Page 188 — Pop up!

  • Wilson Simoninha largou a faculdade de Direito já no último período para ser músico. Coisa que não se faz, a menos que você seja filho de um dos maiores talentos dos anos 60 e tenha crescido lado-a-lado com Jorge Ben Jor. Esse cenário é tão favorável na carreira de uma pessoa que ele já estreou no “Volume 2”, um disco que livra o artista de qualquer fantasma de associação com o trabalho do pai, Simonal, ou do irmão, Max de Castro. Em entrevista por telefone a Folha de Pernambuco, Simoninha fala sobre seu novo DVD, o primeiro lançado no Brasil, onde ele faz versões de Jorge Ben.

    Você chegou a questionar porque não seria um DVD com suas músicas quando a MTV e a Trama fizeram a proposta?
    A idéia original era fazer com minhas músicas. Mas como eu estou preparando um novo disco de carreira e acabei de vir de um projeto internacional com repertório dos meus dois primeiros trabalhos, não queria repetir o show para poder me concentrar no disco de inéditas. E eu achei a idéia da Trama muito legal, eu tenho uma ligação afetiva com a obra de Jorge desde que nasci.

    Ele teve alguma participação na organização do show?
    Eu fui conversar com o Jorge (Ben Jor) para ver se ele acha legal, se ele ficaria feliz com o projeto, claro. Ele sugeriu algumas músicas que entraram, mas eu quis evitar um show que saísse com a cara dele, mas sim com minha personalidade.

    Então você participou da produção além da escolha de repertório?
    Sim, cuidei de repertório, arranjos e conceito do show. Quem assistir vai perceber que não tem nenhum dos grandes sucessos que se espera num show de Jorge (Ben Jor), como “Chove Chuva”. Eu queria que tivesse a energia dele, mas achava interessante levar músicas menos conhecidas para um público maior.

    Mas você encerra com “País Tropical”, algum motivo para abrir mão da idéia já no fim?
    Naquela hora já tinham rolado mais de duas horas de show, achei que nem estavam mais filmando. Foi uma coisa do momento, da animação da hora. Eu já estava bem mais próximo do público, conversando e acabamos tocando um sucesso.

    Alguma outra surpresa durante a gravação?
    Eu tive menos de dois meses para preparar tudo. Dei o OK para a MTV em fevereiro e gravei já em março, não pude nem mesmo testar o show. Mas posso dizer que teve tudo que eu gostaria que tivesse. Exceto por uma música, “E as rosas ficaram todas amarelas”, que não entrou por questão de tempo.

    Você pensa em aproveitar o gancho do DVD para lançar o seu primeiro, “Introducing”, lançado lá fora?
    Não, acho que não é necessário. Aquele DVD era mais uma apresentação, como o nome diz. Tinham colagens de clipes, fotos, participações em programas de TV e um “making of” da gravação. É uma material legal, mas o negócio agora é esse da MTV. Vou fazer uma turnê pelo Brasil e trabalhar no disco novo. Ainda não fechamos datas porque queria apresentar ele em cidades que nunca estive, como o Recife, por exemplo.

    Seção – Reportagens

  • O primeiro semestre de 2005 veio com uma novidade muito positiva para a música: um crescimento enorme no interesse de público e produtores por composições clássica, de orquestra, e erudita. Resultado de um trabalho extenso de reeducação cultural que aconteceu em 2004 de maneira bem espontânea. Hoje, os espaços para apresentações na cidade não são grande suficiente para receber o público que, persistente, tem aceitado assistir os eventos de pé.

    No auditório do Conservatório Pernambucano de Música, o número de público começa a competir com um outro dado positivo, o de alunos. “Ano passado tivemos mais de mil inscrições somadas nos dois semestre. Agora, na segunda metade de 2005, já não temos professores suficientes para a demanda dos instrumentos procurados”, comenta a gerente de ensino Ilma Lira, “tivemos que limitar as vagas” explica.

    Ela explica ainda que o conservatório não tem a autonomia para contratar novos professores. O processo é feito através de concurso público com edital lançado pelo Governo Federal. “Perdemos muitos professores nos últimos anos, seja por aposentadoria ou falecimento. Esperamos poder ter novos concursos o quanto antes”, conclui.

    A demanda é grande também para a Orquestra Sinfônica do Recife. Em 2005, a agenda passou de três para quatro concertos por mês. Se continuar neste ritmo vai encerrar o ano com 18 apresentações a mais que em 2004. “Com certeza sentimos esse aumento de interesse. Principalmente depois de Carmina Burana, que fizemos no Marco Zero e o trabalho com Sivuca”, comenta o diretor de produção artística da orquestra, Mucio Callou.

    Está última, por sinal, mostra que o grupo está atento ao contemporâneo. “Temos uma preocupação de formar novas platéias, por isso começamos a fazer concertos multimídia e novos repertórios que misturam com música popular”, reflete o diretor. As apresentações que misturam o erudito com popular são peça fundamental desse processo de reeducação, pegando a atenção dos ouvintes através de músicas conhecidas para as possibilidades da orquestra.

    Apesar disso, a principal programação de 2005 são as clássicas sinfonias de Beethoven. Até o fim do ano, a Orquestra vai apresentar todas as noves execuções no Teatro de Santa Isabel. Em julho foi a vez de “Eroica”, a terceira e mais marcante de todas, responsável pela definição da linguagem sinfônica de Beethoven. Em dezembro, encerra com a mais famosa, a nona sinfonia, definida por Brahms como “escutar atrás de si o ressoar dos passos de um gigante”.

    O registro desse novo interesse do Recife pelo clássico é positivo para toda música produzida na cidade. Como as apresentações costumam ser gratuitas ou de preço acessível, significa que o gosto do público tem potencial para ficar mais apurado e ser ressonante nos eventos de música popular.

    VINCULADA – Entre o clássico e o erudito

    É fácil confundir a música clássica, de ópera e orquestra, com a erudita. Mas o que acontece é que uma não está necessariamente ligada a outra. O exemplo mais clássico (com o perdão do trocadilho) é o tenor Luciano Pavarotti, considerado o que existe de mais popular na música de ópera. Ou mesmo Tom Zé, que lançou de provocação um forró que é erudito. Como as definições para o clássico são subjetivas demais quando relacionadas a estética, o mais correto é tomar como base as referências cronológicas.

    No período de 1750 e 1830 a Escola Clássica de Viena definiu a execução das sinfonias, do concerto e o quarteto de cordas. Foi uma novidade contestadora numa sociedade acostumada com os corais de igreja que resistiam aos movimentos iluministas. Era marcada pela oposição de tons e temas, que através da estrutura dos instrumentos, eram responsáveis por adicionar dramaticidade à música.

    Já o erudito tem o significado “que revela muito saber”. É, então, a música construída através de estudo de acordes, notas e até voz. É possível assim, como no caso de Tom Zé, existir mesmo um forró ou samba erudito. Precisa, muitas vezes, de atenção e cuidado do ouvinte para absorver tudo que passa na forma de música.

    Publicado originalmente em 27.06.05

    Seção – Reportagens

  • Acredite. É a primeira mensagem que se tem contato com o aguardado sexto disco do grupo inglês Oasis, “Don’t Believe the Truth”, impresso já na bolacha do CD. Palavra que soa um tanto distante da realidade do disco, que é até bom como falam, mas que cai no mesmo discurso repetido de “volta as origens” que se ouve desde as duas gravações anteriores.

    Não existe esse ponto de retorno da banda, que na verdade nunca demonstrou tanta variação como se vende. O Oasis é fácil de reconhecer em qualquer música, e não é diferente em “Turn up the Sun”, que começa os trabalhos do novo disco com uma clássica contagem “1, 2.. 1, 2, 3, 4”. É rock britanico no sentido mais literal. Lembra Beatles e até o novo alvo favorito dos irmãos Gallagher, o Coldplay.

    O toque exclusivo deles fica na condução quase orquestrada das músicas. Nenhuma presença é desnecessária, não se encontra a disputa comum entre irmãos. A tregua, positiva, encontra ápice em “Lyla”, melodia que faz o CD valer a pena. O ponto alto é mesmo “The Importance of Being Idle”, balada que mistura violão e distorção de forma agradável.

    É nessa música que também aparece o texto central de “Don’t Believe…”. A introspecção é forte em letras que falam, mais de uma vez, em alma. Frases como “vendi minha alma pela segunda vez”, “o significado da alma” e “não consigo encontrar uma alma nessa cidade”, mostram uma quase obseção pelo tema. Elas só deixam de aparecer explicitamente para dar espaço para questões de religiosidade.

    Se o Oasis pretende continuar no plano de se mostrar a única banda de rock da atualidade, o sexto disco ainda não é sua arma final. A parte da vontade quase ditadora dos fãs do grupo, “Don’t Believe the Truth” não deve fazer o mesmo barulho que “Definately Maybe” e “Be Here Now”, discos antigos ainda donos das músicas usada para lembrar o desavisado de quem estamos falando.

    Publicado originalmente em 20.06.05

    Seção – Discos

  • Antes de ouvir o disco novo do Matanza, é preciso entender que a banda é o tipo de grupo de rock que o Brasil precisa. Eles fazem o tipo Motorhead, com a pose, roupas, bigodões e um som meia boca que gruda feito chiclete. O tipo de coisa que a MTV pode apresentar para lavar as mãos dizendo que dá atenção a alguma vertente underground do rock nacional. A banda fez uma homenagem ao cantor country Johnny Cash num produto bem interessante, metade CD, metade DVD.

    “To hell with Johnny Cash” são 13 músicas com o vocal rouco puxado do sul dos estados, com a distorção de guitarra dando nova roupagem. Em certos momentos, até a bateria acelera em ritmo hardcore fazendo a mistura ficar mais estranha. São canções rápidas, dessas que fazem voltar uma faixa ou outra para ouvir de novo os trechinhos que ficam na cabeça com facilidade.

    Os fãs de Cash vão sentir falta de algumas músicas. “Cocaine Blues”, por exemplo, é uma das canções perfeitas para acelerar no rock’n’roll. Além da clássica “Walk the Line”, que também ficou de fora. Bom mesmo acaba sendo “I Got Stripes”, que encerra o disco. A seleção ficou mais direcionada para o fã obsessivo, que conhece todas as músicas perdidas. Talvez o disco ficasse mais divertido se fosse uma doutrina rock para o country.

    Dentro do que se propõe, o Matanza faz um som competente. E eles existem num cenário bem conveniente para atingir essa competência, já que outras bandas do porte dificilmente conseguem qualquer destaque no país. As músicas, todas em inglês, estão bem distante da idéia de inferno que traz no nome e capa e lembram muito o mote do disco anterior da banda, chamado “músicas para beber e brigar”.

    Nesse cenário Harley Dayvidson, o Matanza se destaca muito mais pela atenção que a banda dá ao mercado que pelo próprio som. O disco de mídia dupla, lançado pelo selo Deckdisc se mostra uma opção bem interessante para evitar problemas com pirataria. Infelizmente, afeta muito o preço do produto final.

    Publicado originalmente em 20.06.05

    Seção – Discos

  • O título é pouco original, mas bem eficiente. “2001: Uma Odisséia na Europa”, lançado pelo Jason é, sem dúvidas, a melhor novidade sobre música escrita no Brasil que as prateleiras das livrarias devem receber em 2005. Uma compilação dos diários de viagem que o vocalista (e, por acaso, também jornalista) Leonardo Panço fez quando a banda esteve em turnê no velho continente. De quebra, também as passagens que o grupo fez pelo Nordeste e sudeste do Brasil.

    Muito mais que interessante, o livro é necessário. Não se resume a um item de fã (aliás, longe da pretensão de uma banda independente que sempre se pautou pela modéstia), mas sim as respostas para todas as perguntas importantes e bobas que alguém gostaria de saber antes de embalar as guitarras e pratos de bateria para uma viagem em território desconhecido. Se pagam bem, os shows lotam ou, até mesmo, se a cerveja é boa.

    De vilas com 10 mil habitantes a grandes centros urbanos como Berlim, Panço (apelido de Leonardo Fernandes Cardoso), explica tudo em detalhes e com muito bom humor. Não tem nenhuma unidade estrutural dentro do texto, que ora aparece com datas, ora sem, mas o autor se mostra sempre consciente disso. Afinal, foram escritos todos em ocasião diferente de viagem, na época ainda sem a intenção de ser publicado em livro, já que os anteriores saíram em versão de fanzine, mais simples e barato.

    O Jason descobriu na Europa um paraíso para as bandas de hardcore que conseguem se manter na independência. Mesmo nas cidades menores existem prédios onde em cada andar funcionam estúdios, lojas de cds, selos, espaço para shows e refeitórios. Em algumas, quem decide o valor do show é o público, que paga quanto quer. Em outras, a banda ficava não só com o dinheiro da entrada, mas até mesmo com o do bar. Em todos os lugares, uma sensação de união que vencia obstáculos de idioma, situação que ele até brinca falando “por aqui, essa história de que todos falam inglês é lenda”.

    Mostra também que nada é perfeito como se imagina. A banda passou por momentos complicados como 12 horas sem banho, complicação para comprar comida e até mesmo descobrir que tiveram 10 shows cancelados no dia que chegaram na Alemanha. No fim, é um registro que vale a pena ler, tanto pelo bom humor que as histórias são contadas (é difícil encontrar alguém que não adore um “causo”) como pela experiência que a banda ganhou nas terras gringas.

    Publicada originalmente em 14.06.05 

    Seção – Reportagens

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