Page 181 — Pop up!

  • A proposta do projeto MTV Apresenta continua sendo registrar um show desses mais normais, onde o importante fica na relação artista-público. Não tem como ser assim com o Cordel do Fogo Encantado, que lança essa semana em DVD sua participação no projeto. Donos de uma das melhores respostas de público no Brasil, eles somam cenários e figurinos ricos num dos produtos mais bem cuidados do selo da Music Television.

    O repertório montado é diferente do que a banda está circulando pelo País. Sete músicas foram trocadas por sucessos antigos, transformando o DVD num registro do primeiro período da carreira da banda. Entram ainda quatro inéditas em discos, mas já conhecidas do público nas 25 escolhidas no show.

    Assistindo a apresentação, chega a ficar óbvio que a terra natal do Cordel não poderia oferecer a estrutura que faz desse DVD um cartão de visitas ao potencial visual da banda. Ele funciona principalmente para abrir portas para quem nunca viu a performance possuída de Lirinha no palco, onde ele se pinta, instiga o público e conquista o respeito até de quem não se agrada pelo som da banda.

    Mas também vêm para agradar e impressionar fãs mais antigos com o reforço visual que é iluminação, câmera e cenário, todos construindo verdadeira “chapação” visual. Elementos que se misturam com os movimentos do Cordel. Pela primeira vez, a MTV acertou nos planos criativos e conseguiram captar momentos que Lirinha rouba a cena, com atenções centradas apenas na sua expressão.

    O show abre com “Nossa Senhora da Paz”, num palco com objetos tridimensionais disputando atenção com a banda. Encontra o ponto alto no “Palhaço do Circo sem Futuro”, na clássica cena de Lirinha, banhado de suor, se pintando enquanto recita a história do filho com vergonha do pai que era palhaço. Encerra em grande estilo com um coro cantando “Chover”

    Apesar da boa qualidade do DVD “MTV Apresenta Cordel do Fogo Encantado”, a banda não considera o produto seu primeiro vídeo oficial. “Esse registro é um programa da MTV. Foi dirigido por eles e vários outros fatores partiram deles”, explica o vocalista Lirinha, de passagem no Recife esta semana. “Temos um sonho de um primeiro registro que parta da banda, em Arcoverde”.

    O projeto é antigo e já circula nas leis de incentivo há certo tempo. “A idéia era criar um festival em Arcoverde, onde os shows resultariam no DVD”, comenta. Mas, a necessidade de criar esse registro era grande, principalmente agora que o show entrou na disputa pelo prêmio de melhor do País na revista Bravo, ao lado de Ney Matogrosso e Na Ozzetti.

    Oportunidade, segundo Lirinha, de expandir o campo de atuação da banda. “O Cordel ainda é um grupo à margem de uma comunicação convencional, que seria o rádio e a televisão”, reflete. “Eu sinto que agora, mais maduro, ele inicia um processo de abertura dessas mídias mais convencionais”.

    Publicado originalmente em 12.10.05

    Seção – Reportagens

  • Mais aguardado na música independente nacional do que o resultado da CPI do Mensalão, o novo disco da Nação Zumbi chega nas lojas do País na segunda-feira. “Futura”, que já tinha uma prévia circulando pela Internet no último mês, é o sexto da banda que estava há três anos sem novidade na praça. Período que rodou o mundo, absorveu referências, influências e transformou seu som em pleno palco.

    A espera foi longa, mas antes de apertar o “play” é preciso se livrar de qualquer expectativa do que pode ser encontrado nas 12 faixas de “Futura”. O maracatu da Nação Zumbi perdeu uma tonelada, está menos percussivo, mais elétrico e até mesmo eletrônico. O pé, ainda com um cheiro forte de mangue, está fincado agora com muito mais força no dub, numa experiência linear, reflexiva e dançante. Sinais que a banda já mostrava no anterior homônimo.

    A expectativa não vale nem sequer para a primeira impressão de “Hoje, Amanhã e Depois”, hit fácil e certo que já é trabalho de divulgação. O que segue no disco está mais contido, melancolico, conduzido de forma elétrica da marcação do baixo e guitarra. Em segundo plano, a percussão é acompanhada por efeitos e rebites eletrônicos que vão de VK7’s, TR808 (teclados sintetizados) a sons de videogames.

    O primeiro grande surto vem na faixa sete, “Expresso da Elétrica Avenida”. Puxada por uma batida eletrônica, quase feita para as pistas de dança não fosse o grave da voz de Jorge du Peixe. Dela em diante, o disco fica agitado, com batidas mais fortes, chegando a lembrar os trabalhos anteriores da banda. “Pode Acreditar”, nome da penúltima música, é a palavra de ordem para “Futura”. Nação Zumbi surpreende, tirando o excesso regional do rock pernambucano.

    Na sua fase mais psicodélica, a Nação Zumbi não só deu um tempo na batida do maracatu, como também dosou os instrumentos. “É um pouco da técnica do gringo que está trabalhando com a gente. Ele já tinha feito um pouco disso no anterior, só que agora ele estava com a gente desde o início”, explica o baixista Dengue, em referência a Scott Hardy.

    “A gente procurou fazer umas levadas mais livres, não está mais preso a um certo regionalismo”, comenta. Depois de três anos na estrada, fazendo o show do DVD, ele reflete que esse é, provavelmente, o disco mais pensado por toda a banda. “A gente teve tempo de conversar bastante, na hora que entrou em estúdio ainda conversou mais. E isso fez uma diferença muito grande no ‘Futura’”.

    Dos planos da banda para esse disco, ficou de fora o sampler com um discursso de Che Guevara, porque a gravadora não conseguiu os direitos do áudio. “Foi um discurso antigo que ele fez em Cuba, algum universitário acabou prensando em vinil. Precisamos tirar em cima da hora para não perder a música”, lembra. Agora, a banda prepara a turnê de divulgação de “Futura”, que deve chegar no Recife em dezembro.

    Publicado originalmente em 12.10.05

    Seção – Discos

  • Faz cinco anos que a dupla Caju e Castanha não se apresenta no Recife. Mas se faltam convites na sua cidade natal, sobram pessoas na fila ao lado de fora das casas de shows lotadas que os emboladores se apresentaram em Londres semana passada. E para encerrar com o jejum de quem não pode investir numa viagem ao exterior, ou mesmo outro estado, eles lançam agora seu primeiro DVD, ao vivo no Centro de Tradições Nordestinas, em São Paulo.

    Apesar do disco novo, “Embolando o futebol”, lançando em abril, o repertório do show é centrado principalmente na carreira da dupla. Onze músicas que reúnem os sucessos mais fáceis de lembrar dos dois. “A Mulher do Corno Rico e a do Corno Pobre”, “Ladrão Besta e o Sabido” e outras que ganharam rádios, comerciais de TV e uma geração inteira de emboladores que começam sua carreira igual a Caju & Castanha, nos ônibus da cidade.

    O mais surpreendente no vídeo, entretanto, passa bem longe da seleção de músicas. Quem está a tanto tempo sem ver uma apresentação da dupla vai se surpreender ao ver como os dois cresceram no palco. Não falta produção para o Caju & Castanha, que agora tem no palco banda, cenário, figurino, coreografia e tudo mais que tem direito. Chega a custar a acreditar que a simplicidade dos dois no palco só multiplica o efeito visual do show.

    Além do show, o DVD acompanha ainda um documentário com imagens da dupla feitas ainda na época que os dois começavam ganhar atenção do Brasil, aos cinco anos de idade. Mostra a trajetória passando pelos momentos altos e baixos, do falecimento de Caju e da substituição pelo seu sobrinho Cajuzinho. Vêm também com o curta “Caju & Castanha contra o Encouraçado Titanic”, dirigido por Walter Sales e que vai virar um longa em breve.

    Somado aos últimos trabalhos da dupla, o DVD é mais um puxão de orelha na produção local que ignora a presença de Caju & Castanha mesmo durante o São João. A promessa é que o show de lançamento acontece no Recife, evento confirmado pela Fundação de Cultura de Pernambuco (Fundarpe), mas ainda sem data certa.

    “Levam todo mundo, só não levam a gente”. Castanha, arquiteto de toda carreira da dupla de embolada que faz com Caju, não está reclamando. “Somo sempre muito bem recebidos no sudeste, agora até fora do País, mas Recife faz cinco anos que eu não faço show”. Provavelmente os principais divulgadoras da cultura pernambucana hoje no Brasil e fora dele, capa dos jornais na Europa, eles continuam de fora da extensa programação festiva da cidade.

    “Eu adoro minha cidade, ainda vou voltar a morar nela”. Caju & Castanha estão morando hoje em São Paulo, onde montaram sua produtora e até estações de rádio na maior cidade do País. Trajetória comum para os músicos locais hoje, mas com a diferença de uma modéstia e simplicidade que chega encanta. 2005 é, sem dúvidas, o ponto mais alto na carreira deles, que acabam de voltar da temporada feita durante a semana de Pernambuco no Ano do Brasil na França.

    “De lá a gente foi em Londres, Amsterdã, shows com 22 mil pessoas assistindo a gente”. A temporada encerrou com a notícia da participação da dupla na premiação do Grammy Latino. Não deu sequer tempo de comemorar. Caju & Castanha voltaram direto para o estúdio, onde fizeram toda a trilha sonora para a nova temporada da série Cidade dos Homens, da Rede Globo, e já começam a planejar o retorno a Europa.

    Tudo isso e ainda uma agenda de entrevistas para todo o Brasil durante a semana, não abalam o bom humor de Castanha, que não se engana. “Ta na hora de tirar a cobra do poço e chamar o Caju & Castanha para tocar”. Todo esse sucesso não esconde a vontade que a dupla tem de voltar a tocar em casa, momento que ainda não aconteceu pela simples falta de convite.

    Publicado originalmente em 10.10.05

    Seção – Discos

  • Perto de completar dez anos de carreira, o Jota Quest pode desfilar o título de banda pop mais bem-sucedida do País. Com novo disco chegando esta semana nas lojas, “Até Onde Vai”, o grupo mostra que, sem trocadilhos, vai bem longe. Com 14 faixas, o CD mata a ansiedade dos fãs que estavam há três anos sem nenhuma inédita para cantar. E é na fórmula dos “ná ná ná” e “lá lá lá” que eles acertam o ritmo com a versão de “Além do Horizonte”, música de Roberto Carlos que já está nas rádios, clipes e propagandas na TV.

    Já na abertura, “Libere a Mente”, música mezzo-política / mezzo-balada, “Até Onde Vai” mostra que é, sem dúvidas, o disco com pegada mais funk do Jota Quest. Com participações na autoria de Nando Reis, Lulu Santos e batidas da dupla de DJs ingleses Layo & Buschwaka. E é na presença desses que estão alguns dos melhores momentos do novo trabalho. Essa sequência de abertura, ainda com a música “Sunshine em Ipanema”, resume bem o restante da uma hora do disco.

    Os momentos leves, às vezes com certa puxada soul, são cada vez mais raros. Se percebe uma situação maior, e bem dispensável, de compromisso do Jota Quest com sua parcela de público mais romantico e noveleiro. A banda poderia ter encerrado no clima agitado, sem se preocupar em emplacar no próximo tema de casal das 20h. Se derem sorte, essas não entram em trabalho, o que é provável, já que faixas como “Além do Horizonte” grudam como chiclete.

    Escalada na programação de todos os principais festivais de música pop de 2004, o Jota Quest é também, protagonista da via-crucis da fama no Brasil. Tocar na rádio e televisão costuma atrair comentários negativos de bandas semelhantes e principalmente pela crítica ávida por crucificar o artista da vez. “A gente faz o que sabe fazer, nunca pensando se vai vender ou não”, se defende o baterista Paulinho Fonseca, em entrevista por telefone.

    “O Jota Quest agrada um público cada vez maior e acho que é isso que toda banda quer”, comenta até com modéstia. Em 2005 o grupo agradou também o rei Roberto Carlos, os complicados Los Hermanos e até a dupla Layo & Buschwaka, que gravará uma música deles no próximo disco. “A gente conversou horas com o Roberto Carlos e ficamos impressionados como ele acompanhava a carreia da gente. Comentou até várias músicas”, lembra.

    Outro parceiro antigo que volta no disco é Nando Reis. “Ele tá sempre ligando pra gente. De repente o telefone toca e é ele já falando “fiz uma música para vocês”, é uma loucura”, comenta. Essa já é a terceira vez que o Jota Quest grava o ex-Titãs. “Acho que a música tem um potencial bem forte, mas não sei ainda se ela vai ser trabalhada nas rádios”, adianta.

    A banda mostra que está aproveitando o momento com bom humor. “Quando o Lulu Santos mandou a música pra gente ficamos tão empolgados que chamamos ele para gravar”, lembra. Apesar disso, o Jota Quest prefere deixar as participações no estúdio. “Sempre preferimos um show só nosso que fazer festivais, podemos trabalhar cenário e conversas com o público”, declaração que mostra que os convites ainda não subiram à cabeça dos rapazes.

    Publicado originalmente em 08.10.05

    Seção – Discos

  • Chega a ser curioso pensar que Diplo, segundo entrevistas recentes, tem interesse na música nordestina. Figura que pode ser definida como o típico turista em Copacabana, achando a pobreza uma maravilha a ser fotografada, Wesley Pentz, 25 anos, transforma toda cultura de periferia que encontra em música. Não é que se encontra, entretanto, em “Florida”, disco lançado no Brasil pelo selo Slag Records, aproveitando a presença do cara no Tim Festival.

    A compilação de remixes e experimentações nas 12 músicas são de uma sobriedade e mesmo “sombriedade” hipnotizantes. Tá ok, justiça seja feita, tem um funk carioca empurrado lá na última faixa, apenas na versão brasileira do disco. E como o pancadão ainda é persona non grata na cabeça de muitos ditos atentos aos satélites culturais, fica então como ponto positivo de “Florida”.

    Diplo é um tipo de DJ artista cada vez mais raro. Faz seu inferninho na pista, mas prefere dar espaço para suas experimentações no CD. Por isso, “Florida” é uma experiência um tanto difícil. Começa lento, continua lento, permanece lento. Chega e exigir um pouco de atenção, mas ainda anima perto do fim. Não é um disco todo para pista, e sim para uma audição menos compromissada.

    A Florida de Diplo encerra num ponto alto de referências cruzadas. Ele faz até uma parceria brasileira com um grupo chamado “Os Danadinhos” numa das faixas que é a mais agitada em todo o disco. A melhor para a festas, diga-se de passagem. Nas outras, batidas mais sensuais vem acompanhadas de sons de água corrente, instrumentos jazzisticos e vozes sintetizadas. Aquele sujeito com voz de robô que assusta criancinhas nos programas mais básicos de simulação.

    Danadinho é também o funk que encerra a versão brasileira do disco. Um batidão no melhor estilo, acompanhado por um sonzinho melancólico de fundo, obviamente a participação de Diplo na história. Ele promete vir para as bandas do Nordeste depois do Tim Festival, curioso principalmente com o Calypso do Pará. Será que o próximo disco vem com uma faixa de Techno Brega?

    Publicado originalmente em 01.10.05

    Seção – Discos

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