarras, mas agora a bateria vira o protagonista mais forte desse “exportação tipo festa”. Isso quer dizer que eles estão investindo menos no retrô e mais no rock cru.

    A exceção é a baladinha “You Only Live Once”, que abre as 14 faixas do disco. Como primeira impressão, ela fica bem longe desta nova terra dos Strokes. Diferente também é “Hawaii”, que não entrou no disco, mas a banda mostrou durante o show que fez no Tim Festival. Assim como o novo disco, ela já está circulando na Internet.

    Escute: You Only Live Once

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    Leia também:
    • Franz Ferdinand – You Could it Have so Much Better

    Publicado originalmente em 17.12.05

    Seção – Discos

  • Anunciado desde o começo de 2005 na edição Nordeste do Claro Q é Rock, a banda Rádio de Outono lançou finalmente seu primeiro disco. A banda foi uma das mais rodadas de pop-rock do Recife no ano, fazendo shows seguidos em quase todos os fins-de-semana. O excesso pode causar a impressão que eles acabariam lançando um disco com pouca novidade, mas o material que já circula na cidade surpreende. Tem uma família grande, maior que a própria banda, que dá uma força enorme na produção.

    A Rádio de Outono é uma banda de pop rock (pop’n’roll, como eles chamam), sem guitarras. Atrativo que convida pouco para conhecer o som que, pela falta de expectativa, acaba agradando bastante. Algumas grudam feito chiclete, com letras simpáticas, que não falam sobre nada demais, de maneira despretensiosa, descompromissada e engraçada. O charme é mesmo um pianinho, as vezes escondido no palco, mas que conquista qualquer curioso de passagem.

    Mas no CD a coisa cresce. E muito. O tempo, deverás demorado, para lançar o disco parece ter sido descontado na produção. A Rádio de Outono que vai chegar na casa das pessoas – e sem muita dificuldade nas rádios – é bem diferente da que estava nos palcos. Cheia de efeitos na voz, nas guitarras e, aparentemente, muito mais que um teclado fazem uma banda difícil de associar com a Rádio de Outono que chegou antes aos ouvidos via festinhas locais.

    As sete músicas vem numa embalagem absurdamente simpática, com azuis e rosas claros e a foto de um igualmente simpático radinho dos tempos da vovó. Junto com as músicas e o tal pianinho que conquistam mais que a voz da cantora Bárbara Jones, faz do CD uma chave que abre portas na programação de qualquer eixo do Brasil.

    Publicado originalmente em 30.11.05

    Seção – Discos

  • Se todo século tem um mal, o do século 20 nasceu na Alemanha, quando estudiosos de comunicação começaram a definir os conceitos do que seria uma indústria cultural. Basicamente, a arte sendo produzida em larga escala, para ser vendida a atacado nas lojas. A crítica se fundamentava no fato que uma música de Beethoven, vendida em discos em larga escala, para experiências diferentes na casa de cada consumidor, perdia sua aura de arte. É quando a música ganha sua divisão entre o erudito, que vira sinônimo de restrito, e o popular, produzido em massa.

    A raiz de toda a música popular hoje está no blues. “Nela você pode encontrar facilmente o jazz, rock, rap, hip hop, funk, gospel, quase todos os gêneros”, explicava durante sua última passagem pelo Recife o lendário Deacon Jones, blueseiro americano. Ele fez questão inclusive de desenhar uma árvore, onde o blues dava fruto a outros gêneros. É esse exagero todo mesmo. A música foi uma das primeiras a nascer do povo e ganhar o interesse dos centros culturais, depois de anos da tradição soberana européia.

    Sua história começa ainda no século 19, com o canto falado dos primeiros escravos negros americanos, um pouco influenciados por nativos africanos que dividiam o mesmo sofrimento deles. É uma associação perigosa, já que hoje muitos cantores de blues tentam afastar os conceitos da música que tocam da melancolia e tristeza. Um dos primeiros registros do blues foi feito em 1912, com a música “Dallas Blues”, do violinista branco Hart Wand. De lá pra cá, não faltam nomes. BB King, Muddy Waters, T-Bone Walker, Willie Dixon, John Lee Hooker, Howlin’ Wolf e Elmore Jones, para citar, são alguns deles.

    Mas o blues sempre teve uma aura erudita, porque, no mesmo período de sua formação, nascia também em Nova Orleans o jazz. Diferente do blues, que é uma música mais lenta e falada, o jazz é swingado, dançante e contestador em muitas formas. Foi a manifestação popular predominante pelos próximos 20 anos, quando deu espaço para o “cool jazz”, uma forma mais lenta e “inteligente” da música.

    John Coltrane, Miles Davis, Chet Baker e Louis Armstrong são os nomes que vão fazer você pensar em jazz já na primeira audição. Além do clássico e do Cool, foram deles que também nasceram o “bebop”, uma formação de banda mais curta, com músicas mais rápidas. Junto com o blues, na década de 50, os dois ritmos deram origem às bases do rock’n’roll. “My baby rocks me with a steady roll”, foi a música de Leo Mintz onde o DJ Alan Freed batizou o ritmo.

    Nesse ponto, a produção de musical na industria fonográfica ganha uma proporção muito grande. Bill Halley, Johnny Cash, Chuck Barry, Ray Charles, Buddy Holly, Dion and the Belmonts, Berry Gordy e Elvis Presley foram apenas alguns, dos tantos que em pouco menos de dez anos conseguiu transformar o rock em um número quase sem fim de ramificações, como o soul, surf, rockabilly e muitas das raízes onde nasceram os gêneros mais contemporâneos da música com guitarras.

    Enquanto os Estados Unidos presenciava um nascimento de novos ritmos periféricos, como o punk e o hip hop, o Brasil começava a dar sua contribuição na música popular. Na década de 50, Dick Farney, Ismael Neto, Johnny Alfa e Maysa foram os precursores do estouro que viria com Vinícius de Moraes. Foi com “Chega de Saudade” que a bossa nova entrou no mapa da música internacional, uma construção extremamente complexa e, ainda assim, com um forte apelo popular. Ineditismo que espantou todo o mundo.

    Ainda assim, era uma música da classe média alta. O samba, verdadeiro popular brasileiro, só viria a chamar atenção anos mais tarde. Seus principais formadores foram Noel Rosa e Lamartine Babo. Juntos, os dois ritmos viraram parte do cotidiano brasileiro nos “Festivais da MPB”, que a televisão passaria a apresentar. Foram lá que nasceram os ídolos de hoje. Elis Regina, Gilberto Gil, Caetano Veloso, João Gilberto.

    A música popular brasileira foi marcada ainda por uma forte dualidade. O Rio de Janeiro era o cenário do refinamento, da bossa nova, música da praia e classe média alta. Na São Paulo cosmopolita, nascia a jovem guarda, mais influenciada pelo rock americano. As constantes disputas eram a grande atração nos programas de TV e grandes shows. Com o fim da ditadura, ambos os ritmos começaram a ganhar uma falsa aura de velho, quando o Brasil abria suas portas para a toda a cultura americana e européia, que predomina na música até hoje.  

    Publicado originalmente em 30.11.05

Seção – Reportagens

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