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Esse é um dos meus textos favoritos até hoje

Antônio Luiz Júnior, 33 anos, natural de São Paulo, tem como sonho viver de música. Entra na sede da Ordem dos Músicos, preenche os formulários, mas é vetado no teste. O motivo, ele queria fazer a prova de canto com um rap. “Tive que cantar um samba, porque eles não aceitavam que eu, como rapper, cantasse um rap”. Naquela época, quem aplicou a prova pode até ter feito piada, mas hoje, se for descoberto, vai morrer de vergonha do que fez. Antônio Luiz, hoje o Rappin Hood, já tinha provado que é músico e agora, quando lança “Sujeito Homem 2”, segunda parte de uma trilogia, começa a provar que o Rap é parte da Música Popular Brasileira.

“Eu quero ser brasileiro. Meu RG é Made in Brasil!”, fala empolgado, enquanto explica as misturas do novo disco, recheado de samba e músicas da velha guarda. “Cada vez eu fui me misturando mais, me sentindo a vontade ali dentro daquela atmosfera”, lembra o artista, que já tinha feito a experiência só que com muito mais modéstia no primeiro disco da série. “Em cima da cadência do samba, eu vou rimando. Não quero ser cópia de um rapper americano”, se defende.

Ele não está sozinho na empreitada. Nas faixas, Caetano Veloso, Jair Rodrigues e Cláudio Zoli são só algumas das vozes que se rendem as batidas de Rappin Hood, que assume o capuz e literalmente entrega a música dos ricos, aos pobres. “Eu não faço nada que não seja minha cara! Meu trabalho eu só faço o que quero, seja na gravadora onde for!” argumenta logo antes que alguém invente dizer que as participações são algum tipo de contrato. “Foi algo que aconteceu, fui encontrando as pessoas e trocando idéias. A única coisa proposital é que eu não quis convidar nenhum rapper dessa vez. Todas as rimas são minhas”.

Com essa reinvenção do rap, o artista continua na batalha para desassociar a música da violência. “Dizem que é som de ladrão e, na verdade, existem até pessoas de dentro do movimento que se confundem”, comenta em tom triste. “Eu não quero que o irmão escute e se revolte, que queira quebrar tudo. Quero que ele aprenda a contestar, perguntar, tudo de forma organizada”, reflete.

Agora, ele entra em temporada de divulgação do novo trabalho. “Já tenho alguns show programados em Curitiba, Porto Alegre e São Paulo. Queria muito conseguir ir para Recife, porque tenho vários amigos ai. Os parceiros do Faces do Subúrbio e Sistema X”, explica, sem esconder que a vontade não é restrita só na música. “Quero conhecer o Alto José do Pinho, o Pina de Copacabana, Boa Viagem e todas as histórias que chegam até aqui em São Paulo”.

VINCULADA – O rap reinventado na batida do samba

O segundo ato de “Sujeito Homem” abre com uma música incidental, tema da novela “Escrava Isaura” e um recado falado contra a cultura do “mão na cabeça” e repressão. Toda e qualquer semelhança com algum rap que você já ouviu em sua vida encerra aqui, no momento após o silêncio onde Rappin Hood anuncia a faixa dedicada a Martin, o filho que aparece na capa. Para não causar impacto forte, a transição começa devagar, com a ainda um tanto comum “Us Guerreiro”, faixa que faz uma dobradinha com outra um pouco mais adiante.

Mas é na terceira, que curiosamente não foi escolhida para trabalho, que o rapper começa sua revolução. Ele já prepara o ouvinte que essa “é para entrar na história”. A música, em parceria com Jair Rodrigues, mistura o rap com “Disparada”, canção que ganhou primeiro lugar no festival da Record 1966, com uma harmonia tão grande que assusta. Para manter o fôlego, “Us Playboy” e “Ex-157” voltam ao mote mais modesto. É o momento em que MPB e Rap começam a se misturar na cabeça do ouvinte.

Dai em diante ele segue fazendo misturas com “Odara, Preciso me Encontrar”, faixa onde faz uma breve dialogo com Cartola, acompanhado por Zélia Duncan. A proximidade com o samba se estreita mais em “Dia de Desfile II”, onde Rappin Hood canta a apoteose do rap da periferia durante o Carnaval. Com porte de respeito, as rimas do rap ficam mais de fundo e dão lugar aos scratchs que ditam o ritmo de “Favela” na voz de Arlindo Cruz.

O disco encerra dando reforço nas mensagens de paz. Essa última parte começa com uma reza junto a Gilberto Gil, que canta em “Axé” parte de sua “Andar com Fé”. Fica curioso a maneira como as batidas do rap agora voltam como um som natural para quem acompanhou todo o CD, prova de que, antes mesmo do show que encerrará o vindouro “Sujeito Homem 3”, Rappin Hood já pode declamar missão cumprida.

Publicadas originalmente no dia 12 de abril de 2005

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